Da fragilidade à esperança: acolher, proteger, promover e integrar

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Entre 9 e 16 de agosto, a Igreja em Portugal assinala a 54.ª Semana Nacional das Migrações, subordinada ao tema «Da fragilidade à esperança». A iniciativa convida as comunidades cristãs a reconhecerem a dignidade das pessoas migrantes e a transformarem a preocupação perante as suas dificuldades em gestos concretos de acolhimento, proteção, promoção e integração.

Falar de migrações é falar de pessoas. Mulheres e homens, crianças, jovens e idosos que deixam a sua terra, muitas vezes afastando-se da família, dos amigos, da língua, da cultura e das referências que lhes são familiares. Por detrás dos números e das estatísticas existem histórias singulares, marcadas por sonhos e projetos, mas também por perdas, medos, dificuldades e incertezas.

Algumas pessoas partem livremente, à procura de melhores condições de vida ou de novas oportunidades. Outras são forçadas a abandonar o lugar onde nasceram devido à guerra, à perseguição, à pobreza, à violência, às alterações climáticas ou à falta de perspetivas de futuro. Em qualquer dos casos, migrar significa atravessar fronteiras exteriores e interiores, enfrentar o desconhecido e reconstruir a vida num lugar onde, à chegada, quase tudo pode parecer estranho.

A fragilidade associada à experiência migratória não diminui, porém, o valor da pessoa. Pelo contrário, interpela a consciência de cada um e a responsabilidade de toda a comunidade.

Uma fragilidade que pertence a todos

A fragilidade faz parte da condição humana. Nenhuma pessoa é inteiramente autossuficiente. Todos dependemos dos outros em diferentes momentos da vida, sobretudo na infância, na doença, na velhice, no desemprego, no luto ou perante acontecimentos que não conseguimos controlar.

Reconhecer esta fragilidade comum aproxima-nos. Ajuda-nos a compreender que a pessoa migrante não pertence a uma categoria humana diferente nem deve ser vista apenas como alguém que necessita de ajuda. Partilhamos a mesma dignidade, as mesmas necessidades fundamentais e o mesmo desejo de sermos reconhecidos, amados e respeitados.

Importa, contudo, distinguir a fragilidade própria da condição humana dos processos de fragilização provocados pela injustiça. Uma pessoa pode encontrar-se numa situação vulnerável não apenas por ter deixado o seu país, mas porque lhe são negados direitos, porque desconhece a língua, porque não consegue regularizar a sua situação, porque é explorada no trabalho, porque vive num alojamento indigno ou porque é discriminada devido à sua origem, cultura ou religião.

Nestes casos, a fragilidade não resulta simplesmente das circunstâncias da vida. É agravada por decisões, estruturas e comportamentos que podem e devem ser transformados.

A fé cristã não permite olhar com indiferença para estas realidades. Em Jesus Cristo, Deus fez-Se próximo da fragilidade humana. Jesus conheceu a rejeição, a incompreensão e a perseguição. Ainda criança, teve de procurar refúgio com Maria e José numa terra estrangeira. Ao longo da sua vida pública, aproximou-Se de pessoas que a sociedade afastava e devolveu-lhes a dignidade, a palavra e um lugar na comunidade.

Partir não é deixar para trás todas as dificuldades

Portugal conhece bem a experiência da emigração. Ao longo de várias gerações, muitos portugueses partiram à procura de trabalho e de melhores condições de vida. Levaram consigo a saudade, enfrentaram línguas e culturas diferentes e, em numerosos casos, tiveram de suportar a precariedade, a desconfiança e a distância da família.

Essa memória deve ajudar a compreender aqueles que hoje chegam ao nosso país. Portugal continua a ser terra de partida, mas tornou-se também terra de acolhimento para pessoas provenientes de diferentes lugares do mundo.

A chegada ao país de destino não representa necessariamente o fim das dificuldades. Depois da viagem, começa um novo percurso: encontrar casa e trabalho, aprender a língua, compreender as instituições, regularizar documentos, inscrever os filhos na escola, recorrer aos serviços de saúde e estabelecer novas relações.

