[Nota do editor: Em memória do padre Augusto Ascenso Pascoal e como homenagem ao seu legado espiritual e pastoral, continuaremos a publicar os textos que foi partilhando na sua página pessoal, permitindo que a riqueza da sua reflexão permaneça acessível aos leitores.]
Numa madrugada de insónia, como vão sendo, nos últimos meses, todas as minhas madrugadas, ouvi dizer, através da rádio, que a comissão (mais uma!), encarregada de estudar, nos ambientes culturais, desportivos e artísticos o tema, a todos títulos doloroso dos abusos sexuais, especialmente contra mulheres e menores, ouvi dizer que esta comissão tinha o projecto de publicar sobre o tema, lá para o fim do ano, um “Manual de Boas Práticas”.
Não tenho nada contra a existência dessa comissão e respectivos projectos, ainda que precise de me violentar um pouco para não ceder à tentação de dizer o que penso acerca das suas limitações, aliás muito claras, pelo menos para quem repara na própria linguagem utilizada, incluindo os objectivos que se prpõe.
O que desejaria frisar, neste momento, para evitar qualquer equívoco, era que, pelo menos directamente, o título desta minha reflexão matinal não tem nada a ver com a temática que será, creio eu, desenvolvida pelos estudos que estarão na base do anunciado manual.
Nas regiões que utilizam a liturgia latina, seguindo os livros aprovados pela última reforma do Missal e do Ritual Romanos, chama-se a esta quinta-feira, primeiro dia do também actualmente designado Tríduo Pascal: tríduo, porque se encerra com a soleníssima vigília do Sábado Santo, antes também chamado Sábado de Aleluia – chama-se a esta quinta-feira, Quinta-feira Santa.
O seu nome mais antigo, mantido em certas tradições populares, em festejos e topónimos de várias latitudes, era “Quinta-feira de Endoenças”.
Endoença, segundo os melhores dicionários, deriva do latim INDULGENTIA, indulgência, perdão… o que aponta para uma prática especial do sacramento da Reconciliação, segundo a designação actualmente usada e que, de facto, será mais correcta, tanto do ponto de vista litúrgico, como teológico, do que as tradicionais “penitência” e “confissão”; uma e outra ainda hoje muito persistentes na linguagem popular, talvez porque não se tem feito uma adequada catequese sobre este sacramento.
Aliás, haverá alguma coisa na liturgia cristã de qualquer rito, que não exija uma catequese adequada? Também todos sabemos que, de um modo geral, a própria liturgia, pelo carácter visível e cultural dos seus ritos, é já de si, desde o princípio uma grande catequese. Catequese sem a qual voltamos ao ritualismo dos fariseus mais cumpridores e que Jesus tenta frequentemente ultrapassar, não condenando os ritos, mas salientando o seu significado.
Eles não o entenderam?
Alguns sim; não, todavia, como classe ou grupo militante.
Não o entenderam os fariseus do tempo de Jesus, Será que, na sua grande maioria, o entendem os cristãos dos nossos dias?
Sem querer ofender ninguém: tê-lo-ão entendido verdadeiramente os responsáveis das comunidades celebrativas? Já não falo dos que transformaram em anarquia a margem de criatividade permitida pela autoridade competente: refiro-me, pelo contrário aos que, com argumentos capciosos, rejeitam, na prática, essa margem e sacralizam, sem qualquer explicação, pormenores legítimos, alguns mesmo obrigatórios, mas que se tornam negativos, se não lhes explicamos o sentido teológico e pastoral.
Tenho para mim que este é um dos espaços privilegiados, desde a mais antiga liturgia cristã – podemos até dizer, toda a liturgia, incluindo o culto dos deuses – para o anúncio da Boa Nova da Redenção: se o meu pensamento está correcto, a “nova evangelização” recomenda pelos últimos papas, tem necessariamente de aproveitar a liturgia: porque ela é já, creio eu, uma grande evangelização.
Tudo a exig’r, da parte dos liturgos – sacerdotes, em primeiro lugar – um conhecimento profundo dos mistérios que se celebram.
Profundo, aqui, além dos aspectos intelectuais, especulativos, abrange o sentido de oportunidade, a fé e a intimidade com Deus: tudo a pedir ao sacerdote mais tempo e energias para estudar, rezar e acolher os que procuram, não uma felicidade qualquer, mas aquela que eles próprios percebem só poder vir de Deus.
Foi isto que me trouxe a ideia de um “manual de boas práticas” para todos, mas de modo especial para aqueles a quem a Igreja, através do sacramento da Ordem, confiou o exercício do sacerdócio ministerial.
Depois, pensando bem, lembrei-me dos rituais entregues pela mesma Igreja, em obediência aos votos de reforma do Concilio Vaticano II: noutros tempos, os ritos estavam todos contidos num único volume, que tinha o nome genérico de Ritual Romano. Muito prático, mas também muito pobre, quanto a conteúdos doutrinais.
Hoje temos vários livros, com muitas páginas de doutrina teológica, canónica e pastoral, consoante os sacramentos e as celebrações.
Riqueza enorme, que dispensa qualquer manual de boas práticas.
Só é de lamentar que, em variadíssimos casos, esses livros sejam abertos quase sempre nas mesmas páginas, que não são, obviamente as da doutrina.
Por isso deixo aqui a minha homenagem àquele professor de liturgia, já chamado por Deus ao prémio eterno, que tomava como texto obrigatório, dele e dos alunos, a leitura comentada das introduções (lat. PRAELIMINARIA), dos rituais dos sacramentos publicados após o Concílio.
(Fátima, 26.04.02… Quinta-feira Santa)