As parábolas ocupam um lugar central na actividade pública de Jesus. Constituem um dos seus recursos comunicacionais mais característicos e um modo privilegiado de anunciar o Reino de Deus. Umas resumem-se a poucas frases; outras apresentam personagens, conflitos e desfechos inesperados. Todas, porém, partilham a mesma lógica: em vez de explicarem directamente uma verdade, criam uma situação que obriga o ouvinte a tomar posição.
Depois da parábola do Semeador, os discípulos perguntam a Jesus por que razão fala em parábolas (Mc 4, 10-12). A resposta não é simples, mas o conjunto dos Evangelhos revela uma ideia fundamental: a parábola distingue quem apenas ouve de quem procura compreender. Não dispensa o esforço de interpretação; exige-o.
Jesus inscreve-se, assim, na tradição sapiencial e profética de Israel, que recorria a provérbios, enigmas e narrativas simbólicas para despertar a inteligência. As suas histórias começam geralmente em cenários familiares: um agricultor semeia, um pai espera pelos filhos, um viajante percorre uma estrada ou um proprietário contrata trabalhadores. A surpresa surge quando a narrativa abandona o caminho previsível e altera as expectativas do ouvinte.
Tornar-se próximo
A parábola do Bom Samaritano é um dos exemplos mais conhecidos desta estratégia (Lc 10, 25-37). Um doutor da Lei pergunta a Jesus: «Quem é o meu próximo?» Espera uma definição que estabeleça até onde se estende a obrigação de amar. Jesus responde com uma história.
Um homem que desce de Jerusalém para Jericó é assaltado e deixado meio morto. Um sacerdote e um levita passam sem o ajudar. Finalmente, um samaritano, pertencente a um povo desprezado por muitos judeus, aproxima-se, trata as feridas, transporta o homem e assegura os cuidados necessários.
Jesus termina com outra pergunta: «Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem?» A mudança é decisiva. O problema já não consiste em determinar quem merece ser amado, mas em descobrir quem se torna próximo através da maneira como age. O ouvinte deixa de procurar uma categoria abstracta e passa a interrogar a própria conduta.
Uma festa com final em aberto
Algo semelhante acontece na parábola do pai misericordioso e dos dois filhos (Lc 15, 11-32). O filho mais novo exige a herança, abandona a casa e desperdiça os bens. Quando regressa, espera ser recebido como empregado. O pai, porém, corre ao seu encontro, abraça-o e organiza uma festa.
A história poderia terminar como uma celebração do perdão, mas é então que surge o filho mais velho. Permaneceu fiel e cumpriu sempre o seu dever, mas recusa entrar na festa. A parábola termina sem revelar a sua decisão.
Esta abertura é deliberada. O verdadeiro final pertence ao ouvinte, convidado a responder à pergunta deixada em suspenso: permanecerá fora, prisioneiro do ressentimento, ou aceitará participar na alegria do reencontro?
Escutar, acolher e não comparar
Na parábola do Semeador (Mc 4, 1-20), a semente cai à beira do caminho, entre pedras, no meio dos espinhos e em terra boa. A narrativa parece descrever diferentes terrenos, mas conduz cada ouvinte a perguntar onde se encontra. Não é possível permanecer um observador neutro: a escuta transforma-se num exame interior.
A parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20, 1-16) provoca outro desconforto. Um proprietário contrata trabalhadores em diferentes momentos do dia, mas paga a todos o mesmo salário. Os que começaram de madrugada consideram injusto receber tanto como os últimos.
A narrativa não pretende estabelecer princípios laborais. Questiona a tendência humana para medir todas as relações pela comparação. O escândalo nasce porque a generosidade do proprietário ultrapassa o cálculo habitual da reciprocidade. A parábola não discute salários, mas a imagem que fazemos da justiça de Deus.
A inversão das aparências
A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14) concentra, em poucas linhas, a mesma capacidade de inversão. Dois homens sobem ao Templo para rezar. O fariseu representa a observância religiosa; o publicano pertence a um grupo mal visto e associado ao poder romano. Tudo parece indicar qual deles será apresentado como exemplo. No entanto, é o publicano quem regressa justificado.
A surpresa não procura provocar gratuitamente. Serve para desmontar a confiança excessiva nas aparências religiosas e deslocar o olhar do comportamento exterior para a disposição interior. Mais uma vez, o ouvinte é levado a perguntar onde verdadeiramente se encontra.
Histórias que continuam dentro de quem escuta
Estas parábolas tratam temas diferentes — o próximo, o perdão, a escuta, a justiça e a humildade —, mas partilham uma notável coerência comunicacional. Nenhuma entrega simplesmente uma resposta acabada. O problema deixa de estar apenas na história e passa a localizar-se no próprio ouvinte.
Esta é uma das grandes originalidades da pedagogia narrativa de Jesus. Enquanto muitos discursos procuram convencer pela acumulação de argumentos, as parábolas criam um espaço interior onde a conclusão pode nascer.
A história deixa, então, de ser apenas aquilo que Jesus conta. Passa a ser aquilo que começa a acontecer dentro de quem escuta. É essa transformação que importa compreender do ponto de vista comunicacional.