A Sé Catedral de Leiria encheu-se de fiéis no passado domingo, 26 de abril, para assistir à ordenação diaconal de Miguel Francisco Vieira, natural da paróquia de Souto da Carpalhosa. A celebração, presidida por D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima, realizou-se no 4.º Domingo da Páscoa — o Domingo do Bom Pastor —, data que a Diocese de Leiria-Fátima reserva, por tradição, para as ordenações. Seis anos depois da última ordenação diaconal na Diocese, a Igreja local recebe um novo diácono ao serviço da Palavra, da liturgia e da caridade.
ÁLBUM FOTOGRÁFICO https://photos.app.goo.gl/F2W3UbyCF4ZmBgE88O BOM PASTOR COMO HORIZONTE DO MINISTÉRIO DIACONAL
Na introdução à celebração, D. José Ornelas situou o acontecimento no âmago do mistério pascal e da missão da Igreja. Neste IV Domingo da Páscoa, a imagem do Bom Pastor convocou toda a assembleia a contemplar o modo como Cristo se faz presente na Igreja através daqueles que Ele chama para o serviço.
«Neste IV domingo da Páscoa, a nossa Igreja diocesana de Leiria-Fátima une-se a toda a Igreja, espalhada pelo mundo, para celebrar o Senhor Jesus ressuscitado, sob a imagem de Bom Pastor que conduz o seu rebanho, que é a Igreja, pelo dom do seu Espírito.»
O Bispo explicitou que esta presença se estende àqueles que o Senhor chama para “continuar a sua presença, de anunciar a Sua Palavra, de prover à vida e à missão das comunidades e de cuidar dos mais carenciados, com a mesma atitude de serviço e misericórdia”. Foi neste horizonte teológico que D. José Ornelas acolheu Miguel Francisco, expressando gratidão pelo chamamento que Deus lhe dirigiu.
«Hoje, temos a particular alegria de participar na ordenação do Miguel Francisco Vieira como Diácono. Damos graças a Deus pelo chamamento que lhe dirigiu e acompanhamo-lo com fraterna alegria e oração, implorando o dom do Espírito para o serviço que ele vai desempenhar entre nós.»
Na homilia, D. José Ornelas partiu da imagem do pastor — que, reconheceu, se vai tornando cada vez menos familiar numa sociedade crescentemente urbanizada — para chegar ao núcleo cristológico da celebração. Jesus não é apenas o Bom Pastor que conhece e cuida de cada ovelha: é, antes de mais, a Porta através da qual se acede à vida de Deus.
«’Bom Pastor’, Jesus apresenta-se como modelo e protótipo do verdadeiro líder ou chefe, do dirigente atento e próximo daqueles que o seguem, do ‘pastor com cheiro a ovelha’, como costumava dizer o Papa Francisco. Para Ele, liderar e guiar significa servir.»
O Bispo não deixou de apontar para o perigo dos maus pastores, que, em vez de servirem o rebanho, o utilizam em proveito próprio. Num eco às palavras recentes do Papa Leão XIV, D. José Ornelas identificou as consequências desse modelo de liderança: “a guerra, a injustiça, a corrupção e a generalização da pobreza por causa do domínio autocrático e ganancioso dos que dirigem”. A contraposição com a figura do Bom Pastor — que dá a vida pelas ovelhas — foi o eixo em torno do qual girou toda a pregação.
UM CAMINHO PERCORRIDO EM COMUNHÃO ECLESIAL
Dirigindo-se diretamente a Miguel Francisco, D. José Ornelas percorreu o itinerário espiritual e humano que conduziu o novo diácono até à Sé de Leiria. Desde o Batismo, na comunidade de Souto da Carpalhosa, passando pelos dois Seminários do Patriarcado de Lisboa onde completou a formação, o Bispo reconheceu em cada etapa a ação condutora de Deus.
«Foste levado pelos teus Pais a esta Porta que é Cristo e entraste na sua Igreja pelo Batismo, na comunidade de Souto da Carpalhosa, onde foste crescendo e aprendendo a ouvir, na tua família e na comunidade cristã, a voz do Bom Pastor e a deixar-te fascinar pela beleza e a alegria do seu modo de viver, de servir, de amar.»
