À imagem e semelhança de Deus – Trindade! (I)

609 visualizações

De tão habituados que estamos em definir a nossa realidade partindo da afirmação do livro dos Géneses – “criados à imagem e semelhança de Deus” (1,26) – que nos esquecemos da novidade trazida pela revelação do mistério da vida íntima de Deus, manifestada na encarnação, morte e ressurreição de Jesus, a qual redefine a compreensão da nossa condição e relações humanas.

Herdeiros de uma visão estática do ser que via o movimento como imperfeição, só no último século foi possível desenvolver novas aproximações ao mistério de Deus-Trindade e começar a pensar de outro modo o fundamento das nossas relações e respectivas consequências.

O problema vem das origens, da dificuldade em articular o pensamento grego com a novidade que brota do pensar-se da fé cristã, impedindo, quer no primeiro quer no segundo milénios, uma visão mais ampla e dinâmica do mistério de Deus – Trindade Santíssima e das Suas relações com toda a Criação.  

Sendo o Mistério fundamental da nossa fé e tendo ficado na sombra a sua dimensão trinitária, este esquecimento empobreceu a compreensão da fé e teve consequências negativas para a vida da Igreja, para a relação dos cristãos entre si e com outras tradições religiosas, e para o diálogo com os dinamismos sociais e culturais das sociedades.  

No último século, a reflexão teológica viu na oferta pascal de Jesus – da Última Ceia à manhã da Ressurreição – o caminho para entrar no íntimo de Deus e contemplar o mistério das suas relações: naquela hora – a Sua –, Jesus mostrou-nos, para escândalo de uns e loucura de outros, como viveu e morreu: por amor. Um amor que quer que o outro seja (eu, tu, nós, a humanidade inteira!), mesmo à custa da Sua própria vida. Mais… Jesus permitiu-nos intuir como é Deus-Trindade Santíssima em Si mesmo: mistério de amor em total e recíproca doação!

Tudo o que Ele disse e fez tem a sua raiz no Deus-Trindade – em que o Pai se dá totalmente ao Filho e o Filho totalmente ao Pai, sendo a relação de ambos o próprio Espírito Santo, plenitude de entrega recíproca –, concebido, não no seu carácter estático, mas como dom contínuo, como fogo devorador, como dedicação incondicional, para que também o outro (cada um de nós…) viva e seja divino. Jesus, na cruz, ao dar a sua vida por nós, não foi pura contingência histórica, mas antes expressão divina de amor que atrai e dá vida e vida em abundância! 

Que significa isto para a imagem do homem? É o que nos diz, em síntese, a expressão: «O homem encontra-se a si próprio no dom de si mesmo.» Corresponde, por isso, à vida de tantos santos e mártires que abandonaram o próprio interesse e vantagens pessoais para servir a Deus e aos irmãos. É deste mesmo espírito que nos fala o convite de Jesus: «Vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois vem e segue-me» (Mt 19,21). 

Há, portanto, uma misteriosa correspondência entre o ser íntimo de Deus, que é puro dom e vontade de dar lugar ao outro, e tudo aquilo que aqui na Terra se pode dizer sobre a caridade como plenitude da lei. Por isso, quanto mais penetrarmos na contemplação do mistério de Deus – Trindade, mais conheceremos o mistério do homem e vice-versa: esta feliz reciprocidade cumprir-se-á plenamente no Céu e dela viveremos eternamente. Que comece já aqui!…

Siga-nos nas redes sociais:
Partilhar

Leia esta e outras notícias na...

NEWSLETTER

Receba as notícias no seu email​
Pode escolher quais as notícias que quer receber: destaques, da sua paróquia