A missão no ambiente digital – II

200 visualizações

A Internet surge, portanto, como uma ferramenta com demasiado poder para a reconstrução social, pelo que importa refletir sobre e compreender a transmissão da fé que se possa realizar nos ambientes digitais[1]. No documento final do Sínodo dos Bispos de 2018 – Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional –, é referido, no capítulo III, que

“o ambiente digital constitui, para a Igreja, um desafio a vários níveis, sendo imprescindível aprofundar o conhecimento das suas dinâmicas e o seu alcance dos pontos de vista antropológico e ético. O ambiente em questão requer não só que o frequentemos e promovamos as suas potencialidades de comunicação em ordem ao anúncio cristão, mas também que impregnemos de Evangelho as suas culturas e dinâmicas. Já estão em curso algumas experiências neste sentido, e devem ser encorajadas, aprofundadas e compartilhadas. A prioridade que muitos atribuem à imagem como veículo de comunicação não poderá deixar de questionar as modalidades de transmissão duma fé que se baseia na escuta da Palavra de Deus e na leitura da Sagrada Escritura. Os jovens cristãos, nativos digitais como os seus coetâneos, têm aqui uma verdadeira missão, na qual alguns já estão empenhados. Aliás, são os próprios jovens que pedem para serem acompanhados no discernimento sobre os estilos de vida amadurecidos, num ambiente hoje altamente digitalizado, que nos permita aproveitar as oportunidades, evitando os riscos.”[2]

A transmissão da fé pode ser percebida, em certa medida, como comunicação, pois é o ato de transmitir, de entregar, e, por outro lado, é o conteúdo da comunicação, aquilo que se comunica[3]. Assim, o desafio é, tendo por base a Encarnação de Cristo, compreender o modo como promover uma pastoral que torne Deus vivo e atual na realidade de hoje. As várias interpelações do Magistério da Igreja vão nesse sentido, isto é, de que a Internet tem uma função precursora, nunca descartando a presença física, onde o ser humano se sinta acolhido numa comunidade humana.

Na exortação apostólica pós-sinodal Christus Vivit aos jovens e a todo o povo de Deus, o Papa Francisco aprofundou sobre o ambiente digital que caracteriza o mundo contemporâneo. Segundo Sua Santidade,

“largas faixas da humanidade vivem mergulhadas nele de maneira ordinária e contínua. Já não se trata apenas de “usar” instrumentos de comunicação, mas de viver numa cultura amplamente digitalizada que tem impactos muito profundos na noção de tempo e espaço, na perceção de si mesmo, dos outros e do mundo, na maneira de comunicar, aprender, obter informações, entrar em relação com os outros. Uma abordagem da realidade que tende a privilegiar a imagem relativamente à escuta e à leitura influencia o modo de aprender e o desenvolvimento do sentido crítico. “(CV, 86)

As redes sociais e a Internet geraram, sem dúvida, uma nova maneira de comunicar e de criar laços. Podemos afirmar que são as novas “praças” onde os jovens se encontram para dialogarem, conviverem, trocarem ideias e opiniões. No mundo digital encontramos também uma participação sociopolítica e uma cidadania ativa muito presentes, que podem promover atos e acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis. É muitas vezes na Internet que os jovens se envolvem ou se deixam envolver em muitas atividades e iniciativas.

O ambiente digital é, muitas vezes, um espaço de solidão, de violência, de exploração e manipulação. De facto, os meios de comunicação digitais podem expor ao risco de dependência, isolamento e perda progressiva de contacto com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas. Aqui, surge uma nova forma de violência através das redes sociais, que designamos por cyberbullying. Além disso, a Internet é também um meio de difusão da pornografia e de exploração de pessoas para fins sexuais” (cf. CV, 88).

No mundo digital existem igualmente grandes grupos económicos, que criam formas de manipulação das consciências. Maioritariamente, estes grupos funcionam em círculos fechados e têm como objetivo, muitas vezes, proliferar notícias falsas, fomentando o ódio e preconceitos.

Um grupo de trezentos jovens de todo o mundo preparou um documento para o sínodo dedicado a Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional no qual refere que “as relações on-line podem tornar-se desumanas. Os espaços digitais não nos deixam ver a vulnerabilidade do outro e dificultam a reflexão pessoal. Problemas como a pornografia distorcem a perceção que o jovem tem da sexualidade humana” (CV, 90). Na verdade, utilizada desta forma, a tecnologia origina uma realidade ilusória que ignora a dignidade humana. De facto, a imersão no mundo virtual contribui para uma espécie de “migração digital”, isto é, para um afastamento da família, dos valores culturais e religiosos, que promove a solidão e isolamento[4]. Hoje, os jovens enfrentam novos desafios, sendo uma deles passar do contacto virtual para uma comunicação pessoal, aberta, global, cultural, boa e saudável. 


[1] Um tema trabalhado por L. M. Figueiredo Rodrigues, O Digital no Serviço da Fé. Formar para Uma Oportunidade (Lisboa: Universidade Católica Editora, 2016).

[2] Documento final do Sínodo dos Bispos, “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, acedido a 27 de agosto de 2024, https://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20181027_doc-final-instrumentum-xvassemblea-giovani_po.html?utm_source=chatgpt.com

[3] Cf. Rodrigues, “Mediações da fé e tecnologias”, 158.

[4] Cf. Relatório síntese da reflexão realizada na Diocese de Lisboa no período entre sessões da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, n.º 14.

Siga-nos nas redes sociais:
Partilhar

Leia esta e outras notícias na...

NEWSLETTER

Receba as notícias no seu email​
Pode escolher quais as notícias que quer receber: destaques, da sua paróquia