O prelado destacou também a “comunhão sinodal” que marcou este percurso formativo: o Seminário da Diocese de Leiria-Fátima e os dois Seminários do Patriarcado de Lisboa foram identificados como “decisivos para identificares e seguires a voz e o estilo do Senhor que te chamou”. Uma formação partilhada e eclesialmente alargada, sublinhada como testemunho concreto de sinodalidade vivida.
D. José Ornelas recordou ainda os ministérios de Leitor e de Acólito, já exercidos por Miguel Francisco, reafirmando que estes não são etapas ultrapassadas com a ordenação, mas “base e alimento” permanentes do serviço diaconal:
«A Palavra de Deus e a Eucaristia que esses ministérios representam, serão sempre base e alimento, da tua vida e do teu serviço à Igreja, possibilitando a tua comunhão com o Mestre e Senhor e a continuação da Sua presença, para o Povo de Deus.»
SERVO DOS POBRES E MISSIONÁRIO CORAJOSO: O PERFIL DO NOVO DIÁCONO
O Bispo foi explícito ao delinear o perfil que espera do novo diácono: não um administrador eclesiástico, mas um servo de Cristo à imagem daquele “que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela multidão” (Mc 10,45). A opção preferencial pelos pobres surgiu como dimensão central do ministério diaconal, num mundo em que, nas palavras do prelado, “os recursos criados por Deus para todos são apropriados por uma minoria, deixando na miséria, na fome e na injustiça uma grande parte da humanidade”.
«Que este aspeto do servir na Igreja encontre uma atitude central no teu ministério, como nos ensina o exemplo luminoso dos santos diáconos de que nos falam a Escritura e a história da Igreja.»
D. José Ornelas apelou ainda à dimensão missionária do diaconado, evocando as figuras do diácono Filipe e do protomártir Estêvão, os primeiros diáconos mencionados nos Atos dos Apóstolos. Num país e num continente que recebe diariamente “milhares de pessoas de línguas culturas e credos diferentes”, o Bispo exortou o novo diácono a não ceder à tentação do fechamento:
«Não deixes e faz tudo para que a Igreja não deixe de fazer seu o anseio do Coração do Bom Pastor: ‘Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor.’ (Jo 10,16).»
DA SERENIDADE DA MANHÃ À ENCHENTE DA SÉ: O DIA EM QUE TUDO ACONTECEU
Antes de entrar na Sé, houve um dia inteiro a viver. Miguel Francisco conta que a manhã de 26 de abril começou cedo e em recolhimento: «O meu dia começou pelas 8h00 com a oração de Laudes.» Depois do ofício matutino, o tempo foi dedicado à família — os pais e a irmã — e à preparação da celebração. A casa encheu-se de amigos que vieram almoçar, num convívio descontraído que se prolongou até às 14h00, quando o ordenando partiu em direção à Sé de Leiria.
À chegada à catedral, Miguel Francisco cumprimentou os primeiros fiéis que já esperavam, seguiu para a sacristia e fez um breve ensaio com o padre Sérgio. O tempo que restava foi usado a acolher as pessoas que iam chegando — um gesto simples, mas que diz muito sobre o estilo de quem está prestes a ser ordenado diácono, isto é, servo.
A serenidade da manhã contrasta, nas suas próprias palavras, com a agitação interior que se instalou no momento de se vestir para a celebração. Até aí, o estado de espírito fora de tranquilidade invulgar:
«Contrariamente aos dias anteriores, a manhã de dia 26 foi muito serena; estava muito tranquilo e ansioso que chegasse o momento da celebração. No fundo, sentia uma grande paz, que é fruto da liberdade com que dava este passo.»
Essa paz, porém, deu lugar ao nervosismo assim que envergou os paramentos. Ao entrar na Sé, já com o coração acelerado, Miguel Francisco deparou-se com uma catedral cheia — família, amigos, paroquianos, clero diocesano. O encontro com essa assembleia tornou-se o momento de uma tomada de consciência profunda:
«Depois de entrar na Sé, apesar de estar nervoso, vinha ao meu pensamento que o passo que estava prestes a dar era bem maior do que eu, que era pouco digno para tal dom que estava prestes a receber. Fui para junto do senhor Bispo e aí tomei consciência da enchente que estava na Sé de Leiria; aí o meu coração ficou apertado, por reconhecer que era tudo mesmo dom de Deus, não era por mim. Mas confiado no Senhor, sabendo que sou livre na totalidade da entrega que significa o sacramento recebido.»
