Uma casa começa muito antes das paredes. Começa no direito de pertencer, de guardar a intimidade, de criar filhos sem o medo permanente de perder o chão. Quando uma família não encontra onde morar, alguma coisa se desmorona também na sociedade. A crise da habitação mede a distância entre a riqueza que produzimos e a humanidade que somos capazes de construir.
A fé tem morada
«Cada freguesia cuide dos seus pobres», defendia o Venerável Padre Américo. Em 1951, ao lançar o Património dos Pobres, o fundador da Obra da Rua deu corpo a essa exigência. Diante dos tugúrios, mobilizou vontades para erguer casas. Conhecia a pobreza pelo nome e pela porta. O seu apelo continua à espera de resposta: que comunidade cristã podemos ser se desconhecemos quem vive sem condições à nossa volta?
Frederico Ozanam enfrentara uma pergunta semelhante na França do século XIX, dilacerada por conflitos políticos e miséria operária. Em Paris, no ano de 1833, fundou com os seus companheiros a Sociedade de São Vicente de Paulo. Entre mundos separados pela desigualdade, procurou abrir caminhos de encontro. A revolta expõe a fratura; a violência aprofunda-a. Aos cristãos cabe enfrentar as injustiças que a alimentam, aproximando pessoas e reconstruindo a confiança. A visita vicentina recorda que ninguém deve ser reduzido à condição de beneficiário: antes do processo está a pessoa.
Uma herança que obriga
Em 1498, a rainha D. Leonor instituiu a Misericórdia de Lisboa. Os «homens bons» destas irmandades organizaram, segundo as regras do seu tempo, o cuidado dos mais frágeis. Hoje, a União das Misericórdias Portuguesas indica 388 Misericórdias ativas no país. A presença portuguesa levou este modelo ao Brasil, Macau, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe; a emigração fez nascer as Santas Casas de Paris e do Luxemburgo.
Esta herança obriga-nos a mais do que celebrar fundadores. Vicentinos, Misericórdias, IPSS, centros sociais e paroquiais e paróquias são chamados a reconhecer as novas pobrezas, prevenir a perda de casa e cooperar com as autarquias e o Estado. Onde houver património recuperável, importa estudar a sua afetação à habitação acessível, com transparência e sustentabilidade. Uma herança de caridade deve continuar a abrir portas.
Nenhum ídolo dará casa à dignidade
O Catecismo da Igreja Católica (n.º 2211) inclui a habitação entre as condições que a comunidade política deve garantir à família. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja (n.º 166) reconhece a morada como um direito humano ligado ao bem comum. E o Papa Francisco escreveu na Laudato si (n.º 152): «A propriedade da casa tem muita importância para a dignidade das pessoas e o desenvolvimento das famílias».
Há aqui uma tarefa para os cristãos: reconstruir as bases de uma sociedade mais humana, onde a dignidade prevaleça sobre o lucro e a solidariedade tenha rosto. O deus-dinheiro transforma a casa em rendimento e esquece quem precisa de a habitar. O deus-Estado promete resolver tudo e pode dispensar-nos, comodamente, da responsabilidade pelo próximo. Ambos se tornam ídolos quando ocupam o lugar da pessoa.
Precisamos de políticas públicas justas, de iniciativa responsável e de comunidades que não desertem. A fé exige mãos, inteligência e coragem para unir o que se fraturou. Nenhuma família pode ficar à porta da nossa consciência. Uma sociedade reconstrói-se quando voltamos a reconhecer no outro alguém por quem somos responsáveis.