Da violência à paz, do deserto ao jardim

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Uma espada e uma relha de arado podem ser forjadas no mesmo metal. Uma serve para ferir e destruir; a outra abre a terra, acolhe a semente e prepara o alimento. Entre ambas não muda apenas a forma: muda a finalidade que o ser humano lhes atribui. É esta transformação que o profeta Isaías coloca diante dos povos: «Transformarão as suas espadas em relhas de arados e as suas lanças em foices» (Isaías 2, 4).

A profecia não descreve uma paz ingénua nem o desaparecimento mágico dos conflitos. Contempla os povos a aprenderem os caminhos de Deus e a transformarem instrumentos de morte em instrumentos que sustentam a vida. Aquilo que destruía passa a produzir pão.

Foi esta passagem bíblica que o Papa Leão XIV escolheu como tema da sua mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado em 1 de setembro de 2026. A escolha estabelece uma ligação directa entre a paz, o cuidado da terra e a conversão do coração. Num tempo marcado por guerras, deslocações forçadas, desigualdades e degradação ambiental, o Papa convida a humanidade a mudar a finalidade dos seus recursos, das suas capacidades e do poder que tem nas mãos.

Uma jornada com raízes ecuménicas

O Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação nasceu de um caminho ecuménico. Em 1989, o patriarca ecuménico Dimitrios I, em conjunto com o Santo Sínodo de Constantinopla, determinou que o dia 1 de setembro, início do ano litúrgico ortodoxo, fosse dedicado à oração pela protecção do ambiente. A iniciativa recordava que a destruição ambiental não é apenas uma questão científica, económica ou política: revela também como o ser humano compreende o seu lugar no mundo e exerce o poder sobre aquilo que recebeu.

Em 2015, depois da publicação da encíclica Laudato si’, o Papa Francisco instituiu esta celebração na Igreja Católica, mantendo a data como sinal de comunhão com os cristãos ortodoxos. O dia permitiria renovar a vocação de guardiões da criação, agradecer a Deus a obra recebida, pedir auxílio para a proteger e misericórdia pelas ofensas cometidas contra o mundo.

O dia 1 de setembro tornou-se também o início do Tempo da Criação, percurso ecuménico que se prolonga até 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. Entre estas datas, os cristãos são convidados a rezar, contemplar, rever estilos de vida e assumir compromissos. O cuidado da criação apresenta-se, assim, não como preocupação lateral da fé, mas como dimensão da conversão cristã.

Um mundo ferido por uma única crise

Leão XIV começa por recordar, a partir do Evangelho segundo São João, que Jesus veio oferecer a vida em abundância (João 10, 10). A vida é dom de Deus e encontra-se no centro da missão cristã. Contemplá-la, defendê-la e cuidar da terra que a sustenta são formas concretas de louvar o Criador.

A terra alimenta, acolhe e torna possível a vida humana, mas não vale apenas pela utilidade que dela retiramos. Não é uma reserva ilimitada de matérias-primas entregue ao arbítrio dos mais fortes. É dom recebido e responsabilidade partilhada.

O Papa observa que o sofrimento humano e a perturbação do equilíbrio da criação constituem «um único apelo à cura e à paz». Não estamos perante duas crises independentes, uma humanitária e outra ambiental. As mesmas lógicas de domínio, indiferença e benefício imediato ferem as pessoas, desorganizam as comunidades e esgotam a terra.

Esta ligação torna-se visível na guerra. Os conflitos matam, separam famílias e expulsam populações, mas deixam também solos contaminados, florestas destruídas, campos abandonados e água imprópria para consumo. A degradação ambiental agrava a pobreza e a escassez de bens essenciais, podendo alimentar novas tensões. As primeiras vítimas são habitualmente as populações com menos meios para se protegerem ou recomeçarem.

A guerra não representa, portanto, apenas um fracasso diplomático ou político. É também uma derrota moral e espiritual: nega a fraternidade e transforma o poder recebido para servir numa capacidade de dominar e destruir. O cuidado da criação e a construção da paz pertencem à mesma responsabilidade.

