Há coincidências no calendário cristão que, sem podermos apresentá-las como uma intenção sobrenatural demonstrável, adquirem uma extraordinária força simbólica. O dia 19 de agosto é uma delas.
Em 1917, Nossa Senhora não apareceu aos três Pastorinhos no dia 13 de agosto, como acontecera nos meses anteriores. Lúcia, Francisco e Jacinta tinham sido levados pelo Administrador de Vila Nova de Ourém, interrogados e impedidos de estar na Cova da Iria. A quarta aparição acabou por acontecer seis dias depois, a 19 de agosto, nos Valinhos, perto de Aljustrel.
E 19 de agosto é precisamente o dia em que a Igreja celebra São João Eudes, sacerdote francês do século XVII e um dos grandes apóstolos da devoção aos Corações de Jesus e de Maria.
É difícil não reparar na beleza desta coincidência.
São João Eudes compreendeu que o coração de Maria é uma verdadeira escola do Evangelho: um coração inteiramente voltado para Cristo, disponível à vontade de Deus e apaixonado pela salvação dos homens. Foi decisivo para a difusão do culto litúrgico ao Coração de Maria e, em 1648, promoveu a celebração da sua festa. A própria descrição oficial da sua imagem em Fátima recorda-o como «grande apóstolo dos Corações de Jesus e de Maria».
Séculos depois, a 19 de agosto de 1917, é precisamente Maria quem volta a falar aos Pastorinhos.
Não podemos afirmar historicamente que Nossa Senhora tenha «escolhido» o dia 19 por ser a festa de São João Eudes. Isso ultrapassaria aquilo que as fontes de Fátima nos permitem dizer. Mas podemos contemplar a coincidência à luz da espiritualidade da Mensagem.
Porque, nos Valinhos, Maria fala precisamente a linguagem do coração que ama e sofre pela salvação dos outros.
Depois de pedir que continuassem a rezar diariamente o Terço, Nossa Senhora toma, segundo Lúcia, «um aspecto mais triste» e deixa um dos apelos mais fortes de toda a Mensagem de Fátima:
«Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores.»
É a espiritualidade da reparação.
É a oração pelos outros.
É oferecer-se por amor.
É não permanecer indiferente perante quem se afasta de Deus.
É, afinal, entrar na escola do Coração de Maria.
Um santo que Fátima colocou dentro da sua Basílica
Há ainda outro pormenor extraordinariamente sugestivo.
Quem entra na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, na Cova da Iria, encontra quatro grandes figuras de santos ligadas à devoção mariana: São Domingos de Gusmão, Santo António Maria Claret, São João Eudes e Santo Estêvão da Hungria. O próprio Santuário apresenta-os como quatro grandes devotos de Nossa Senhora.
E São João Eudes está ali, à entrada da Basílica, do lado direito.
A escultura, realizada por Martinho de Brito em 1957, mostra o santo levando junto ao peito o coração que identifica a sua espiritualidade. A cartela da imagem recorda precisamente a aprovação, em 1648, da celebração da festa do Coração de Maria promovida por ele.
Não é, portanto, uma presença decorativa.
No coração arquitetónico de Fátima foi colocado um dos grandes homens que, muito antes de 1917, ajudaram a Igreja a descobrir teológica e liturgicamente aquilo que se tornaria uma das dimensões fundamentais da Mensagem de Fátima: o Imaculado Coração de Maria.
19 de agosto: quando Deus escreve também nos imprevistos
A aparição de agosto poderia ter acontecido no dia 13. Não aconteceu.
O poder político impediu os Pastorinhos de chegarem à Cova da Iria. Mas conseguiu apenas alterar o lugar e a data do encontro, não silenciar a Mensagem.
E assim chegamos aos Valinhos.
19 de agosto.
No calendário da Igreja, dia de São João Eudes, apóstolo do Coração de Maria.
Nos caminhos de Fátima, dia em que Maria aparece novamente aos Pastorinhos e lhes pede oração e sacrifício pela salvação dos pecadores.
E hoje, dentro da Basílica do Rosário, São João Eudes continua de pé, com o coração nas mãos, como se ajudasse os peregrinos a compreender uma das chaves de Fátima:
para compreender a mensagem de Nossa Senhora é preciso entrar no seu Coração.
Talvez por isso esta coincidência seja tão bela.
A 13 de agosto, os homens impediram três crianças de chegar ao lugar marcado.
A 19, Maria foi ao encontro delas.
E fê-lo no dia em que a Igreja recorda um homem que passou a vida a ensinar os cristãos a aproximarem-se do Coração de Jesus através do Coração de Maria.
Em Fátima, até uma data alterada pela perseguição pode transformar-se numa catequese.
19 de agosto: o dia em que os Valinhos e São João Eudes nos conduzem ao mesmo lugar — ao Coração Imaculado de Maria.