Évora, uma manhã de agosto. À porta da Capela dos Ossos há fila para a fotografia. Quase ninguém repara na frase gravada à entrada, que lembra ao visitante que os ossos ali guardados esperam pelos seus. Não é uma curiosidade macabra. É uma meditação sobre a vida e a morte, deixada por frades há quatro séculos. Mas não cabe em quinze segundos de vídeo.
A 27 de setembro, a ONU Turismo propõe-nos pensar a «Agenda Digital e Inteligência Artificial para redesenhar o turismo». Em Portugal esse redesenho já começou, e nem sempre para melhor. O mesmo algoritmo que empurra milhares de pessoas para a mesma rua de Alfama, para o mesmo miradouro do Porto ou para a mesma hora na Cova da Iria deixa na sombra a capela de uma aldeia da Beira. A chave dessa capela está em casa de uma vizinha de oitenta anos que não tem smartphone. O que não aparece no ecrã deixa de existir. O Dicastério para a Evangelização avisa que a experiência turística «corre o risco de se reduzir ao que o algoritmo prevê como agradável, impedindo a descoberta da maravilha do encontro pessoal».
Cada pesquisa e cada passo registado por uma aplicação dizem muito sobre quem viaja. A Santa Sé pede regras claras e vinculativas para que esses dados não se tornem instrumento de controlo. Lembra também que uma digitalização injusta agrava as desigualdades: quem vive num território sem rede fica duas vezes de fora.
A resposta não é desligar. É aprender. Chamamos-lhe educomunicação e literacia turística: saber ler o que se publica e saber contar o que se tem. Uma Sé transformada em pano de fundo para o pôr do sol, um santuário vendido como «atração imperdível», um roteiro escrito por uma máquina que troca séculos e santos. Nada disto é mentira grosseira, mas tudo isto esvazia. Fica a pedra e perde-se a comunidade que ali reza, casa os filhos e chora os mortos.
A tecnologia pode ajudar, e muito. Pode descrever em áudio um retábulo a quem não vê, distribuir os visitantes ao longo do dia e dar voz a uma romaria esquecida. A mensagem vaticana reconhece que a inteligência artificial «pode tornar-se uma aliada preciosa do turismo sustentável e acessível, desde que permaneça um instrumento ao serviço da pessoa». A condição é essa, e cumpre-se com formação, não com mais aplicações.
Por isso deixamos alguns pedidos concretos. Aos párocos e reitores de santuários: não entreguem a outros a história dos vossos lugares. Às câmaras municipais e às entidades regionais de turismo: quando publicarem uma igreja, digam para que serve. Às escolas de hotelaria e turismo: formem intérpretes, não apenas promotores. Aos criadores de conteúdos: antes de filmar, perguntem. E a cada visitante: baixe o telemóvel durante um minuto. Há coisas que só se veem assim.
Pe Miguel Lopes Neto
Diretor da Pastoral do Turismo – Portugal