O confronto franco como alternativa à violência doméstica

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No anterior artigo expliquei que vai sempre haver violência doméstica enquanto se falar dela com este nome ou nomeá-la desta forma. “Violência” é muito forte. Mas se nomearmos como “casos de confronto”, aí o discurso passa de unidirecional para um lugar de discussão. Ambos falam, ambos calam, ambos ouvem. O confronto é uma franqueza de comunicação em que também pode haver discordâncias e defesa dos próprios interesses.

Então o que é o confronto franco de comunicação? Bem, pode-se começar por dizer que não começa por ser um discurso em que um elemento acha que tem a suprema razão. Ou seja, se eu estou a falar (de maneira rude ou não) e a outra parte não concorda comigo deve interromper a prossecução das minhas palavras seguidas e marcadas, de forma a diminuir o meu poder de intervenção, de forma a reduzir o espaço de ruído de discurso que eu tento impor à outra parte.

Mas será que quem se acha na razão dá liberdade ao outro para intervir? Ou será que o outro não está numa situação de cansaço de explicações relativamente ao discurso acusatório ou julgatório ou opinatório?. Não e sim. Muitas vezes a vítima está já submetida há um tempo numa situação de desgaste relativamente ao confronto dos seus direitos, ora porque o poder do outro se sobrepõe ao seu, ora porque perdeu no tempo o âmago de expor a sua opinião. E vai reservar-se de comunicação. E o confronto anula-se.

O silêncio e a acumulação de conflitos internos

Acontece que os sentimentos de insatisfação por não se pronunciar acumulam-se e, sendo que sente que o local onde primeiramente o deveria expor-se opinando seria em casa, vai protelar acumulação de raiva, vontade de se projetar discursivamente, podendo chegar ao extremo de ódio, pela inoportunidade de emitir juízos defensivos dos próprios valores ou posições. Quando as coisas chegam a este ponto, a vítima sente revolta profunda, âmago ferido e a violência pode até partir de si.

Como proteger estas vítimas do silêncio imposto? Que espaço ou espaços a sociedade tem ou pode criar ainda para “ouvir vozes de consciências profundas”?. Quantos anos a vítima precisa viver para crescer para a sabedoria de conseguir emancipar-se no poder de comunicar a sua visão ao mundo?. Sim, porque o meio familiar não acolheu os seus desígnios de expressão e ela irá querer expor mais tarde as suas visões para meios alargados próximos ao mundo.

Será que as vítimas têm meios de escape? Ou seja, amigos com quem desabafar ou que estejam numa posição de compreensão e aconselhamento?. Que seres a sociedade está a permitir desenvolver quando abafa durante anos sofrimentos internos de não poder exprimir a palavra e mais tarde se querer vir a desejar o topo da montanha (passar do nada ao tudo)?. Será que é o desequilíbrio e desestruturação de famílias globais ou agudização de princípios estruturantes?.

Há mais machismo e/ou mais feminismo na sociedade? (o poder dum sexo e a submissão do outro) . O que vamos mudar? A quem vamos dar a palavra? Vamos julgar ou facultar julgamentos? Vamos cortar com o poder de palavra imposta?. Temos muito para fazer pelo definir de comunicação franca. Muitos Jesuses carregam cruzes que se estendem além da Páscoa.

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