Gestos de hospitalidade com ternura de mãe e dos santos.  

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Tinha estacionado o carro em frente do lar. Agora tirou a cadeira da mala do carro, abriu-a e começou a armá-la: colocou os apoios dos pés, a almofada nas costas no assento. Tornou-se difícil enfiá-la nas calhas laterais. Só à terceira vez conseguiu. Mudar o filho, ou seria o irmão, do carro para a cadeira requereu mais esforço mesmo depois de ter deslocado o carro para ficar mais a jeito.   

Na minha cabeça gerou-se um diálogo sem palavras de som. Será mãe, irmã, tia, do ajudado? Vamos prestar atenção, à distância a que estou. Era preciso ajudar o filho, irmão sobrinho. Pegou nos braços e deu forte apoio, segurando bem. Não era muito pesado, mas ela também não era forte. Nos gestos pareceu ser a mãe. Agarrou forte e ternamente. Parecia ser a mãe a fazer tudo para o ajudar a dar alguns passos mais seguros para não cair. Segurou com firmeza e conseguiu sentá-lo na cadeira e descansou. Mesmo à distância, comecei a ficar comovido e a atribuir aqueles gestos de ternura de mãe para com seu filho crescido mas frágil. Já ajeitado na cadeira, suponho, que mãe o tinha vindo buscar para alguns dias em casa. Muitos? Não sei. Um ou dois, ou só parte de um dia para uma refeição. Um encontro de família, pensei.

Nem todos abandonam os seus entes queridos e, muito menos, as mães, como a informação rotineira deixa, por vezes, os ouvintes a pensar o contrário. Algumas pessoas e comunicadores funcionam friamente como “bots” nos termos, fonética e ritmo. Até provocam ansiedade em quem os ouve, a debitar sons a correr como máquinas. A pressa vem talvez de igual ansiedade e desejo “de que isto acabe depressa; já me estou a sentir sem ar”. Estes apressados no falar ouvem-se nas escolas e assembleias; rádios e televisões. Ainda bem que não são todos, mas estarão a aumentar. Ao falar e ler, entendem o sentido? Duvido. E dão tempo para os que ouvem o poderem captar. Ainda menos. Os resultados dos estudos da OCDE, feitos recentemente, pela Europa adiante, parecem concluir que os estudantes entendem cada vez menos, o que leem e o que ouvem ler e o que dizem e ouvem dizer. O mundo de máquinas falantes e velozes leva os humanos a falar sem entender o texto lido e como o falam, escrevem e ensinam. Sai uma salgalhada sem nexo. Daí algumas tertúlias e escolas iniciarem treinos de dicção e declamação associados ao pensar e ao dizer. Pensar bem e declamar bem aperfeiçoa o pensar e o falar com sentido, paz e ternura.

Aquela mãe (convenci-me que era mãe) parecia motivada por um sentido de mente, coração e de mãos. Nela tudo era ternura mansa vinda do coração. São muitas, felizmente estas mães, e por isso o mundo vai melhor do que muitos apregoam. Graças a Deus que ainda há histórias de heróis com gestos humildes de ternura, bem-fazer e amor ao próximo. Só que as pessoas boas não são badaladas como os influencers mundanos da violência, aspereza e morte.

Os pequenos gestos de bondade, oração e hospitalidade dos santos e santas a favor do próximo, rarament  são dados a conhecer como pessoas que fazem a diferença. A não ser que vendam notícias por alguma faceta fortemente político-conflituosa com a Igreja. O catecismo dos primeiros cristãos, a Didaqué, do I século, ensina que há dois caminhos, o da vida e do amor; e o  da morte e do mal, de todos os males. No capítulo XII, ensina a ser hospitaleiro, a acolher os hóspedes, a ajudá-los no que puderem até eles partirem ou viverem do seu trabalho. Alguns santos portugueses distinguiram-se pela hospitalidade: Santo António, Santa Isabel, S. Nuno de Santa Maria, Santa Beatriz da Silva, S. João de Deus, S. Bartolomeu dos Mártires; e dos não canonizados: Padre Cruz, Padre Américo, e muitos outros. No dia 18 de outubro celebra-se o Centenário do Dia das Missões que apela à solidariedade e hospitalidade em favor dos que evangelizam e dos evangelizados, e de oração e ofertas  para promover  e ajudar  as missões segundo o lema: “Um em Cristo, unidos na Missão”.

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