(A propósito do 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 17 de maio de 2026)
Houve qualquer coisa naquele espelho que me ficou atravessada na alma.
Estava inclinado sobre a rua, torcido pela violência da tempestade Kristin, como um corpo cansado que perdeu subitamente o equilíbrio. Não caiu. Não se partiu. Apenas ficou assim: desalinhado, suspenso numa posição estranha, olhando o mundo a partir de um ângulo novo e improvável.
Aquele espelho começou lentamente a parecer-me uma metáfora da própria comunicação da Igreja nos tempos que vivemos.
Durante muitos anos, a Igreja comunicou a partir de um lugar relativamente seguro. Havia uma linguagem comum, símbolos compreendidos, referências partilhadas. As palavras encontravam facilmente morada nas pessoas porque existia ainda uma espécie de sintonia cultural entre o anúncio cristão e o coração da sociedade.
Mas vieram as tempestades.
Vieram as feridas, os escândalos, o desgaste institucional, a fragmentação social, o ruído permanente das redes digitais, a pressa que impede escutar profundamente e a desconfiança crescente diante de qualquer voz institucional. Vieram também as dores silenciosas de um mundo cansado, emocionalmente exausto, espiritualmente disperso e tantas vezes incapaz de encontrar sentido.
E, no meio de tudo isto, talvez a comunicação da Igreja tenha ficado um pouco como aquele espelho: ainda presente, ainda de pé, mas já não completamente alinhada com o mundo que tenta alcançar.
Há estruturas que continuam a falar como se nada tivesse mudado. Há linguagens que já não encontram tradução no coração das pessoas. Há palavras teologicamente corretas que, por vezes, chegam vazias de proximidade humana. E há uma tristeza silenciosa quando percebemos que nem sempre conseguimos tocar verdadeiramente a vida concreta de quem nos escuta.
Contudo, quanto mais penso naquele espelho, mais descubro nele uma inesperada beleza.
A tempestade alterou-lhe a direção do olhar.
Antes refletia apenas a estrada, os cruzamentos, a circulação apressada dos dias. Agora, inclinado para cima, reflete o céu.
E talvez exista aqui uma intuição profundamente evangélica para a comunicação da Igreja.
Talvez tenhamos passado demasiado tempo preocupados em preservar ângulos perfeitos, enquadramentos institucionais impecáveis e estratégias excessivamente centradas na aparência da estrutura, esquecendo que o Evangelho nunca começou por aí. Jesus nunca comunicou a partir da distância. Nunca falou como quem protege uma instituição. Comunicava aproximando-se das feridas, caminhando ao ritmo das pessoas, olhando demoradamente cada rosto como quem vê ali uma história sagrada.
A comunicação de Cristo tinha carne, lágrimas, silêncio, compaixão e presença.
Era uma comunicação capaz de tocar sem humilhar, de corrigir sem esmagar, de anunciar esperança sem negar a existência da noite.
Talvez seja precisamente isso que o mundo procura hoje na Igreja: menos perfeição e mais humanidade iluminada pelo Evangelho.
As pessoas não esperam uma Igreja sem cicatrizes. Esperam uma Igreja verdadeira. Uma Igreja capaz de permanecer ao lado dos frágeis, sem superioridade moral. Uma Igreja que saiba escutar antes de responder. Uma Igreja cuja comunicação não seja apenas eficiente, mas profundamente humana, habitada pela ternura, pela verdade e pela esperança.
Há palavras que só ganham credibilidade quando passam primeiro pelas feridas.
Talvez por isso aquele espelho continue a comover-me.
Permanece torto. Vulnerável. Exposto ao tempo, ao vento e à indiferença de quem passa. Mas há qualquer coisa de profundamente belo no facto de continuar ali, silenciosamente fiel à sua existência.
Já não reflete a estrada da mesma maneira. Mas continua a refletir luz.
E talvez seja essa a vocação mais profunda da comunicação cristã neste tempo incerto: não oferecer imagens perfeitas, mas ajudar o mundo a levantar novamente os olhos para o céu.
Mesmo depois da tempestade.