Há uma coisa nas parábolas de Jesus que me deixa particularmente fascinado: o homem tinha uma capacidade extraordinária para contar histórias sem precisar de explicar tudo, esmiuçar cada pormenor ou, como agora se tornou moda, apresentar no final um ‘powerpoint’ com as três ideias fundamentais que ninguém pode esquecer. Jesus contava uma história e, imagine-se o desplante, deixava as pessoas pensar pela própria cabeça!
É que uma parábola não é propriamente uma históriazinha para entreter o auditório enquanto se aguarda pelo milagre seguinte. Muito menos uma espécie de fábula religiosa com uma moral da história devidamente mastigada, pronta a consumir e, se possível, sem grande esforço intelectual.
A genialidade está precisamente no contrário: Jesus não conta histórias para nos explicar o mundo, mas para nos obrigar a olhar para ele de outra maneira. E, sobretudo, para nos descobrirmos dentro da história, mesmo quando preferíamos ficar sossegadinhos do lado de fora.
Veja-se o Bom Samaritano. Começamos por nos indignarmos por o sacerdote e o levita passarem ao lado do desgraçado caído na estrada. Até que, com algum incómodo, percebemos quantas vezes fazemos exactamente a mesma coisa. Ou o filho pródigo, com quem simpatizamos imediatamente, até descobrirmos que, afinal, também temos bastante daquele irmão mais velho, ressabiado porque a misericórdia do pai não respeitou as suas contas de merceeiro.
E é aqui que a coisa se torna particularmente interessante. Vivemos num tempo em que comunicar parece significar eliminar qualquer possibilidade de interpretação. A publicidade diz-nos o que devemos desejar, a propaganda explica-nos o que devemos pensar e até alguma comunicação eclesial, convenhamos, parece sofrer de uma irresistível necessidade de apresentar respostas antes de alguém ter oportunidade de fazer perguntas.
Jesus faz precisamente o contrário. Conta histórias que deixam pontas soltas, perguntas incómodas e finais por resolver. Afinal, o irmão mais velho entrou ou não na festa? Os trabalhadores da vinha perceberam a generosidade do proprietário ou continuaram a resmungar pela injustiça salarial? E nós, que tão prontamente identificamos os defeitos das personagens, onde raio nos encaixamos naquela história?
Não se trata de relativismo, como se cada um pudesse fazer das palavras de Jesus o que muito bem lhe apetecesse. O anúncio do Reino tem uma direcção inequívoca. Mas Jesus parece confiar suficientemente na inteligência e na liberdade de quem o escuta para não lhe entregar todas as conclusões embrulhadas e com um lacinho.
Aqui reside uma das mais extraordinárias lições de comunicação que os Evangelhos nos oferecem: comunicar não é despejar conteúdos sobre alguém, por mais verdadeiros que sejam, mas provocar um encontro capaz de transformar a maneira como essa pessoa vê a realidade. Uma boa explicação pode esclarecer uma dúvida; uma boa história pode deixar-nos a pensar durante anos.
E, dois mil anos depois, continuamos a discutir aquelas histórias aparentemente tão simples. A parábola não acaba quando Jesus se cala. É precisamente aí que começa.