Jubileu das Vocações reuniu em Fátima histórias de fidelidade e gratidão

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Cinquenta e dois jubilares da Diocese de Leiria-Fátima participaram, no dia 30 de maio, no Jubileu das Vocações, celebrado no Santuário de Fátima. Casais, sacerdotes e religiosas que assinalam, em 2026, 10, 25, 50, 60 ou mais anos de vocação reuniram-se para agradecer o caminho percorrido e renovar a consciência de que a vocação é um dom de Deus vivido ao serviço da Igreja e do mundo.

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Promovida pelo Serviço da Pastoral Familiar e pelo Serviço da Pastoral Vocacional, a iniciativa começou no Centro Pastoral Paulo VI com um momento de acolhimento e testemunhos, seguido da celebração da Eucaristia na igreja da Santíssima Trindade e de um almoço de convívio. Entre os participantes encontravam-se 48 casais, duas religiosas e dois sacerdotes.

Na abertura do encontro, o padre José Augusto Rodrigues, assistente do Serviço Diocesano da Pastoral Familiar, recordou que todas as vocações têm origem na mesma realidade fundamental: o Batismo. Citando o Evangelho do Batismo de Jesus, sublinhou que a certeza de sermos «filhos amados de Deus» está na base de todos os caminhos vocacionais. «Diferentes, complementares, mas todas elas expressão desta certeza de que somos filhos amados de Deus pelo batismo», afirmou.

O sacerdote transmitiu ainda uma saudação de D. José Ornelas, impedido de participar devido à celebração das exéquias do padre Augusto Pascoal, falecido na véspera. Recordando que o sacerdote seria também um dos jubilados deste ano, destacou a esperança cristã e a comunhão daqueles que já chegaram à meta da caminhada.

Histórias de amor construídas no quotidiano

Os testemunhos da manhã deram voz a dois casais que representam etapas diferentes da vocação matrimonial, mas que encontraram pontos comuns na forma como descrevem o casamento: uma caminhada feita de escolhas diárias, de crescimento conjunto e de confiança em Deus.

Susana e Igor, de Porto de Mós, celebram este ano 10 anos de matrimónio. Perante uma assembleia composta maioritariamente por casais com várias décadas de vida em comum, assumiram com simplicidade o desafio de partilhar uma experiência ainda recente, mas já marcada por alegrias, desafios e aprendizagens significativas.

Susana e Igor

Igor começou por recordar que, para ambos, o matrimónio sempre surgiu como algo natural dentro do percurso de fé que viveram desde a infância. Cresceram em famílias cristãs, fizeram o seu caminho na catequese e foram descobrindo progressivamente que a construção de uma família fazia parte do projeto de vida que imaginavam para si. «Na minha cabeça, pessoalmente, nunca considerei não me casar», afirmou, acrescentando que a educação cristã recebida ajudou a criar as bases para essa opção de vida. Para o casal, a fé não surgiu apenas como um elemento complementar da relação, mas como um alicerce que ajudou a moldar a forma de olhar o amor, a família e o compromisso.

Ao longo da intervenção, Igor destacou ainda a importância do matrimónio como apoio concreto diante dos desafios da vida. Referiu a exigência da educação dos filhos, as diferentes sensibilidades que naturalmente existem entre marido e mulher e as dificuldades que todos os casais encontram ao longo do caminho. «Com este apoio mútuo fomos capazes de ultrapassar, com esta base forte do matrimónio», explicou, sublinhando que a vida familiar exige diálogo, compreensão e capacidade de caminhar juntos mesmo quando existem opiniões diferentes.

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Susana partilhou uma perspetiva mais pessoal e emotiva sobre a experiência do casamento. Recordou a sensação que teve no dia seguinte à celebração do matrimónio e a consciência nova de unidade que passou a experimentar. «No dia a seguir a nós nos termos casado, eu senti que já nos devíamos ter casado há mais tempo», contou. Para ela, o casamento marcou o início de uma etapa nova em que deixou de existir apenas um projeto individual para passar a existir um projeto comum. «Agora sinto que nós vamos os dois para a vida, estamos os dois juntos», afirmou.

