Nunca ninguém falou assim

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Há frases que atravessam o tempo de forma quase inexplicável. Sobrevivem a séculos, culturas, impérios e mudanças civilizacionais, continuando a provocar qualquer coisa dentro de nós. “Nunca ninguém falou assim” é uma dessas frases. A expressão surge no Evangelho de São João num contexto de tensão crescente. As autoridades religiosas tinham enviado guardas para prender Jesus. Era uma ordem clara, simples e objectiva. Mas os homens regressam sem o trazer. E quando lhes perguntam porque falharam, respondem apenas isto: “Nunca nenhum homem falou assim!” (Jo 7,46). A força desta frase está precisamente no facto de não nascer da fé dos discípulos nem da admiração das multidões. Nasce do espanto de homens enviados para controlar uma situação e que acabam, eles próprios, desarmados pela palavra de alguém aparentemente sem poder.

Dois mil anos depois, continuamos diante da mesma pergunta: o que havia de tão diferente na comunicação de Jesus?

Talvez a questão seja hoje ainda mais pertinente. Vivemos numa época saturada de palavras. Nunca existiram tantos meios para comunicar, tantas plataformas, tantos conteúdos e tantas opiniões disponíveis a toda a hora. Falamos permanentemente, comentamos tudo, reagimos a tudo e publicamos tudo. E, paradoxalmente, torna-se evidente uma estranha sensação de vazio comunicacional.

O sociólogo e teórico da comunicação Marshall McLuhan observava que cada nova tecnologia altera não apenas a forma como comunicamos, mas também a maneira como percebemos o mundo. A abundância contemporânea de meios criou possibilidades extraordinárias de ligação, mas não eliminou uma necessidade profundamente humana: a necessidade de sermos verdadeiramente escutados. Há excesso de mensagens, mas falta encontro. Há excesso de informação, mas pouca escuta. Há excesso de opinião, mas escassez de verdadeira presença humana.

É precisamente neste contexto que a comunicação de Jesus continua surpreendentemente actual. Os Evangelhos mostram alguém profundamente atento à condição humana. Jesus não fala como quem recita fórmulas abstractas nem como quem pretende impressionar intelectualmente os interlocutores. Aproxima-se das pessoas através daquilo que elas vivem, conhecem e sentem.

O teólogo Romano Guardini escreveu que Jesus não comunicava uma doutrina exterior a Si mesmo; comunicava a própria realidade da sua pessoa. Talvez seja por isso que a Sua palavra não aparece nos Evangelhos como mera transmissão de conteúdos, mas como acontecimento de encontro. Jesus fala de sementes lançadas à terra, de pescadores cansados depois de uma noite sem peixe, de pais que esperam filhos perdidos, de mulheres que procuram moedas dentro de casa, de vinhas, de pão, de tempestades e de caminhos poeirentos. Jesus tinha uma capacidade extraordinária de transformar o quotidiano em revelação.

A comunicação de Jesus não nasce da distância, mas da proximidade. E talvez aqui resida uma das grandes diferenças em relação à comunicação contemporânea. Hoje existe permanentemente a tentação de transformar a comunicação numa simples gestão de impacto: captar atenção, gerar reacções, aumentar alcance e dominar narrativas. Jesus parece fazer exactamente o contrário. Ele nunca usa as pessoas como audiência; trata-as sempre como pessoas concretas.

Henri Nouwen observava que a verdadeira comunicação nasce da presença antes de nascer das palavras. Ao ler os Evangelhos, torna-se difícil não reconhecer esta dimensão. Jesus não se limita a falar às pessoas; caminha com elas, come com elas, escuta-as e entra nas suas histórias. Uma das razões pelas quais Jesus continua actual está precisamente aqui: Ele fazia as pessoas sentirem-se vistas. Num tempo em que tantos discursos procuram apenas convencer, mobilizar ou manipular, Jesus cria encontro.

Há ainda outro aspecto decisivo: a autoridade. Os Evangelhos repetem várias vezes que as multidões ficavam impressionadas porque Jesus “ensinava como quem tem autoridade”. Mas a autoridade de Jesus não nasce do espectáculo, da imposição ou da propaganda. Nasce da coerência.

John P. Meier, na sua extensa investigação histórica sobre Jesus, chama a atenção para o facto de a autoridade de Jesus surgir constantemente associada à sua pessoa e não a uma instituição, cargo ou poder político. A força da sua comunicação reside na credibilidade de quem fala. E é precisamente isso que o nosso tempo parece continuar desesperadamente a procurar. As pessoas continuam a procurar competência, mas procuram também autenticidade, verdade e humanidade.

Jesus unia palavra e vida. Nunca ninguém falou assim. Nunca ninguém tinha olhado assim para as pessoas.

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