Quando a Igreja precisa de aprender a respirar

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Confesso que este tema da sinodalidade me provoca uma certa urticária, de um tipo estranho, quase contraditório. Não nasce de discordância, nem de distância em relação ao caminho que a Igreja Católica está a fazer. Pelo contrário. Nasce precisamente do reconhecimento de que aquilo que hoje se apresenta com tanta insistência é, no fundo, aquilo que sempre deveria ter sido evidente.

E talvez por isso me custe um pouco este “descobrir de novo” aquilo que nunca devia ter deixado de ser vivido.

Nos Evangelhos, a lógica é simples, quase desconcertante na sua naturalidade: Jesus não chama indivíduos para trajetórias solitárias, mas forma uma comunidade em caminho. Escutam juntos, falham juntos, aprendem juntos, são enviados juntos. Não há aqui teorias de organização eclesial. Aqui, há vida. Há uma forma de estar que não precisa de ser explicada porque se impõe por si mesma.

E quando se passa ao restante Novo Testamento, essa dinâmica não só continua como se aprofunda: comunidades que discernem, que se confrontam, que decidem em conjunto, sempre na tensão entre diversidade e unidade. O episódio relatado no capítulo 15 dos Atos soa Apóstolos, por exemplo, não é apenas um momento histórico; é uma evidência fundadora de que a Igreja nasce em processo de escuta e de decisão partilhada.

É por isso que compreendo, e até acolho com verdadeira comunhão, o impulso que hoje se reconhece no caminho promovido pelo Papa Francisco e concretizado no Sínodo dos Bispos. Há nele uma intenção clara e profundamente evangélica de regressar a esse núcleo originário. Não para inventar uma Igreja nova, mas de recuperar uma Igreja que, em certos momentos da sua história, se foi afastando do seu próprio modo de ser.

A minha irritação, portanto, não é contra o caminho. É contra a necessidade de o tematizar como se fosse uma inovação. Como se fosse preciso explicar aquilo que, à luz do Evangelho, deveria ser tão natural como respirar.

E aqui está o ponto mais delicado: quando algo essencial precisa de ser constantemente reafirmado, não é porque tenha deixado de ser verdadeiro, mas porque deixou de ser vivido com a naturalidade original. E isso não se resolve com frases feitas nem com estruturas novas, mas com regresso à fonte.

Ainda assim, não vejo neste movimento qualquer ruptura. Vejo, isso sim, uma tentativa séria e, atrevo-me a dizer, profundamente fiel de recentrar a Igreja naquilo que lhe é mais próprio: o caminhar conjunto do Povo de Deus, em escuta do Espírito, em discernimento comunitário, em missão partilhada.

Se há desconforto da minha parte, ele não nasce de crítica ao caminho. Nasce antes de uma espécie de perplexidade: como é que aquilo que é tão fundacional precisou de voltar a ser dito em voz alta?

Talvez a resposta seja simples. Talvez, por vezes, a Igreja precise mesmo de se lembrar do óbvio. Não porque o tenha perdido por completo, mas porque o risco de o esquecer faz parte da sua condição histórica.

E se assim for, então este caminho sinodal não é uma novidade. É um regresso. E, nesse regresso, reconheço com clareza a comunhão com o Papa e com a intenção de reconduzir a Igreja à sua forma mais elementar e mais exigente: a de um povo que caminha junto.

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