Esperança que não desilude: Diocese de Leiria-Fátima encerra Ano Jubilar com cerimónia e testemunhos

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O frio da noite de sábado, 27 de dezembro, não impediu que muitos fiéis se reunissem no Centro de Diálogo Intercultural de Leiria, antiga igreja da Misericórdia, para um momento único na vida da Diocese de Leiria-Fátima. Às 21h00, começava a celebração que marcaria o encerramento solene do Ano Jubilar, convocado pelo Papa Francisco sob o signo da esperança – essa virtude que, como repetiria o Santo Padre, “não desilude”.

Com velas acesas a iluminar rostos de todas as idades, a procissão partiu em direção à Sé de Leiria, conduzindo a Imagem Peregrina de Nossa Senhora. O murmúrio das orações e o som dos passos fazia-se ouvir naquele pedação da Rua Direita que leva até à Sé. Era um rio humano de luz que avançava pela escuridão, símbolo perfeito do que este Ano Jubilar representou: a persistência da fé num tempo marcado por guerras, divisões e incertezas.

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https://youtu.be/aZ7thxyUfEU

A Catedral aguardava, quase preenchida por uma assembleia expectante. O bispo diocesano, D. José Ornelas, presidiria aos ritos jubilares que incluiriam momentos de profunda espiritualidade que durante a celebração foram acompanhados de forma exímia pelo coro diocesano orientado pelo maestro José Leite: liturgia da Palavra, adoração ao Santíssimo Sacramento, o solene cântico do Te Deum e, finalmente, as palavras do bispo diocesano que projetariam aquela experiência para além das paredes do templo.

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https://youtu.be/cqmunBG91MI

Quando a fé renasce no caminho partilhado

Mas foi nos testemunhos que a assembleia encontrou o coração pulsante daquela celebração. Leonor Duarte, jovem da paróquia de Nossa Senhora da Piedade, em Ourém, subiu ao ambão com a humildade de quem carrega uma história simples, mas profundamente transformadora. A sua participação no Jubileu dos Jovens, em Roma, revelou-se muito mais do que uma viagem turística.

“Quando surgiu a oportunidade de participar neste jubileu, eu sabia apenas uma coisa: precisava de parar, de olhar para dentro e de reencontrar algo que se sentia distante. A minha fé”, começou a Leonor, com uma voz que misturava emoção e serenidade. “Não procurava respostas rápidas, nem grandes revelações. Procurava apenas preencher o vazio que sentia.”

O seu testemunho revelou uma verdade que muitos jovens vivem em silêncio: a sensação de distanciamento espiritual, a fé que se torna difusa num mundo acelerado e exigente. Mas Leonor descobriu algo essencial: “Hoje, olhando para trás, percebo que Deus às vezes chama assim, baixinho. Apenas o suficiente para darmos o primeiro passo.”

E foi no próprio caminho que a transformação começou. Não nas basílicas imponentes ou nas celebrações solenes, mas nos desafios concretos da peregrinação: “Noites mal dormidas, cansaço acumulado, chuva inesperada, o calor intenso que nos tirava as forças e os inevitáveis banhos gelados”, enumerou, arrancando sorrisos cúmplices de quem já viveu experiências semelhantes.

Mas foi precisamente nessas dificuldades que Leonor encontrou o tesouro que procurava: “A viagem trouxe aquilo que mais precisava e que não sabia pedir. Companhia, apoio e a certeza de que nada acontece por acaso. Foi no meio desse movimento, entre gargalhadas que surgiam quando a energia era escassa, na ajuda para carregar mochilas ou encontrar um lugar para descansar, e até no simples ato de estarmos uns pelos outros nas filas, que comecei a perceber algo essencial: a fé cresce quando é partilhada.”

A assembleia escutava em silêncio atento enquanto a Leonor recordava momentos específicos: a chuva implacável em Assis, onde o grupo prosseguiu unido, “porque havia algo maior a guiar-nos”; a multidão no Vaticano, onde quase perderam a esperança de entrar, mas onde, “agarrados pelas mochilas para não nos separarmos, entendi o verdadeiro sentido de comunidade. Ninguém fica para trás.”

“Foram eles, cada um à sua maneira, que me mostraram que a fé também renasce através das pessoas”, confessou a jovem. “Nos jogos que partilhámos, na música no autocarro, nos sorrisos, na paciência e no apoio. Encontrei aquilo que tinha ido procurar: sentido, direção e uma presença de Deus que há muito não sentia.”

A conclusão do seu testemunho ecoou como um compromisso geracional: “Não sei o que vem a seguir, mas sei que fui escolhida para viver esta experiência, para seguir de coração firme e quem sabe para outros propósitos maiores. Cada passo que dou, cada sorriso que ofereço, cada oração que murmuro carrega um pouco deste percurso que começou naquela peregrinação e que ainda hoje continua.”

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https://youtu.be/WMinxh39auQ

A missão do catequista renovada em Roma

Se a Leonor representava a voz da juventude em busca, Rui Santos trazia a perspectiva de quem já descobriu a sua vocação e procurava renová-la. Catequista do centro da Sé, participou no Jubileu dos Catequistas com a responsabilidade de quem sabe que transmite a fé às novas gerações.