A falta de informação e de redes de apoio pode deixar as pessoas migrantes particularmente expostas à exploração. Algumas aceitam trabalhos precários e mal remunerados por desconhecerem os seus direitos ou por recearem perder a possibilidade de permanecer no país. Outras vivem em alojamentos sobrelotados, pagam rendas desproporcionadas ou ficam dependentes de quem lhes promete emprego e legalização.

À vulnerabilidade económica juntam-se, por vezes, o isolamento, a solidão, o preconceito e o racismo. Pequenos gestos de rejeição, comentários generalistas e suspeitas dirigidas a comunidades inteiras podem criar fronteiras tão dolorosas como aquelas que foram atravessadas durante a viagem.

A passagem da fragilidade à esperança não acontece apenas por iniciativa de quem chega. Depende também da capacidade de quem acolhe para reconhecer, escutar e criar condições de participação.

A mulher estrangeira que não desiste

O Evangelho proclamado no vigésimo domingo do Tempo Comum apresenta o encontro de Jesus com uma mulher cananeia. Trata-se de uma mulher estrangeira, pertencente a outro povo e a outra tradição religiosa. Aproxima-se de Jesus movida pelo sofrimento da filha e pede-Lhe ajuda: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim».

A mulher encontra inicialmente o silêncio. Os discípulos mostram incómodo perante a sua insistência e querem afastá-la. Também as palavras que se seguem parecem erguer uma barreira. No entanto, ela não abandona o seu pedido. Aproxima-se, prostra-se e volta a dizer: «Socorre-me, Senhor».

A sua resposta revela inteligência, coragem, humildade e confiança. Jesus reconhece então a grandeza da sua fé: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha fica curada.

Esta passagem do Evangelho impede-nos de reduzir a pessoa estrangeira a uma presença anónima ou a um problema social. A mulher cananeia tem voz, iniciativa e capacidade para interpelar. Não é apenas destinatária de uma ação misericordiosa. A sua perseverança torna visível uma fé que o próprio Jesus reconhece como grande.

Também as pessoas migrantes não devem ser vistas apenas a partir das suas necessidades. Trazem conhecimentos, experiências, capacidades, culturas, expressões de fé e formas de compreender o mundo que podem enriquecer as comunidades onde passam a viver.

A atitude dos discípulos merece igualmente atenção. Diante dos gritos da mulher, preocupam-se sobretudo em afastar o incómodo. Esta reação pode repetir-se sempre que uma comunidade procura silenciar quem pede ajuda ou prefere manter à distância as situações que perturbam a sua tranquilidade.

O Evangelho convida a passar da indiferença à escuta, da suspeita ao encontro e da distância à proximidade.

Uma Igreja onde ninguém é estranho

A Igreja é chamada a ser verdadeiramente católica, isto é, universal. Esta universalidade não se esgota na presença de pessoas de diferentes origens numa mesma celebração. Deve traduzir-se na vida concreta das comunidades, nas relações que se estabelecem e nas oportunidades oferecidas para que todos possam participar.

Uma comunidade cristã não pode contentar-se em prestar uma ajuda ocasional, embora essa ajuda seja necessária em muitas situações. Precisa de conhecer as pessoas, escutar as suas histórias e reconhecer os seus dons. Quem chega deve poder deixar de ser considerado hóspede e passar a sentir-se parte da comunidade.

Integrar não significa obrigar alguém a apagar a sua identidade, a abandonar a sua cultura ou a renunciar às tradições que são compatíveis com a dignidade humana e o bem comum. Também não significa criar grupos fechados que vivem lado a lado sem verdadeiros laços entre si. Integrar é construir uma pertença comum na qual as diferenças sejam respeitadas e o contributo de cada pessoa seja valorizado.

Este caminho pode ser compreendido a partir de quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar.

Acolher é abrir espaço para o encontro. Pode começar por um cumprimento, uma conversa, uma informação útil ou um convite para participar na vida da comunidade. Os primeiros gestos têm particular importância para quem chega sem conhecer ninguém.

Proteger é defender a dignidade e os direitos das pessoas. Exige atenção às situações de exploração laboral, tráfico de seres humanos, violência, discriminação e alojamento indigno. Implica também encaminhar quem precisa para instituições capazes de prestar apoio especializado.

