“…seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é.” (1 Jo 3, 2c)

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Quando lemos esta frase escrita por S. João Evangelista quase que nos imaginamos a aproximar de uma janela de onde podemos contemplar o sentido último da nossa existência, de onde podemos observar a Vida plena que Deus tem preparada para todos aqueles que O amam, se bem que “nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pela mente humana” essa realidade, como escreve o Apóstolo S. Paulo.

A certeza dessa realidade está ancorada solidamente na Sagrada Escritura, através da qual o Espírito Santo foi desvelando através das gerações o rosto amoroso do Pai, através da qual Deus Se foi revelando e vai dando continuamente sinais a todos os que O procuram, de forma a transmitir confiança aos seus filhos nos caminhos desta vida.

A certeza de que seremos semelhantes a Ele tem, contudo, o perigo de nos endeusarmos, de nos julgarmos pequenos deuses, de ouvirmos o Tentador sussurrar para nós “abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal” (Gn 3, 5b), a esquecermos a Fonte da Vida e o jardim dos frutos do Amor de Deus, a cairmos no pecado primordial e originante, segundo o qual nós próprios temos a possibilidade de definir o bem e o mal. Por isso, é preciso abordar este assunto com a maior humildade.

A seguinte passagem do Génesis, familiar para nós, evoca-nos o essencial da Criação, fruto da vontade de Deus: “Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança…” (Gn 1, 26a). Podemos identificar nesta catequese divina que o autor humano, inspirado pelo autor divino, o Espírito Santo, usou para nos edificar, a pedra de toque da relação que Deus quer estabelecer com todos os Homens ao longo da História: é pelo Amor que se define a nossa relação com Deus e com o próximo.

No percurso da História da Salvação as palavras de Jesus Cristo, confirmadas pelos seus sinais e testemunhadas pelos seus discípulos, serão o alicerce completo e perfeito no qual se baseia a garantia de que, tendo nós sido criados à imagem e semelhança de Deus, fomos constituídos filhos e herdeiros pelo Sangue derramado do Filho que nos diz: “Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu Filho, (…), a fim de que dê a vida eterna a todos os que lhe entregaste. Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste.” (Jo 17, 1b.2a.3).

A glória de Deus que Jesus invoca, manifestada no alto da Cruz através da humanidade de Deus feito homem, é indissociável da glória de Deus manifestada no alto do monte Tabor através de divindade de Jesus mostrada aos discípulos. A eles foi permitido viver e sentir a presença indescritível (inefável) diante do Altíssimo, foi concedido observar e serem tocados pela Luz que atravessa, foi concedido compreender o que significa sermos semelhantes a Deus, semelhantes na humanidade de Jesus e semelhantes na imagem do Pai reflectida nos seus filhos.

A Verdade, a Vida e o Caminho que devemos trilhar nesta peregrinação terrena foram-nos dados a conhecer na plenitude, totalmente, através de Jesus Filho de Deus, nada mais havendo a acrescentar relativamente à nossa existência, à nossa liberdade de escolha e à nossa natureza. Sendo a nossa natureza humana frágil e breve, encontra-se no entanto revestida de uma outra natureza que ainda não vemos totalmente mas que vislumbramos já por meio de constantes sinais que pulsam dentro de nós.

A certeza proveniente da nossa Fé em Jesus Cristo permite-nos viver como peregrinos cheios de confiança, desejosos de uma Vida plena, uma Vida em Deus, uma vez que, tendo sido tornados seres divinizados por meio da humanidade de Deus sabemos que, sendo semelhantes a Deus, O veremos um dia tal como Ele é.

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