A jovem mãe destacou ainda a importância de transmitir aos filhos o testemunho da vida familiar e da fé. Considera que o exemplo vivido em casa é uma forma concreta de ajudar as novas gerações a descobrirem os valores que sustentam uma vida feliz e realizada. «Estamos a dar-lhes aquilo que achamos que é importante também para eles», disse.

Num momento posterior, Natália e João, de Monte Redondo, ofereceram o testemunho de quem celebra 25 anos de casamento. Começaram por reconhecer a dificuldade de condensar em poucos minutos uma história feita de mais de duas décadas de vida partilhada. Depois de fazerem as contas aos anos decorridos, concluíram que o essencial da sua história não se encontra nos grandes acontecimentos, mas nos milhares de pequenos momentos vividos no quotidiano.

João e Natália

Recorrendo à imagem do vento para descrever a vida matrimonial, explicaram que o casamento conhece diferentes fases e intensidades. Há momentos de serenidade em que tudo parece correr naturalmente, mas também períodos mais difíceis, marcados por tensões, obstáculos ou acontecimentos inesperados. Ainda assim, tal como o vento é indispensável à vida, também o amor continua a ser o elemento essencial que permite superar as adversidades. «O segredo é não desistir um do outro», afirmaram.

O casal reconheceu que, ao longo dos anos, teve de aprender a lidar com diferenças de personalidade, com o desgaste das rotinas e com as exigências da vida familiar e profissional. Entre horários, preocupações, trabalho e responsabilidades, descobriram a importância de cuidar da relação e de não permitir que a rotina substitua a atenção ao outro. Por isso, procuraram continuamente reinventar espaços de diálogo, renovar sonhos e valorizar pequenos gestos que ajudam a fortalecer a vida em comum.

Na sua reflexão, identificaram vários pilares que sustentaram o casamento ao longo deste quarto de século: «o companheirismo, a confiança, o cuidado diário, uma amizade profunda e a presença de Deus». Para ambos, a fé não eliminou os problemas nem tornou a caminhada mais fácil, mas ofereceu a força necessária para enfrentar as dificuldades e recomeçar sempre que foi necessário.

Natália e João recordaram também a importância dos filhos no crescimento do casal. Consideram que a parentalidade trouxe novos desafios, mas também novas oportunidades de amadurecimento e de descoberta mútua. Ao olhar para trás, reconhecem que muitos dos momentos mais marcantes da sua vida não foram necessariamente os mais extraordinários, mas aqueles que foram construídos na simplicidade dos dias comuns.

Na parte final do testemunho, deixaram uma mensagem particularmente dirigida aos casais mais jovens, contrariando uma visão do amor centrada apenas na emoção dos primeiros tempos. «O amor amadurece. Há uma beleza muito grande em permanecer, em crescer juntos, em continuar a escolher a mesma pessoa», afirmaram. E acrescentaram que, passados 25 anos, talvez existam menos «borboletas no estômago», mas existem raízes muito mais profundas, construídas pela convivência, pela confiança e pela decisão renovada de permanecerem unidos.

Embora separados por 15 anos de experiência matrimonial, os dois testemunhos acabaram por convergir numa mesma certeza: o casamento não se sustenta apenas nos grandes momentos, mas sobretudo na fidelidade quotidiana. Foi essa fidelidade, alimentada pela fé, pelo diálogo e pela capacidade de recomeçar, que ambos apresentaram como o verdadeiro segredo de uma vocação vivida com alegria.

Uma vocação sacerdotal vivida em missão

Entre os testemunhos apresentados esteve também o do padre José Augusto Leitão, missionário do Verbo Divino, que assinala 50 anos de vida sacerdotal.

Padre José Augusto Leitão

Natural de São Vicente da Beira, recordou que o desejo de ser padre nasceu muito cedo, inspirado pela presença de vários sacerdotes na sua terra natal. Contou que, ainda criança, respondeu sem hesitação quando lhe perguntaram o que queria ser no futuro: «Quero ser padre Augusto».

A caminhada vocacional conheceu momentos decisivos, nomeadamente na adolescência, quando vários colegas abandonaram o seminário. Perante o convite para os acompanhar, teve de fazer uma escolha. «Eu não estou cá por causa de vós, eu estou cá porque ainda acho que é para aqui o meu caminho», recordou.

