Europa: unir o que a História não pode voltar a separar

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A Europa atual nasceu de uma ferida. É talvez isso que esquecemos quando reduzimos a União Europeia a Bruxelas, fundos comunitários, regras económicas ou burocracia.

Quando Robert Schuman apresentou, a 9 de maio de 1950, a declaração que está na origem da integração europeia, o continente ainda carregava as ruínas da Segunda Guerra Mundial. A proposta era simultaneamente simples e revolucionária: aproximar de tal maneira antigos inimigos que uma nova guerra se tornasse não apenas impensável, mas materialmente impossível.

Vale a pena recordar quem eram alguns desses homens. Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, três dos grandes pais fundadores da construção europeia, eram católicos. A sua visão política foi profundamente marcada pelo humanismo cristão, pela dignidade da pessoa, pela solidariedade, pela subsidiariedade e, sobretudo, pela convicção de que a reconciliação era possível. Não foi por acaso que Schuman, cuja fé marcou profundamente a sua vida pública, foi declarado Venerável pela Igreja Católica, em 2021.

A Europa começou, portanto, como um projeto de paz, reconciliação e solidariedade. Setenta e seis anos depois, importa perguntar: que Europa estamos a construir?

Os sinais preocupam. A guerra regressou ao continente, os nacionalismos ganharam força e a imigração, o custo de vida, a insegurança económica e o desencanto com as instituições alimentam discursos que encontram no estrangeiro, no diferente ou na própria União Europeia explicações simples para problemas complexos.

A Alemanha oferece um sinal particularmente simbólico. A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu recentemente as eleições regionais na Saxónia-Anhalt, aproximando-se dos 44% dos votos. Um resultado que ganha especial significado num país cuja democracia do pós-guerra foi construída sobre a memória das consequências devastadoras do nacionalismo radical.

Mas não basta condenar os eleitores. Quando milhões de europeus procuram respostas nos extremos, as democracias precisam também de perguntar onde falharam. Que medos não escutaram? Que desigualdades deixaram crescer? Porque sentem tantos cidadãos que a Europa proclama grandes princípios, mas não responde às dificuldades concretas das suas vidas?

Aqui encontramos um curioso paradoxo no Reino Unido. O país que decidiu abandonar a União Europeia através do Brexit vê agora crescer, dentro das suas próprias fronteiras, forças que questionam a continuidade da União. Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte são governados por partidos que, embora em contextos muito diferentes, defendem a independência ou uma profunda alteração da relação com Londres.

Não significa que o Reino Unido esteja à beira da desagregação. Mas deixa uma pergunta inevitável: pode um Estado que escolheu separar-se de uma união para recuperar soberania acabar confrontado com povos que, invocando também identidade e soberania, querem separar-se dele?

Há uma ironia histórica nesta Europa: enquanto os seus fundadores compreenderam que era necessário unir para sobreviver, cresce hoje a tentação de acreditar que separar é a solução.

Naturalmente, defender uma identidade nacional ou reivindicar democraticamente a autodeterminação não equivale ao nacionalismo extremista. Mas todas estas tensões colocam a mesma questão: como conciliar identidade, soberania e pertença?

Os pais do projeto europeu: Schuman, Adenauer e De Gasperi voltam a ser atuais. A Europa que imaginaram não exigia que franceses, alemães ou italianos deixassem de amar as suas pátrias. Exigia algo muito mais difícil: amar a própria pátria sem precisar de destruir inimigos do outro lado da fronteira.

A União Europeia não sobreviverá apenas através da moeda, do mercado ou dos fundos. Sobreviverá se os europeus compreenderem novamente por que decidiram caminhar juntos.

Os pais da Europa tinham conhecido a guerra e escolheram a reconciliação. O nosso perigo é outro: uma geração que já não se lembra da guerra pode deixar de compreender o valor da paz.

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