APRENDER A SOFRER

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[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]

Na casa onde nasci e vivi os primeiros anos da minha caminhada terrena, havia um berço – vários pedaços de madeira, unidos com mais segurança do que beleza artística – obra, dizia minha mãe, do pai – assim, sem pronomes nem adjectivos, porque todos sabíamos que, para nós, “o pai” só podia ser um – obra do pai para todos os filhos, que foram nascendo, até ao último; afinal, o único que vi ser embalado e adormecer nesse berço, tão carinhosamente construído e conservado.

Era o mais novo de todos e dos que chegaram à idade adulta, foi também o primeiro a partir, já lá vão algumas décadas.

Às vezes, encantado com aquele rosto sereno, de olhos bem fechados, parava por momentos, a procurar nem sei bem o quê: evitava que acordasse, porque, além de desaparecer esse encanto, se ele chorasse, teria de chamar logo a mãe, ou a irmã mais velha, que andava sempre por perto.

Durante muito tempo, ouvia com espanto a resposta que não raro me vinha, sobretudo da mãe; a mãe, que, quando aparecia, chegava sempre serena, com palavras de carinho que me soavam a hinos angélicos, mas que me pareciam próprias dela e que eu, ao contrário de outros adultos, nunca tive coragem de repetir com nenhum bebé.

Devo, no entanto, dizer que a resposta de minha mãe era muitas vezes desconcertante: “deixa chorar, porque assim lhe crescem os pulmões!

Desconcertavam-me as palavras e também o facto de surgirem em ocasiões muito específicas, que não conseguia distinguir das outras.

Mais tarde aprendi que as mães percebem, no choro da criança, quando chora por algo que exige socorro imediato, um ou outro capricho, ou apenas porque querem mais um gesto de carinho… e apercebi-me de que aqui se manifestava, no seu mais alto grau, a pedagogia materna, que, sem discursos nem brinquedos alternativos, ia ensinando à pessoa que gerara e amava mais do que ninguém, que não podemos ter tudo o que queremos, sempre e como o queremos.

A vida foi-me depois ensinando muitas coisas; e ainda hoje, passados tantos anos, a aprendizagem se torna por vezes particularmente dolorosa: porque o crescer na idade, como, aliás nos ensina a Sagrada Escritura, com discursos e todo o tipo de figuras literárias, não coincide nunca com o crescer na sabedoria que fez grandes santos, entre crianças, jovens e adultos.

No norte da África romana, no dealbar do século V, o santo bispo de Hipona, ao comentar o salmo 33(34), dizia na sua pregação:

“É inevitável que, neste mundo, tu sofras. É necessário que experimentes tentações e inclinações malditas. Mas, por fim, Deus purificará tudo, libertar-te-á de toda a tribulação: tu, portanto, procura-o.” (Santo Agostinho, Comentário ao salmo 33, d. 2, 😎.

Cerca de um século antes, falando da proximidade da Pascoa, escrevia Gregório, o santo bispo de Nazianzo:

“Aceitemos tudo por amor do Verbo, imitemos com os nossos sofrimentos a sua paixão, honremos com o nosso sangue o seu Sangue, e subamos corajosamente à sua cruz.

Se és Simão Cireneu, toma a cruz e segue o Senhor.

Se és crucificado com Ele como um ladrão, faz como o bom ladrão e reconhece a Deus; se por tua causa Ele foi tratado como um malfeitor, torna-te justo por seu amor.

Preso à tua cruz, adora Aquele que por ti foi crucificado; aprende a tirar proveito da tua própria iniquidade, adquire com a morte a salvação. Entra com Jesus no Paraíso, para compreenderes o bem que perdeste com a tua queda; contempla as belezas daquele lugar e deixa que o ladrão rebelde fique dele excluído, morrendo na sua blasfémia.

Se és José de Arimateia, pede o corpo de Cristo a quem O crucificou, e assim será tua a vítima que expiou o pecado do mundo.

Se és Nicodemos, o adorador nocturno de Deus, unge-O com aromas para a sua sepultura.

Se és Maria, ou a outra Maria, ou Salomé, ou Joana, chora por Ele, levanta-te de manhã cedo, e procura ser o primeiro a ver a pedra removida e a encontrar talvez os Anjos ou, melhor ainda, o próprio Jesus”.

São os grandes teólogos de hoje que o dizem: num mundo marcado pela dor e a morte, querer a todo o custo evitar o sofrimento, será sempre lançar-se na auto-estrada do erro e da mentira. Não conseguindo senão produzir ainda ais sofrimento.

Afinal, a mensagem cristã, que, antes de tudo e acima de todos discursos mais ou menos bem estruturados, é uma pessoa, e esta crucificada.

Como escreve São Paulo:

“Porque os Judeus pedem milagres, ao passo que os Gregos pedem sabedoria. Nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que é escândalo para os Judeus e loucura para os gentios. Para os chamados, porém, Judeus e Gregos, Cristo é a sapiência e a força de Deus.” 1 Cor 1, 22-25.

Como queremos nós que aceitem este Evangelho, as pessoas formadas na ânsia do ter, sempre considerando as privações como algo negativo, mesmo quando exigidas pela realizações dos próprios sonhos de posse?

Não defendo o regresso ao tempo em que, enquanto as meninas faziam as suas bonecas dos trapos que sobravam às costureiras, e os rapazes construíam brinquedos de cana ou de sabugueiro. Não defendo isso, mas confesso que experimentávamos uma felicidade que não vejo nas crianças de hoje.

O que me parece é que uma educação totalmente centrada no prazer do consumo – o prazer, o luxo, a fama, o poder -, prepara muito mal para a vida, que não torna feliz quem a abraça sem os horizontes que lançam para além dela.

(Fátima, 26.03.28, [no 119º aniversário natalício da Venerável Ir. Lúcia de Jesus])

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