Não sou a favor da censura nem da cultura do cancelamento. Defendo, por isso, a preservação do mosaico da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, associado ao ex-jesuíta Marko Rupnik, acusado de abusos sexuais, psicológicos e espirituais. A gravidade das denúncias exige justiça. O talento artístico não pode servir de proteção ao seu autor.
Esta discussão toca também a minha memória. Nos tempos em que trabalhava no Santuário, assisti à construção da basílica, projetada pelo arquiteto grego Alexandros Tombazis, e li as memórias descritivas das peças de arte. Essa proximidade ajuda-me a compreender o conjunto, sem me dispensar de olhar criticamente para o que hoje sabemos.
O mosaico, de inspiração bizantina, tem uma grande densidade simbólica. Representa a Jerusalém Celeste, com o Cordeiro, imagem de Cristo, rodeado de anjos e santos. Maria e João Batista intercedem; os pastorinhos participam nessa comunhão. O ouro evoca a santidade e a fidelidade de Deus. O rio da vida e a árvore cujas folhas curam as nações anunciam uma humanidade reconciliada. A familiaridade com o Céu, tão presente na mensagem de Fátima, ganha ali expressão visível.
Vejo nessa linguagem do Oriente cristão uma ponte espiritual para a tradição russa. A Rússia ocupa um lugar explícito na mensagem de Fátima, através do pedido da sua consagração ao Imaculado Coração de Maria e da promessa de conversão e paz. Esta leitura não transforma o mosaico numa representação da Rússia: permite reconhecer uma afinidade espiritual e um horizonte de reconciliação entre povos e cristãos.
Lourdes optou por cobrir os mosaicos de Rupnik, invocando o cuidado com as vítimas. Fátima mantém o seu painel, tendo suspendido a utilização da respetiva imagem nos materiais de divulgação. São respostas diferentes a uma questão que merece ponderação.
Uma obra ganha uma existência que ultrapassa a biografia de quem a concebeu. Integra a memória de uma comunidade e pode ajudar alguém a rezar. Essa experiência não perde automaticamente o seu valor quando sobre o artista recaem acusações graves. Preservar a obra não equivale a homenagear o autor.
O painel de Fátima resulta também do trabalho de uma equipa do Centro Aletti. Reduzir tudo a um nome esquece esse contributo coletivo. A autoria deve ser conhecida e contextualizada, sem transformar o reconhecimento artístico num certificado de virtude.
Mas uma basílica é um lugar de oração e acolhimento. Para quem sofreu abusos, aquelas imagens podem reabrir feridas. Há denúncias que relacionam os abusos com o próprio processo de criação artística. Seria insensível responder apenas com a fórmula da separação entre o artista e a obra.
Por isso, não chamo censura a toda a decisão de cobrir uma imagem. Reconheço que pode nascer de uma preocupação pastoral séria. Discordar dessa solução obriga-me a escutar as razões de quem a defende. As vítimas devem participar na decisão e poder dizer o que significa entrar naquele espaço.
A minha reserva perante o cancelamento está na ideia de que eliminar uma obra resolve a relação com o passado. Uma parede tapada pode criar a sensação de assunto encerrado, enquanto continuam por esclarecer responsabilidades. A justiça exige investigação, consequências e reparação.
Defendo que o mosaico permaneça, acompanhado de informação clara sobre o caso, de escuta das vítimas e de compromissos verificáveis de apoio e prevenção. Conservar implica assumir essa responsabilidade.
Alguns advogam que Igreja perde credibilidade quando parece cuidar melhor do património do que das pessoas feridas. Em Fátima, preservar o mosaico deve significar também ter a coragem de contar toda a verdade. E a coragem existe. A fé que ali se celebra determina que nenhuma pessoa seja esquecida…pois, a Mensagem de Fátima desafia os crentes a rezarem pela conversão dos pecadores e a fazer atos de reparação.