“Inicialmente, quando me convidaram para vir fazer aqui o meu testemunho, fiquei um bocado apreensivo com isso”, admitiu com honestidade desarmante. O seu à vontade serviu de ponte para partilhar experiências profundamente espirituais.

O Rui destacou dois momentos cruciais da sua peregrinação: a passagem pelas Portas Santas e a visita ao túmulo do Papa Francisco. A primeira porta, na Basílica de Santa Maria Maior, confessou, não teve o impacto esperado: “Havia muita gente, havia muita confusão na entrada, e depois, ao passar a porta, não podíamos parar. Não conseguíamos tirar o proveito das graças que era passar por aquela porta.”

Mas foi junto ao túmulo de Francisco que Rui viveu um dos momentos mais marcantes: “Consegui arranjar ali um espaço um bocadinho isolado. E depois, quando fechei os olhos, abateu-se um silêncio que não consigo explicar. Fiquei eu e o Papa Francisco a sós, um bocadinho em diálogo, sensivelmente dez minutos.”

A emoção cresceu na sua voz ao recordar esse encontro silencioso com o legado do Papa: “Basicamente, agradeci-lhe pela presença dele cá na Terra, pelos ensinamentos que nos deu, pelo exemplo, pela alegria com que transmitia a mensagem. Acho que ninguém ficou indiferente ao Papa Francisco. E nós, catequistas, acho que ainda fomos mais abençoados.”

O catequista explicou como o Papa Francisco revolucionou a catequese com a sua linguagem acessível: “Fiz algumas preparações de sessões de catequese com base nos textos do Papa Francisco. Ele tinha uma linguagem tão simples e tão direta para os jovens que, para nós catequistas, era mais fácil fazer as sessões. Nunca me esqueço daquela grande expressão que ele utilizava para os jovens: que saíssem do sofá, calçassem as sapatilhas. E nós incentivávamos os nossos jovens a fazer isso.”

A experiência transformou também a sua compreensão sobre o simbolismo das Portas Santas. A última, na Basílica de São Paulo, fora de muros, foi vivida de forma radicalmente diferente: “Foi um dia de semana, não havia praticamente ninguém no local. Consegui perceber a grande dimensão da porta, a magnitude, a obra de arte. Nós, fora, havia muita claridade, era um dia maravilhoso. E da parte de dentro, conseguíamos ver que era um pouco mais escuro. Mas havia alguma calma, alguma paz, que nos convidava a entrar.”

A interpretação de Rui ganhou profundidade teológica: “Quando fiz a minha entrada, era Deus que me estava a convidar. E o facto de eu entrar estava a aceitar o convite. E depois de estar dentro, foi confirmar a minha disponibilidade como catequista.”

Mas o Rui não a atravessou sozinho: “Pensei nos outros catequistas que não puderam estar, que eu sei que gostariam de estar. E eu, quando fiz a passagem, levei-os comigo. Porque acho que nós, sozinhos, não podemos caminhar. Fica muito difícil caminhar sozinho.”

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https://youtu.be/csKnOW4P-20

Uma descoberta inesperada: a comunhão entre catequistas

Um dos frutos mais preciosos da peregrinação, revelou o Rui, foi a descoberta da comunidade de catequistas da Diocese: “Eu não conhecia, aliás, posso dizer que só conhecia um catequista. E fiquei a pensar um pouco sobre isso. Porquê só conhecer um catequista da Diocese? Havia paróquias aqui muito vizinhas e eu não conhecia nenhum catequista.”

A constatação levou-o a uma proposta concreta: “Se calhar, tínhamos que pensar agora numa forma de, pelo menos, haver aqui uma interação entre catequistas, que seria bastante importante.”

A celebração eucarística dominical em Roma, com milhares de catequistas de todo o mundo, impressionou-o profundamente: “Foi impressionante ver a moldura humana que estava ali a aparecer. E foi bom ver que estávamos todos ali à espera, mas ninguém estava chateado, ninguém estava aborrecido. Todos estávamos contentes, estávamos alegres, estávamos bem-dispostos.”

Essa visão panorâmica da Igreja em ação trouxe-lhe novo alento: “Às vezes pensamos que estamos um pouco isolados, estamos sozinhos, no nosso grupo, nas nossas paredes. E às vezes é bom abrir horizontes e ver que há muita gente a trabalhar também neste domínio. E isto dá-nos algum alento.”

E concluiu com gratidão: “Foi a esperança e a certeza de que as coisas se podem fazer com uma alegria diferente. Foi essa parte que eu também trouxe das jornadas que tivemos.”

Um ano de transformação e esperança

Quando chegou o momento do bispo diocesano oferecer a síntese do Ano Jubilar, D. José Ornelas começou situando o contexto: “Estamos a chegar ao fim deste ano de 2025, um ano muito significativo a nível da Igreja e do mundo. Foi um ano cheio de problemas, de conflitos, guerras, tensões de todo o género, tanto a nível do nosso país como da Igreja.”

