Os símbolos que nos unem

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Num tempo em que tudo parece discutível, relativo ou transitório, vale a pena refletir sobre a importância dos símbolos. A recente conversa pública em torno dos símbolos nacionais e das bandeiras que podem ou não ser hasteadas em edifícios públicos, recorda-nos uma verdade muitas vezes esquecida: as comunidades humanas não vivem apenas de leis, de instituições ou de interesses. Vivem também de símbolos, de memórias e de referências comuns.

A Constituição da República Portuguesa de 1976 identifica a Bandeira Nacional e o Hino Nacional como símbolos do Estado. A estes símbolos junta a língua portuguesa como expressão da identidade coletiva. Curiosamente, o Presidente da República, embora represente a Nação e a unidade do Estado, não é constitucionalmente considerado um símbolo nacional. É um órgão de soberania, não um símbolo.

Esta distinção jurídica ajuda-nos a compreender algo mais profundo. Os símbolos não existem para exercer poder. Existem para criar pertença. Uma bandeira não governa. Um hino não legisla. Uma língua não decreta leis. Mas todos eles recordam quem somos, de onde vimos e o que partilhamos.

A tradição cristã compreendeu desde cedo a força dos símbolos. A cruz é talvez o exemplo mais evidente. Aos olhos do mundo romano era apenas um instrumento de suplício e morte. Para os cristãos tornou-se o sinal da esperança, da redenção e do amor levado até ao extremo. O mesmo acontece com a água do batismo, a luz do círio pascal ou o pão e o vinho da Eucaristia. São realidades simples que transportam um significado muito maior do que aquilo que os olhos conseguem ver.

Também a identidade portuguesa foi moldada por símbolos profundamente marcados pela cultura cristã. Basta pensar nas cruzes das caravelas, nas festas dos Santos Populares, nos caminhos de peregrinação, nos sinos das igrejas que durante séculos marcaram o ritmo das aldeias e cidades ou na própria língua portuguesa, enriquecida por séculos de espiritualidade, literatura e evangelização.

Quando uma sociedade perde os seus símbolos, corre o risco de perder também a sua memória. E, quando perde a memória, pode tornar-se mais vulnerável à fragmentação e ao individualismo. Não é por acaso que as grandes crises culturais são frequentemente acompanhadas por uma erosão dos símbolos comuns.

Num mundo globalizado e digital, onde as identidades parecem cada vez mais fluidas, precisamos de redescobrir o valor dos símbolos que unem sem excluir, que recordam sem aprisionar e que inspiram sem impor. Precisamos de bandeiras que não sejam armas de divisão, mas sinais de pertença. Precisamos de uma língua que seja ponte e não muro. Precisamos de uma memória coletiva capaz de dialogar com o futuro.

A fé cristã recorda-nos que os símbolos mais importantes são aqueles que apontam para algo maior do que nós próprios. A cruz aponta para Cristo. A bandeira aponta para a Pátria. O hino aponta para a história comum. A língua aponta para uma comunidade de pessoas. Todos eles nos recordam que ninguém vive sozinho e que a identidade não é apenas uma escolha individual, mas também uma herança recebida e uma responsabilidade a transmitir.

Num tempo de mudanças rápidas, talvez seja este um dos maiores desafios dos novos tempos: saber preservar os símbolos que nos unem sem deixar de construir o futuro que nos espera.

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