No dia 24 de setembro, o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais organizou, em Leiria, as habituais Jornadas Nacionais de Comunicação Social da Igreja. A ocasião, naturalmente, é um pretexto para pensar a forma como a Igreja comunica. Desta vez, fiquei a matutar num assunto falado na véspera, no encontro informal feito entre responsáveis dos secretariados e gabinetes diocesanos de comunicação. Falou-se do trabalho de cada um, das dificuldades e de possíveis caminhos. Saí de lá com mais perguntas do que respostas, o que, bem vistas as coisas, não é mau resultado para uma conversa destas.
Uma das ideias que mais se repetiram foi a de que a Igreja precisa de marcar a agenda mediática nacional. Tenho dúvidas, embora perceba a razão da preocupação. A Igreja tem uma voz muito abafada na comunicação social generalista. Quando aparece, costuma ser porque alguém a procurou, porque há uma polémica ou porque tem de responder a qualquer coisa que aconteceu. Esta atitude quase sempre reativa é um problema real, e nisso estou claramente de acordo: temos de tomar a iniciativa ou, como se costuma dizer agora, controlar a narrativa. Quando há alguma coisa para contar, a informação deveria partir da própria Igreja e chegar cedo, com rigor e transparência. Deveria vir acompanhada de fontes e de conteúdos que ajudem a compreender o assunto, em vez de esperarmos que um jornalista telefone a perguntar.
Comunicar primeiro, contudo, não me parece o mesmo que marcar a agenda. A Igreja precisa de estar no espaço público. Mas não anda à procura de notoriedade como uma marca, não disputa influência como um partido e não tem uma quota de minutos no telejornal para cumprir. Duvido que o êxito da sua comunicação se possa medir pelo número de vezes que consegue pôr um tema nos noticiários. E fica ainda por saber de que agenda estamos a falar.
A ditadura do algoritmo
Basta passar uns minutos a percorrer o ecrã do telemóvel para perceber o que circula melhor: a polémica, o conflito, o escândalo, tudo o que nos indigna ou assusta. Isto é um lugar comum e sempre foi assim nos media, mas o digital foi ainda mais longe. Os algoritmos aprenderam depressa o que nos faz parar, clicar e partilhar. Numa economia em que a atenção vale dinheiro, quem a consegue captar leva vantagem. Chamar-lhe ditadura do algoritmo não é exagero; é a realidade actual.
A Igreja não pode fingir que este mundo não existe. Tem de conhecer as plataformas, as linguagens e o modo como hoje a informação se espalha. Passar a comunicar em função do algoritmo já é outra conversa. Aí não sei se a corrida se ganha sem deixar alguma coisa pelo caminho. Convenhamos que a mensagem principal que a Igreja tem para passar, embora radical, não gera polémica nenhuma. Pensemos numa comunidade que cuida discretamente dos seus idosos, num grupo que acompanha famílias em dificuldade, numa catequese, numa visita a um doente ou no trabalho diário de uma instituição social. Tudo isto tem poucas propabilidades de tornar-se viral, e nem por isso vale menos.
Estou convicto de que a comunicação da Igreja tem de resistir à tentação de tomar a visibilidade pela relevância. Isso não serve de desculpa para comunicar mal. Pelo contrário, exige profissionalismo, rapidez, criatividade e bom uso dos meios disponíveis, sem que sejam esses meios a decidir o que merece ser contado. A pergunta que me parece mais útil é outra: como comunicar de forma relevante sem deixar que a agenda dos media passe a ditar a nossa?
A culpa é dos bispos?
Houve outro momento da conversa que me incomodou: a facilidade com que se procurou na hierarquia a explicação para muitas falhas da comunicação da Igreja. O raciocínio compreende-se. Os bispos dirigem as dioceses, são o seu rosto mais visível e têm a última palavra em muitas decisões. Por isso, quando as coisas não correm bem, é natural olhar para cima.
Não digo que o problema nunca esteja aí. Há dioceses onde a hierarquia percebe melhor a comunicação do que noutras. Há projetos que morrem por decisão de quem tem responsabilidade pastoral. E há padres, leigos e estruturas que, muitas vezes sem se darem conta, complicam a vida a quem tem de comunicar. Ainda assim, aquilo que tenho visto não me deixa aceitar a generalização. Conheço gente competente nos gabinetes de comunicação das dioceses portuguesas, com formação, conhecimento da área e consciência do que está a fazer. O que muitos têm em comum é trabalharem quase sozinhos. Há gabinetes de uma ou duas pessoas e secretariados que vivem de voluntários, com a sua profissão e a sua família. As realidades e os meios variam muito de diocese para diocese.
Há depois uma questão que nenhum gabinete resolve por si: sem comunicação interna, a externa não funciona. Podemos ter um bom sítio na internet, estar em todas as redes, fazer bons vídeos e escrever comunicados sem uma vírgula fora do sítio. Se a informação não chega ao gabinete, se cada serviço trabalha fechado sobre si mesmo, se a comunicação só é lembrada quando tudo o resto já está decidido, o problema mantém-se. Só que, nessa altura, já não é um problema do gabinete, mas da organização inteira. Talvez devêssemos falar menos de ferramentas e mais de cultura de comunicação. Numa Igreja, aliás, a questão tem outro peso, porque comunicação e comunhão andam mais próximas do que parece. Quem não comunica bem dentro de casa dificilmente o fará lá fora.
Em vez de perguntarmos quem está a falhar, seria mais proveitoso, embora mais incómodo, perguntar o que cada um pode fazer para que a Igreja comunique melhor. A resposta passa pelos bispos, claro. Mas passa também pelos padres, diáconos, religiosos e leigos, pelas paróquias, movimentos, serviços e instituições, e por quem trabalha nos gabinetes de comunicação.
Quanto à pergunta com que comecei, continuo sem resposta fechada, e não sei se é preciso tê-la. Estou convencido de que a Igreja tem de comunicar melhor e mais cedo. Não estou convencido de que tenha de o fazer à maneira de toda a gente. Tem uma Boa Nova para anunciar num ambiente saturado de ruído. O desafio que vejo é conseguir fazer-se ouvir sem contribuir para esse ruído.