Promover é reconhecer capacidades e criar oportunidades. A pessoa migrante precisa de condições para aprender, trabalhar dignamente, desenvolver os seus talentos, educar os filhos e participar nas decisões que dizem respeito à vida coletiva.

Integrar é permitir que todos possam dar e receber. Não se trata de uma ação feita apenas por quem acolhe em benefício de quem chega. É um processo recíproco, no qual as pessoas se conhecem, aprendem umas com as outras e constroem juntas uma comunidade renovada.

Transformar a proximidade em compromisso

A Semana Nacional das Migrações constitui uma oportunidade para as paróquias, comunidades cristãs e institutos de vida consagrada olharem para a realidade existente no seu território. Quem são as pessoas migrantes que vivem entre nós? Conhecemos os seus nomes, as suas famílias, as suas dificuldades e esperanças? Encontram espaço para participar na vida da comunidade ou permanecem à margem?

Nem todas as respostas exigem a criação de novos serviços. Muitas vezes, o primeiro passo consiste em conhecer e articular os recursos que já existem. As comunidades podem colaborar com instituições locais, associações, escolas, autarquias e organismos que acompanham pessoas migrantes e refugiadas.

Podem também facilitar o acesso à informação, apoiar a aprendizagem da língua portuguesa, ajudar na resolução de dificuldades quotidianas, acompanhar famílias isoladas e estar atentas a eventuais situações de exploração. Na vida pastoral, importa favorecer uma participação que não se limite à presença nas celebrações, mas inclua responsabilidades, ministérios e espaços de decisão adequados.

Valorizar as diferentes expressões culturais e religiosas pode tornar visível a universalidade da Igreja. Ao mesmo tempo, é indispensável combater discursos racistas, informações falsas e generalizações que atribuem a comunidades inteiras os atos praticados por indivíduos.

Cada palavra tem consequências. Quando repetimos suspeitas sem fundamento ou descrevemos as pessoas apenas como números, ameaças ou encargos, contribuímos para aumentar a distância. Quando procuramos conhecer, escutar e compreender, criamos condições para o encontro.

A esperança cristã não é uma expectativa passiva de que os problemas desapareçam. Manifesta-se na decisão de agir, mesmo quando os resultados não são imediatos. Nasce do reconhecimento de que nenhuma situação de fragilidade deve ter a última palavra e de que Deus continua a abrir caminhos através das escolhas humanas.

Passar da fragilidade à esperança significa, portanto, construir comunidades onde ninguém seja invisível, descartado ou considerado estrangeiro para sempre. Comunidades capazes de receber, mas também de se deixar transformar por aqueles que chegam.

Para reflexão pessoal e comunitária

Conhecemos verdadeiramente as pessoas migrantes que vivem no nosso território ou falamos delas apenas de forma genérica?

Que dificuldades enfrentam no acesso ao trabalho, ao alojamento, à saúde, à educação e à participação comunitária?

Que barreiras, mesmo involuntárias, podem existir nas nossas comunidades?

O que nos ensinam a coragem, a perseverança e a fé da mulher cananeia?

De que forma podemos acolher sem apagar a identidade e a cultura de quem chega?

Qual dos quatro verbos — acolher, proteger, promover e integrar — precisa de maior atenção na nossa comunidade?

Que compromisso concreto podemos assumir e avaliar durante o próximo ano?

Oração

Senhor Jesus Cristo,
que conhecestes a condição do estrangeiro
e acolhestes os que eram afastados,
ensinai-nos a reconhecer em cada pessoa
um irmão e uma irmã.

Dai-nos um coração atento
ao sofrimento de quem deixa a sua terra,
coragem para combater a injustiça
e disponibilidade para acolher, proteger,
promover e integrar.

Acompanhai os migrantes e refugiados,
as famílias separadas pela distância,
as vítimas da violência e da exploração
e todos os que procuram um lugar seguro
onde possam reconstruir a vida.

Fazei das nossas comunidades
lugares de encontro e de fraternidade,
onde ninguém seja invisível
e todos possam passar
da fragilidade à esperança.

Ámen.

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