Ao longo do testemunho percorreu décadas de missão em Portugal, Angola e Brasil, evocando experiências de formação, trabalho pastoral, acompanhamento espiritual e serviço missionário.

Particularmente marcante foi a experiência em Angola, em plena guerra civil. Apesar dos riscos constantes, encontrou aí uma compreensão mais profunda da fraternidade cristã. «O Pai-Nosso não é só rezar, é a gente viver o outro como irmão», afirmou.

Ao procurar sintetizar aquilo que sustentou a sua vocação ao longo dos anos, apontou a centralidade da Palavra de Deus, o contacto com o povo, a vida comunitária e a disponibilidade para novos desafios. «Na minha fragilidade o Senhor tem utilizado este instrumento e o mais enriquecido com tudo isto tenho sido eu», concluiu.

A alegria de uma vida totalmente entregue a Deus

A perspetiva da vida consagrada foi apresentada pela irmã Arminda de Assunção, das Irmãs do Bom Pastor, que celebra 60 anos de consagração religiosa.

Irmã Arminda de Assunção

Natural de Lourosa, na diocese do Porto, relatou que o chamamento de Deus foi amadurecendo desde muito jovem, embora tenha passado por momentos de discernimento exigentes. Recordou mesmo uma relação afetiva que a levou a confirmar ainda mais claramente o caminho que sentia ser o seu.

Quando lhe propuseram um futuro em comum, respondeu com serenidade: «Eu, sendo infeliz, não te posso fazer feliz a ti».

Depois de ingressar nas Irmãs do Bom Pastor, dedicou-se durante décadas ao acompanhamento de jovens em situação de vulnerabilidade, passando por várias comunidades da congregação.

Ao olhar para trás, a religiosa afirmou não guardar qualquer dúvida sobre a decisão tomada. «Nunca, nunca, nunca me arrependi de ter seguido o Senhor», declarou.

O seu testemunho foi acolhido com particular atenção pelos participantes, constituindo um exemplo de fidelidade perseverante a uma vocação vivida ao longo de seis décadas.

Dar graças a Deus pelas maravilhas realizadas

A celebração eucarística foi presidida pelo padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, que centrou a homilia no episódio evangélico da Visitação.

Dirigindo-se aos jubilares, afirmou que o Jubileu das Vocações é antes de tudo um momento de ação de graças. «Queremos convosco dar graças a Deus e queremos dar graças a Deus por vós e pelo vosso testemunho», afirmou.

Inspirando-se na atitude de Maria, destacou a importância da gratidão, do serviço e do testemunho. Recordou que a Mãe de Jesus não se fechou sobre si própria, mas partiu ao encontro de quem precisava de ajuda. «Nenhum de nós foi chamado por Deus a fechar-se em si próprio», sublinhou.

O sacerdote alertou ainda para a necessidade de cultivar a empatia e a atenção às necessidades dos outros. «A empatia e a atenção às necessidades dos outros não são sinais de fraqueza, são atitudes cristãs fundamentais e imprescindíveis», afirmou.

Por fim, evocando Maria como portadora de Cristo, convidou todos os presentes a fazerem da própria vida um testemunho capaz de conduzir outros ao encontro de Jesus. «Talvez este levar Jesus Cristo não seja tanto por palavras, mas sobretudo com o testemunho da nossa vida», afirmou.

Ao longo da manhã, os diversos testemunhos mostraram percursos muito diferentes, marcados por contextos, idades e experiências distintas. Mas todos convergiram numa mesma convicção: a de que a vocação, seja ela matrimonial, sacerdotal ou de especial consagração, continua a ser um caminho de resposta ao amor de Deus, vivido com fidelidade, alegria e esperança.

O Jubileu das Vocações terminou com um almoço de convívio no refeitório do Centro Pastoral Paulo VI, proporcionando aos participantes um tempo de encontro fraterno e partilha. Depois de uma manhã marcada pelos testemunhos e pela celebração da Eucaristia, os jubilares tiveram oportunidade de recordar percursos de vida, reencontrar amigos e fortalecer laços entre diferentes estados de vida e gerações. Num ambiente de gratidão e alegria, o convívio prolongou o espírito da celebração, testemunhando que a diversidade das vocações é também fonte de comunhão e riqueza para a Igreja diocesana.

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