Os desertos começam no coração

Seria insuficiente atribuir todos os males apenas aos sistemas económicos, às decisões políticas ou aos interesses militares. As estruturas têm de ser transformadas, mas reflectem valores, desejos e escolhas humanas.

A constituição pastoral Gaudium et spes relaciona os desequilíbrios do mundo com uma desordem enraizada no coração humano. Leão XIV apresenta o coração como o centro da pessoa, onde convergem razão, desejo, vontade e consciência e se trava a luta entre amor e indiferença, verdade e ilusão, justiça e injustiça.

Quando o coração perde o sentido dos limites, a pessoa passa a valer pelo que produz, a terra pelo lucro que oferece e a técnica pela capacidade de aumentar o domínio. O desejo de possuir substitui a gratidão e faz esquecer as gerações futuras.

Bento XVI exprimiu esta relação através de uma imagem recuperada pela Laudato si’: os desertos exteriores alargam-se quando crescem os desertos interiores. Quem se considera separado dos outros e da criação encontra maior facilidade em explorar, desperdiçar ou destruir.

Isto não significa colocar sobre cada pessoa toda a responsabilidade por problemas globais, como se alguns hábitos domésticos bastassem. São necessárias leis, instituições e decisões económicas. Mas nenhuma reforma será duradoura se permanecer intacta a lógica que produziu a exploração. A conversão é pessoal e colectiva: começa no coração, manifesta-se nas relações e alcança as escolhas sociais.

Três ecossistemas confiados ao nosso cuidado

Leão XIV fala dos ecossistemas da criação, das relações humanas e do coração. O primeiro é ferido pela exploração; o segundo, pela violência, injustiça e exclusão; o terceiro, pelo egoísmo, indiferença e vontade de domínio.

A cura percorre os mesmos níveis. Um coração renovado aprende a agradecer e a aceitar limites. Relações reconciliadas geram comunidades mais justas, capazes de criar estruturas que protegem a dignidade humana e a criação.

É este o sentido da conversão ecológica proposta pela Laudato si’: permitir que o encontro com Jesus Cristo produza consequências na relação com o mundo. A fé não afasta o cristão das responsabilidades terrenas. Ensina-o a receber a criação como dom, a habitá-la com gratidão e a transmiti-la sem a empobrecer.

Transformar as espadas do nosso tempo

A imagem de Isaías não se refere apenas às armas. A ciência e a tecnologia podem aperfeiçoar instrumentos de morte ou procurar respostas para a fome, a doença e a crise ambiental. Os recursos económicos podem alimentar a corrida aos armamentos ou ser orientados para o desenvolvimento humano, a superação da pobreza e a reconciliação.

Transformar espadas em arados significa mudar prioridades. Não se trata de rejeitar o progresso, a ciência ou a capacidade humana de intervir na natureza, mas de perguntar ao serviço de quem e de quê são colocados. O critério cristão não é a quantidade de poder alcançado, mas a vida que esse poder permite proteger e fazer crescer.

As ferramentas da paz são a verdade, o diálogo, a paciência, a justiça, a misericórdia e o cuidado. Parecem frágeis diante das armas, mas são as únicas capazes de reconstruir relações e criar uma paz que não dependa do medo. Cuidar da criação é recusar que o mais forte se aproprie das pessoas, dos povos e dos bens da terra.

Esta imagem não tem texto alternativo. O nome do ficheiro é: Dia-Mundial-de-Oracao-pelo-Cuidado-da-Criacao.jpg

O que pode fazer um cristão

A responsabilidade ecológica não está reservada a cientistas, governantes ou ambientalistas, nem é um acrescento facultativo à fé. A Laudato si’ recorda que viver como guardião da obra de Deus faz parte da existência cristã. Essa responsabilidade deve traduzir-se em escolhas verificáveis e adequadas às possibilidades de cada pessoa.

