A Cáritas Portuguesa defende a necessidade de um novo impulso político na luta contra a pobreza e a exclusão social no país, alertando que os objetivos definidos para 2030 poderão não ser alcançados com o ritmo atual de progresso. A posição surge na terceira edição do relatório anual Pobreza e Exclusão Social em Portugal: Uma Visão da Cáritas – 2026, apresentado esta terça-feira, em Lisboa.
O documento sublinha que alguns indicadores revelam melhorias, mas alerta que persistem situações profundas de exclusão social, consideradas estruturalmente elevadas. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística citados no relatório, em 2025 mais de um milhão de pessoas vivia em situação de privação material e social, das quais cerca de 460 mil enfrentavam privação severa.
Entre as dificuldades identificadas, cerca de 200 mil pessoas não tinham meios económicos para assegurar uma alimentação adequada e aproximadamente 600 mil não podiam comprar roupa nova. Quase um milhão de pessoas não tinha possibilidade de gastar uma pequena quantia consigo próprias e mais de 1,6 milhões não conseguiam manter a habitação devidamente aquecida.
O estudo aponta ainda retrocessos em algumas áreas, destacando o aumento do número de pessoas em situação de sem-abrigo, que mais do que duplicou entre 2019 e 2024. A habitação surge como um dos fatores mais críticos: o preço mediano por metro quadrado nas transações imobiliárias aumentou 74,3 por cento entre o início de 2020 e o terceiro trimestre de 2025, um crescimento muito superior ao do rendimento disponível das famílias.
O relatório dedica também atenção à pobreza infantil, classificada como uma violação grave dos direitos humanos fundamentais, e alerta para a transmissão intergeracional da pobreza. Entre os adultos que viveram dificuldades financeiras na adolescência, 21,2 por cento encontram-se hoje em risco de pobreza.
Em 2025, a rede Cáritas em Portugal realizou mais de 105 mil atendimentos, através de respostas sociais, projetos de empregabilidade e apoio à integração de migrantes e refugiados.