EMRC: a disciplina que continua a transformar vidas nas escolas portuguesas

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Num tempo marcado pela velocidade, pela fragmentação das relações humanas e pela crescente dificuldade dos jovens em encontrar sentido para a vida, a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica continua a ser uma das propostas mais humanizadoras do currículo escolar português.

Escrevo-o também a partir da experiência concreta de quem é professor de EMRC há 25 anos. Ao longo deste percurso, entre salas de aula, corredores escolares, encontros, dúvidas e sonhos de milhares de alunos, fui percebendo que esta disciplina ultrapassa largamente os limites de um simples espaço curricular. A EMRC toca vidas, abre horizontes e ajuda muitos jovens a encontrar referências num mundo cada vez mais confuso e acelerado.

Muitas vezes reduzida injustamente a preconceitos antigos ou a leituras superficiais, a EMRC está longe de ser apenas “uma aula de religião”. É, antes de mais, um espaço de diálogo, reflexão, cultura, ética e formação integral da pessoa. A própria legislação portuguesa reconhece a sua importância ao integrá-la no currículo nacional do 1.º ao 12.º ano, sendo a sua oferta obrigatória nas escolas públicas, ainda que a frequência seja facultativa. 

Num sistema educativo frequentemente pressionado por metas, exames, médias e rankings, a EMRC recorda uma verdade essencial: educar não é apenas transmitir conteúdos; é formar pessoas. E é precisamente aqui que esta disciplina faz a diferença.

Na sala de aula de EMRC fala-se de dignidade humana, solidariedade, justiça, liberdade, paz, ecologia integral, afetos, sofrimento, felicidade, espiritualidade e projeto de vida. Temas que atravessam o coração das novas gerações e que nem sempre encontram espaço noutras disciplinas. As Aprendizagens Essenciais da disciplina sublinham precisamente essa dimensão ética, relacional e humanizadora da educação. 

A escola portuguesa precisa destes espaços. Precisa de lugares onde os jovens possam parar para pensar. Onde possam aprender a escutar. Onde possam descobrir que a vida não se resume ao consumo, ao sucesso imediato ou à pressão das redes sociais.

Os professores de EMRC conhecem bem esta realidade. Quantas vezes somos procurados pelos alunos para conversas que ultrapassam os conteúdos programáticos? Quantas vezes uma aula acaba por ser um lugar de acolhimento, de escuta e até de esperança? Em muitos casos, a EMRC é o único momento da semana em que um estudante sente que alguém lhe pergunta sinceramente: “Como estás?”

Ao longo destes 25 anos de docência, vi alunos reencontrarem confiança, superarem momentos difíceis, aprenderem a respeitar os outros e descobrirem talentos que desconheciam em si próprios. Nem tudo se mede em testes ou classificações. Há aprendizagens que acontecem no silêncio de uma conversa, no impacto de um testemunho ou numa simples reflexão feita no momento certo.

Numa sociedade cada vez mais polarizada e agressiva, esta disciplina ajuda também a construir cidadania. Não uma cidadania ideológica ou partidária, mas uma cidadania fundada na dignidade da pessoa humana, no respeito pela diferença e na capacidade de construir comunidade. É significativo que muitos dos temas trabalhados em EMRC estejam ligados à educação para a paz, aos direitos humanos, ao diálogo intercultural e à responsabilidade social. 

Há ainda outro aspeto frequentemente ignorado: a importância cultural da disciplina. Não se compreende Portugal, a sua história, arte, literatura, música ou património sem conhecer o cristianismo. A EMRC ajuda os alunos a interpretar as raízes culturais da nossa identidade coletiva. Uma sociedade sem memória cultural torna-se facilmente uma sociedade sem rumo.

É evidente que a disciplina enfrenta desafios. O secularismo crescente, a diminuição da prática religiosa e alguma desvalorização social da dimensão espiritual levantam obstáculos. Mas talvez seja precisamente por isso que a EMRC se torna ainda mais necessária. Porque os jovens continuam a fazer as grandes perguntas de sempre: Quem sou? Para que vivo? O que vale realmente a pena? Como ser feliz?

A escola não pode limitar-se a preparar alunos para o mercado de trabalho. Deve preparar pessoas para a vida.

Num país onde tantos jovens enfrentam ansiedade, solidão e vazio existencial, talvez esteja na hora de perceber que disciplinas como a EMRC não são um acessório do currículo. São uma necessidade educativa e humana.

Como recentemente se afirmou num encontro internacional sobre o ensino religioso, “a escola é melhor com a disciplina de EMRC”. 

E talvez também os nossos jovens sejam melhores, mais conscientes, mais solidários e mais humanos por causa dela.

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