Reaprender a contemplar e a agradecer. O primeiro gesto não é consumir melhor, mas olhar de outra maneira. A oração, o contacto atento com a natureza, a Palavra de Deus e a gratidão pelos alimentos formam um coração capaz de receber o mundo como dom e não como propriedade.

Examinar o próprio estilo de vida. Importa rever a utilização da água e da energia, os transportes, a alimentação, as compras e os resíduos. Não para alimentar culpa, mas para reconhecer desperdícios e escolher mudanças concretas. Uma decisão pequena e mantida é mais fecunda do que muitas intenções vagas.

Adoptar uma sobriedade livre. Distinguir o necessário do supérfluo, comprar menos, preferir bens duradouros, reutilizar e partilhar são formas de liberdade. Não se trata da austeridade imposta a quem pouco possui, mas da renúncia voluntária de quem não quer viver à custa dos outros ou do futuro.

Evitar o desperdício. Planear as compras, aproveitar e partilhar alimentos e moderar o consumo de água e energia são práticas simples com efeitos reais. Aquilo que parece ilimitado tem custos que nem sempre aparecem na factura.

Escolher uma mobilidade responsável. Sempre que seja possível, caminhar, usar a bicicleta, recorrer aos transportes públicos ou partilhar deslocações reduz a poluição. Nem todos possuem as mesmas alternativas. Importa escolher a solução menos prejudicial entre as que estão realmente disponíveis, sem julgar quem tem menos opções.

Cuidar do território próximo. Preservar a água e os solos, proteger árvores e espécies locais e recuperar espaços são formas concretas de responsabilidade ambiental. As propriedades das paróquias e instituições católicas podem dar exemplo na gestão da água, energia, resíduos e áreas verdes.

Transformar as comunidades cristãs. Paróquias, movimentos e instituições podem avaliar consumos, reduzir materiais descartáveis, evitar o desperdício alimentar, separar resíduos, melhorar os edifícios e adoptar critérios ambientais nas compras. Estas medidas devem ser relacionadas com a fé e não aparecer como simples decisões administrativas.

Exercer uma cidadania informada. Um cristão deve procurar informação credível, participar nas decisões que afectam a comunidade e exigir medidas de prevenção da poluição e dos incêndios, gestão da água, protecção dos ecossistemas e transição energética justa. Deve também apoiar caminhos de paz e questionar prioridades que destinam à destruição recursos necessários para combater a pobreza.

Unir o cuidado da terra ao cuidado das pessoas. Os pobres, idosos, doentes, migrantes, pequenos agricultores e povos atingidos por guerras ou catástrofes são frequentemente os primeiros a sofrer. A solidariedade e a defesa da dignidade humana fazem parte da responsabilidade ecológica. Não há cuidado da casa comum quando alguns habitantes são tratados como descartáveis.

Ninguém conseguirá realizar tudo ao mesmo tempo. O caminho cristão não é uma procura ansiosa de perfeição ecológica, mas um processo de conversão feito de escolhas possíveis e perseverança. Importa começar e deixar que os compromissos se alarguem à família, à comunidade e à participação social.

Do deserto ao jardim

A profecia de Isaías não pede que o metal desapareça, mas que seja novamente forjado. As mesmas mãos que fabricam uma espada podem construir um arado. A mesma inteligência que explora pode aprender a cuidar. A mesma liberdade que escolhe dominar pode converter-se ao serviço.

Celebrar este Dia Mundial é colocar a transformação diante de Deus. A oração não substitui a responsabilidade nem tranquiliza consciências: abre o coração à graça e dá força para agir. A acção sem oração pode perder a esperança ou reproduzir a vontade de domínio que pretende combater.

Leão XIV convida cada pessoa, cada comunidade e cada povo a orientar para a vida aquilo que hoje serve a destruição. O caminho é exigente, mas cada coração renovado, cada relação reconciliada, cada pedaço de terra protegido e cada recurso colocado ao serviço do bem comum antecipam a promessa de Deus. É assim que a humanidade pode passar «do deserto ao jardim, da divisão à comunhão e da violência à paz».

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