Missa da Ceia do Senhor na Sé de Leiria: “Tendo amado os seus, amou-os até ao extremo”

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A Sé de Leiria acolheu, na noite desta quinta-feira, 2 de abril, a Missa da Ceia do Senhor, celebração que abre o Tríduo Pascal e que recorda a Última Ceia de Jesus com os seus discípulos. D. José Ornelas, bispo da Diocese de Leiria-Fátima, presidiu à Eucaristia com a concelebração de alguns sacerdotes, num templo com forte presença da comunidade paroquial de Leiria. A celebração, marcada pela solenidade própria da Quinta-Feira Santa, incluiu a Liturgia da Palavra, o rito do lava-pés, a Liturgia Eucarística e a procissão de transladação do Santíssimo Sacramento para a adoração noturna.

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Antes de iniciar a celebração, D. José Ornelas dirigiu-se à assembleia com uma palavra introdutória que deu o tom de toda a noite. «Nesta noite, Jesus diz aos discípulos: eu desejei ardentemente comer esta Páscoa com vós», recordou o bispo, sublinhando que esta é uma noite em que o Senhor continua a desejar estar com cada um dos seus fiéis. «Ele está sempre a procurar dar sentido, dar vida à nossa vida», afirmou, pedindo à assembleia que abrisse «o coração à sua presença, ao seu Espírito, à palavra que vamos escutar, para que vejamos verdadeiramente esta Páscoa como nova Páscoa que dê sentido à nossa vida».

“Um Deus que nunca se esqueceu da humanidade”

A homilia de D. José Ornelas foi um momento importante da celebração. Com uma estrutura em três partes bem delineadas, o bispo percorreu o itinerário teológico da Eucaristia, partindo da Páscoa judaica para chegar ao gesto de Jesus na Última Ceia, e deste ao lava-pés narrado por São João.

O bispo começou por situar o episódio na sua raiz histórica e religiosa. «Jesus deseja comer esta Páscoa com os discípulos porque esta era a festa principal dos judeus, uma festa da memória de um passado que se abre sempre a um novo futuro», explicou, recordando a saída do Egito e a imolação do cordeiro pascal. «É esse cordeiro que, quando falamos na missa, dizemos: Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo», clarificou, traçando a linha que une Antigo e Novo Testamento no coração do rito eucarístico.

VÍDEO
https://youtu.be/SLPrAwXLqq8

Neste contexto, D. José evocou também a dimensão comunitária e festiva da Páscoa judaica. «Diz-se que a família deve reunir-se para esta festa e que cada um deve contar o que Deus também fez por nós neste ano», recordou, antes de evocar, sem nomear explicitamente, uma tragédia recente que afetou a comunidade: «Nós poderíamos contar da tragédia que nos assolou a todos, mas também de como, unindo-se, foram muitos os que se ajudaram e que chegaram para nos ajudar a superar aquilo que ainda é duro e que vai precisar ainda de muita força.» A Eucaristia, sublinhou, é precisamente o que dá força «particularmente nos momentos mais dramáticos da vida do povo».

Sobre o gesto fundador da Última Ceia, o bispo foi claro: quando Jesus tomou o pão e o abençoou, acrescentou algo de radicalmente novo. «Este pão é o meu corpo. Este é o meu corpo que é dado por vós, que é oferecido por vós», citou, explicando que Jesus se identifica com Aquele que alimenta. «Jesus identifica-se com Aquele que alimenta. Ele tinha dito: quem comer deste pão — que sou eu, a minha carne, o meu ser humano — há de viver para sempre», desenvolveu o pregador.

O memorial instituído nessa noite tem, para D. José Ornelas, uma orientação clara para o futuro: «Jesus diz: fazei isto até que eu venha — isto é, até que a vossa vida se complete, até que se complete a vida deste mundo — para que esta seja uma fonte constante de vida.»

“A fome do mundo não pode ficar longe do vosso coração”

O segundo sentido da Eucaristia explorado na homilia foi o do pão no ministério público de Jesus — a sua compaixão pela multidão com fome. O bispo recordou a multiplicação dos pães e a interpelação dirigida aos discípulos, que queriam «mandar embora» os que tinham fome, por entenderem que as coisas do espírito não se misturavam com as necessidades materiais. Jesus recusou essa separação com uma ordem direta: «Dai-lhes vós de comer

Álbum fotográfico http://l-f.pt/BpG5

«A fome do mundo não pode ficar longe do vosso pensamento e do vosso coração», proclamou D. José, alargando o horizonte: «A guerra no mundo, que mata tanta gente, não pode ficar fora da vossa oração, não pode ficar fora das vossas preocupações. Sofreis com aqueles que sofrem.» Para o bispo, é aqui que começa a missão cristã: «na compaixão por aqueles que precisam — e a humanidade inteira precisa.»

