Foi com ele que comecei a aprender a ler literatura, teria eu uns 16 anos. Senhor de uma fulgurante inteligência, vinha de Lisboa, onde por esse tempo a agenda dos estudos literários e filológicos era marcada por António José Saraiva, Vitorino Nemésio, Jacinto do Prado Coelho, Lindley Cintra, dos quais foi aluno quando cursou Filologia Clássica e Filologia Românica. Aderiu a esses saberes e novos rumos e com eles nos ensinou a ler literatura.

Quiseram as ironias do destino que, décadas depois, me convidasse a liderar o polo de Leiria da Universidade Católica Portuguesa, um projeto que as vicissitudes da demografia não consentiram que vingasse por muitos anos.
E quiseram as mesmas ironias do destino que eu, seu aluno em anos de juventude, viesse a ser seu orientador na tese de doutoramento que apresentou à Universidade de Coimbra, sobre os escritos espirituais de Aquiles Estaço, um dos grandes humanistas portugueses do século XVI, que mereceu aprovação com a nota máxima: louvor e distinção, por unanimidade. Tinha então passado já os 65 anos. Ainda recordo o sorriso com que reagiu ao desafio que lhe fiz para avançar para o doutoramento: “na minha idade?!…”. Mas pouco hesitou. E fez uma tese notável.
Partiu neste fim de maio. Já não nos deixará nos desvãos dos dias as suas reflexões nas redes sociais, sempre lúcidas, sempre pertinentes.
Fica dele a saudade.
Paz à sua alma. Que lhe seja leve a terra e longa a recompensa. Na nossa memória sê-lo-á, de certeza