Mas foi precisamente nesse contexto conturbado que o Jubileu ganhou significado profundo: “Foi também neste ano que fomos convocados para a celebração do Ano do Jubileu da Esperança. Neste tempo de Natal, é especialmente apropriado afirmar a esperança onde ela falta, acender luzes onde há escuridão, procurar caminhos de reconciliação onde há guerra e divisão, tornar-se presente onde há solidão e abandono.”

O bispo prestou homenagem ao Papa Francisco, falecido durante este ano jubilar: “O Papa que nos deixa uma preciosa herança; um percurso de alegria e renovação da Igreja a partir do Evangelho; que encontrou tantas dificuldades dentro e fora da Igreja e terminou a sua peregrinação na terra convocando a Igreja sob o signo da ‘Esperança que não desilude’.”

D. José Ornelas sublinhou o ensinamento essencial do pontificado: “Repetiu muitas vezes que os percursos de renovação exigem sonho – Evangelho –, comunhão entre irmãos e na transformação sinodal da Igreja, e esperança persistente, porque a transformação não significa simplesmente mudar esquemas e estruturas, mas mudar a partir do coração e da fé no Senhor Jesus.”

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https://youtu.be/AtROHf8CVbI

Uma Igreja viva e em crescimento

Contra as narrativas pessimistas, o bispo apresentou dados concretos de vitalidade: “Este ano viu afluírem a Roma multidões de fiéis de todo o mundo, também de Portugal e também da nossa Igreja de Leiria-Fátima. É um sinal de que a Igreja não está a morrer, como pretendem muitos. Pelo contrário, apesar dos ataques, das perseguições, que também este ano trucidaram muitas vidas de irmãos e irmãs inocentes, Cristo continua a percorrer esta Terra.”

Para a diocese de Leiria-Fátima, o ano foi especialmente significativo: “Foram muitas as participações no Jubileu, com toda a Igreja, em Roma. Particularmente significativa foi a participação dos jovens, dos catequistas, das famílias e de muitos movimentos que dão vida à nossa Igreja diocesana.”

Mas o ano trouxe também transformações estruturais profundas: “Foi um ano especial de início de uma transformação pastoral, que pretende dar nova vida e participação às nossas comunidades, integrando todos os batizados nessa transformação através da criação de Unidades Pastorais.”

Esta mudança, explicou D. José Ornelas, nasce do caminho sinodal iniciado há quatro anos: “Caminhar juntos, participar juntos, ouvir-nos e escutar juntos a voz de Deus na oração e no diálogo fraterno, disponíveis para dar a nossa colaboração concreta na vida da comunidade e no anúncio do Evangelho.”

Uma Igreja de portas abertas

Num gesto particularmente significativo, o bispo dirigiu-se aos novos membros da comunidade diocesana: “É um ano marcado também pela presença crescente de irmãos e irmãs provenientes de muitas nações e culturas que vão chegando às nossas paróquias, às nossas cidades e aldeias, aos nossos locais de trabalho, escola, saúde.”

A sua mensagem foi clara e acolhedora: “Quero dizer a todas e a todos os que chegam que, dentro da Igreja, não há nacionais e estrangeiros, não há irmãos e irmãs de primeira e de segunda; que sois muito bem-vindos. Espero que sejamos, uns para os outros, em nome do Senhor Jesus, sinais vivos de esperança e de futuro melhor para todos.”

Um apelo final à juventude

D. José Ornelas reservou as suas palavras finais para os jovens presentes: “Tenham a coragem da esperança. A esperança de quem sente o sonho de Deus no coração; a esperança que não desanima nas dificuldades, a esperança que se deixa conduzir pelo amor do coração do Senhor que dá alegria e esperança ao nosso sonho de futuro.”

Quando, momentos antes, o Te Deum ecoava pelas abóbadas da Sé, não era apenas o encerramento litúrgico de um ano. Era o compromisso renovado de uma comunidade inteira: continuar a ser sinal de esperança num mundo que tanto precisa dela. As velas que os fiéis levavam consigo ao sair do templo simbolizavam essa missão – levar a luz da fé para as casas, para as ruas, para o quotidiano de cada dia.

O Ano Jubilar terminou oficialmente, mas a esperança que não desilude continuará a orientar os passos da diocese de Leiria-Fátima. Como testemunharam a Leonor e o Rui, e como exortou D. José Ornelas, o caminho sinodal prossegue, convidando cada batizado a descobrir o seu lugar único na grande missão de anunciar o Evangelho com alegria renovada.

E nas palavras do Papa Francisco, que ressoaram ao longo de toda a celebração, a certeza permanece: “A esperança não desilude.” É com essa convicção que a Igreja diocesana inicia o novo ano, disposta a enfrentar desafios, a acolher diferenças e a caminhar junta, porque, como lembrou Rui Santos, “sozinhos, fica muito difícil caminhar”.

ÁLBUM FOTOGRÁFICO
https://photos.app.goo.gl/mZWX3MRi14CL8c1T7
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