A cruz escondida: A missão do Padre Subash é salvar vidas numa favela no Gana

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Foto: ACN

É uma mancha escura e fumegante onde vivem mais de 130 mil pessoas. Agbogbloshie, nos subúrbios da capital do Gana, é um labirinto de pobreza, um depósito gigante de lixo electrónico proveniente da Europa e dos Estados Unidos que ali é queimado a céu aberto, na esperança de se aproveitar qualquer coisa que possa valer ainda algum dinheiro. A miséria é gritante. A favela ganhou fama até de lugar maldito. No entanto, para o Padre Subash, é lugar de missão e os mais pobres, miseráveis e excluídos que ali vivem são, para ele, verdadeiros filhos de Deus…

Impressiona ver como Agbogbloshie, uma das áreas mais pobres e perigosas de Accra, a capital do Gana, cresceu ao longo dos últimos anos. Visto do ar, à distância, parece uma mancha escura e fumegante. De perto, porém, percebe-se a dimensão da tragédia. Por ali, numa área de quilómetros, onde corre também um rio quase moribundo, estende-se uma das maiores favelas do continente africano, onde vivem mais de 130 mil pessoas. A favela é, na verdade, um gigantesco monte de lixo electrónico que é queimado para se aproveitar alguma coisa que valha dinheiro, metais, como cobre e ferro, ou ainda, com sorte, minúsculos traços de ouro. Mas o que sobressai é a miséria. Por cima do lixo escuro e fumegante, vêem-se animais esqueléticos, cabras, ovelhas, vacas e, principalmente, pessoas que às vezes parecem fantasmas a revolver o chão, à procura de fragmentos de metais que possam ser trocados por um par de moedas. À volta do monte gigante de lixo nasceu, desordenada, uma cidade de barracas, num labirinto de ruas, de ruído e de pobres. É aí, nesse mundo de deserdados, que vamos encontrar o Padre Subash. Ele veio da Índia, de Calcutá, a terra que ficou famosa por causa da Santa Madre Teresa, já chegou a viver nos Estados Unidos e no México, mas foi para ali, para o Gana, que a Igreja o enviou.

Dez anos como missionário na favela do lixo

Há praticamente dez anos que a favela de Agbogbloshie passou a ser a sua casa. Sinal da miséria que há por ali, o próprio lugar ganhou um nome infame: Sodoma e Gomorra, como se fosse necessário sublinhar que aquela é uma terra sem salvação, um quisto maligno que cresceu nos arredores da cidade de Acra, a capital do Gana. Mas o que parece perdido aos olhos do mundo, transforma-se num lugar de missão, numa oportunidade para o Padre Subash. “Trabalho no Gana há quase dez anos”, explica o sacerdote a uma equipa de reportagem da Fundação AIS. “Este lugar é conhecido por Sodoma e Gomorra, mas nós chamamo-lo de Cidade de Deus, porque somos todos filhos de Deus e todos temos direito a bons nomes”, afirma. Tudo por ali parece perdido. A poluição é imensa. Há pessoas curvadas sobre o lixo electrónico que está a ser queimado. Pessoas que inalam todos os fumos dos plásticos, dos metais, do lixo, sem qualquer protecção. E muitos dos que estão por ali são apenas crianças ou jovens. “Aqui, devido à pobreza – explica o Padre Subash – as pessoas queimam aparelhos electrónicos que vêm principalmente da Europa e tentam ganhar algum dinheiro. O principal problema que vejo aqui é o saneamento e os cuidados de saúde, por isso abrimos uma clínica para dar a oportunidade de consultar um médico ou obter os medicamentos certos”, explica. A clínica aberta pela Igreja numa das muitas casas precárias que há na favela, é um exemplo do compromisso do Padre Subash em retirar aquela população da miséria em que se encontra. A outra aposta é a educação. “Além disso, muitos jovens nunca foram à escola, por isso querem aprender inglês. Educamos os jovens não só ensinando inglês, mas também moralidade”, explica.

Os mais pobres dos pobres do Gana

A enorme lixeira a céu aberto onde o lixo electrónico é queimado é um sinal também do desprezo do mundo para com estas populações. Na verdade, os computadores, os smartphones, os tablets, toda a parafernália de produtos que fazem parte já do quotidiano de milhões de pessoas, têm um tempo de vida relativamente curto. E é necessário fazer alguma coisa com isso. Uma das formas mais baratas e rápidas de as empresas se descartarem desse lixo electrónico é enviá-lo para lugares como Agbogbloshie, apesar de todas as convenções e todos os códigos de conduta o reprovarem. Foram objectos de luxo, passaram a ser lixo e são um sinal de como o sofrimento de tantos é simplesmente ignorado pelo mundo. Os que esgaravatam o aterro são os mais pobres dos pobres. Sobra-lhes haver pessoas como o Padre Subash que não só não os ignora como vive com eles, para eles, procurando dar a todos um sentido para a vida. O Padre Subash gosta de recordar o Papa Francisco quando disse que a Igreja não deve esperar que as pessoas venham até ela… “Pelo contrário, devemos sair ao encontro das pessoas, devemos procurá-las. Devemos estar prontos para ajudar e fazer qualquer coisa, a qualquer momento”, diz o sacerdote indiano que há dez anos tem procurado fazer com que os mais pobres, miseráveis e excluídos que vivem na enorme favela do lixo se sintam verdadeiros filhos de Deus…

Paulo Aido

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