OS GESTOS QUE CONSAGRAM: O RITO DA ORDENAÇÃO
A celebração seguiu o rito pontifical próprio da Ordem do Diaconado. Após a Liturgia da Palavra, o candidato foi chamado pelo nome e apresentado à assembleia. Seguiu-se a homilia do Bispo e as promessas do eleito. Entre estas, destacou-se a promessa de reverência e obediência — formalizada com as mãos colocadas nas mãos de D. José Ornelas —, que Miguel Francisco identifica como um dos três momentos mais marcantes do rito, pela «dimensão filial em relação ao bispo» que encerra.
Seguiu-se a prostração durante a Ladainha dos Santos — momento em que o ordenando se deita no chão em atitude de entrega total —, que o novo diácono descreve com particular intensidade:
«O momento da prostração — que, para mim, sempre foi um dos mais marcantes nas ordenações de outros amigos — na minha própria ordenação tornou-se ainda mais especial, pois foi aí que me senti agradecido pelo dom que estava prestes a receber.»

Seguiu-se a imposição das mãos em silêncio, gesto essencial e centro sacramental da ordenação, e a oração consecratória, na qual a Igreja implora a efusão do Espírito Santo sobre o eleito. O novo diácono foi depois revestido com a estola diaconal e a dalmática, recebendo por fim o Livro dos Evangelhos — sinal da sua missão de anunciar a Palavra de Cristo com fidelidade. O abraço da paz com D. José Ornelas e com os diáconos presentes encerrou o rito, manifestando a acolhida de Miguel Francisco na comunhão ministerial da diocese.
Sobre a imposição das mãos, o novo ordenado definiu-a como «um momento profundamente intenso, marcado pelo silêncio, que exprime a grandeza do dom recebido». Ao enumerar os momentos mais marcantes do rito, Miguel Francisco não separa os gestos litúrgicos do calor humano da assembleia:
«Por fim, todo o carinho sentido ao longo do dia foi verdadeiramente significativo: ver a Sé cheia, sobretudo com a presença da família, amigos e de todos aqueles que, ao longo da minha vida, se foram cruzando comigo.»
“A IGREJA PRECISA DE VÓS”: PALAVRAS DO NOVO DIÁCONO
No final da celebração, Miguel Francisco tomou a palavra para expressar gratidão, começando por Deus — “que me conduziu até este terceiro momento da minha caminhada” — e estendendo os agradecimentos a D. José Ornelas, a D. António Marto, ao clero diocesano, aos Seminários do Patriarcado de Lisboa, aos formadores e colegas, à autarquia local, à Junta de Freguesia de Souto da Carpalhosa, e às comunidades paroquiais de Souto da Carpalhosa e de Ourém, junto das quais tem exercido o ministério.
«Não posso deixar de recordar também as comunidades da comunidade paroquial de Ourém, junto das quais trabalho e com as quais tenho aprendido a servir como Jesus nos ensina.»
Mas foi sobretudo aos jovens presentes que Miguel Francisco dirigiu uma palavra direta e apelativa, num tom que mesclou emoção pessoal com convite eclesial:
«A nossa Igreja precisa muito de vós. É uma Igreja que não está morta; está viva e está aqui. É Jesus quem chama. É Ele quem nos convida. É Ele quem nos convoca. É Ele quem nos dá a alegria de viver. Não uma vida pequena ou superficial, mas uma vida grande.»
O novo diácono exortou os jovens a responder ao chamamento — seja na vida consagrada, no matrimônio ou no sacerdócio —, afirmando que “a Igreja e a sociedade de hoje precisam de vós para levarmos esta alegria, este sentido e esta grandeza que dão plenitude à nossa vida”. Emocionado, concluiu: “Trago o coração cheio. E, acima de tudo, fica este sentimento: toda a nossa vida deve ser resposta à Palavra de Deus.” Miguel Francisco inicia agora o seu ministério diaconal ao serviço da Diocese de Leiria-Fátima. A sua ordenação — a primeira na diocese desde 2020 — é também um sinal de esperança para a Igreja local, que, nas palavras do seu Bispo, continua a pedir ao Bom Pastor que “envie mais operários, que continuem a seguir os passos de Jesus e a ser expressão do seu coração de Pastor, para cuidar do seu Povo”.