O pão que Jesus oferece é, contudo, de outra natureza. «Vós comeis pão todos os dias; os vossos pais no deserto comeram maná; mas quem comer este pão viverá para sempre», citou o bispo, esclarecendo o sentido desta afirmação: não a imortalidade biológica, mas a vida de Deus comunicada através do sacramento. «Este é um pão que é a própria vida de Jesus. Comer este pão — agora que Jesus diz este pão que eu vos dou é o meu corpo, isto é, sou eu, eu que vivi, eu que cuidei de vós — isso é aquilo pelo qual vós viveis.»

A celebração eucarística tem, por isso, uma dimensão necessariamente social e política. «Esta Eucaristia faz-nos eucaristicamente compassivos para com a fome da multidão, para com a infelicidade, para com a tristeza, para com a corrupção que vemos à nossa volta», afirmou D. José Ornelas, ligando a mesa do altar à mesa do mundo. O pão eucarístico — «fruto da terra e do trabalho do homem», como se proclama na liturgia — «é para nós, mas é também para ser posto ao serviço daqueles que não têm».

“Assim como eu, que sou o Mestre e Senhor, lavo-vos os pés”

O terceiro momento da homilia, e talvez o mais emocionalmente intenso, centrou-se no rito do lava-pés, o único episódio que o Evangelho de São João narra em substituição da instituição eucarística. «Chegando à Última Ceia, em vez da Eucaristia, narra a lavagem dos pés», explicou o bispo, citando o versículo que abre o capítulo 13 de João: «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim

D. José Ornelas sublinhou a dimensão subversiva do gesto: no contexto cultural do tempo, ao discípulo estava proibido lavar os pés ao Mestre. «Jesus diz: Eu sou o Mestre e Senhor, e lavo-vos os pés», recordou. A resistência de Pedro — «Não, não, não. Eu lavo-te os pés sempre que tu queiras, mas tu não me lavas a mim — tu és o Senhor» — foi também convocada para a reflexão. E a resposta de Jesus foi interpretada como uma chave de leitura de toda a salvação cristã: «Pedro, não entendes. O afeto que eu tenho, o serviço que faço por ti, não é simplesmente um ato de delicadeza. É muito mais. O que eu te dou com este gesto é o amor de Deus, que entra no teu coração e te dá vida.»

VÍDEO
https://youtu.be/qKyJSK9u86U

O bispo partilhou então uma memória da infância que tocou visivelmente a assembleia. «Lembro-me de a minha mãe me dizer um dia: o pai tinha chegado da fazenda, e disse: Ó José, vai lavar os pés ao pai, que o pai está cansado. Eu fui lavar os pés ao pai», relatou o prelado. «Eu penso que ele também gostou muito disso — aqueles pés grandes, pés de trabalho. E o lavar é um sinal de apreço e de carinho. Foi isso que a mãe me ensinou: lavar os pés.»

O gesto doméstico e familiar tornou-se, assim, imagem do gesto divino. E a conclusão teológica do pregador foi de alcance vasto: «Pedro, se tu não aceitas que Deus esteja ao teu serviço e te salve, não tens salvação — porque ela não é do teu mérito. É do carinho de Deus. É do amor afetivo e efetivo de Deus para contigo

Da Ceia à Adoração: o itinerário de uma noite pascal

Concluída a homilia, seguiu-se o rito do lava-pés, em que D. José Ornelas lavou os pés a doze membros da comunidade, num gesto que há séculos a Igreja repete para sublinhar a vocação ao serviço. As antífonas específicas deste rito acompanharam a cerimónia, conferindo-lhe solenidade e significado litúrgico.

A celebração prosseguiu com a Liturgia Eucarística, antes de culminar com a procissão de transladação do Santíssimo Sacramento para um altar lateral da Sé, acompanhada da incensação e do canto do Tantum Ergo. De acordo com o rito próprio desta noite, a celebração não terminou com bênção nem despedida: o Santíssimo Sacramento ficou exposto para adoração silenciosa, convidando os fiéis a prolongarem a oração numa vigília de contemplação.

Na síntese final da sua homilia, D. José Ornelas reuniu os três fios condutores da noite — memória, missão e serviço — numa visão de conjunto orientada para a ação: «Este é o pão da memória, do passado e da tradição que recebemos e que hoje se volta a repetir até ao fim dos tempos. E nós, hoje, sentando-nos à volta da mesa da Eucaristia, sentimos que o Senhor é Aquele que nos guia e nos liberta — mas que sempre, sempre, nos pede este gesto de lavar os pés, com carinho, com amor, com afeto, para que a ninguém falte o pão necessário para a vida.»

«Esta é a nossa missão, que nasce a partir desta Ceia Santa de Jesus com os seus discípulos», concluiu o bispo, antes de convidar a assembleia a recordar o gesto da lavagem dos pés e celebrar a Eucaristia. «É por isso que Ele diz: fazei isto em memória de mim. E é isso que agora vamos fazer.»

A Missa da Ceia do Senhor deu início ao Tríduo Pascal, que continua na Sexta-Feira Santa com a celebração da Paixão do Senhor e culmina com a Vigília Pascal na noite de sábado para domingo, coração de todo o ano litúrgico da Igreja Católica.

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