O mundo e Deus chamam a uma presença transformadora, 80 anos depois da PME
Vivemos num mundo marcado por mudanças profundas. As certezas de ontem parecem menos evidentes, as relações humanas tornam-se mais complexas e, ao mesmo tempo que a tecnologia aproxima pessoas e povos, crescem também a solidão, a indiferença e novas formas de exclusão. Há feridas que pedem cuidado, injustiças que reclamam compromisso e perguntas que não encontram respostas fáceis. É neste mundo concreto, e não num mundo ideal, que Deus continua a chamar.
A vocação à secularidade consagrada nasce precisamente deste encontro entre Deus e o mundo. Não se trata de fugir da realidade para encontrar Deus, mas de descobrir que Deus está presente no coração da própria realidade humana e que aí nos chama a uma presença nova: discreta, próxima, comprometida e transformadora. O consagrado secular vive no meio das pessoas. Trabalha, estuda, participa na vida social, profissional e cultural. Partilha as alegrias e as preocupações de tantos homens e mulheres do seu tempo. Não se distingue necessariamente por sinais exteriores. A sua consagração acontece muitas vezes no silêncio do quotidiano, através dos compromissos assumidos e da fidelidade a uma vocação que procura transformar a vida a partir de dentro. Estar no mundo é, assim, muito mais do que ocupar um lugar no mundo. É habitá-lo com responsabilidade. A secularidade consagrada recorda-nos que a fé não pode ficar confinada aos espaços religiosos. Deus não chama apenas para dentro das igrejas; chama também para as escolas, hospitais, empresas, universidades, associações, famílias, instituições, espaços de cultura e de decisão. Chama para onde a vida acontece. Por isso, a pergunta fundamental talvez não seja apenas: «Onde está Deus?» Mas também: «Onde me pede Deus que eu esteja?»
Esta presença não pretende impor respostas nem conquistar territórios. É uma presença que procura escutar antes de falar, compreender antes de julgar e servir antes de exigir reconhecimento. Uma presença capaz de levar esperança sem negar as dificuldades, capaz de anunciar o Evangelho sobretudo através da coerência da própria vida. Num tempo em que tantas pessoas experimentam a solidão e a fragmentação, ser presença pode ser já uma forma de transformação. Estar verdadeiramente com alguém é um gesto profundamente humano e profundamente evangélico.
A secularidade consagrada desafia também a superar uma visão dualista da realidade: de um lado, o mundo; do outro, Deus. Como se fosse necessário escolher entre uma coisa e outra. A experiência cristã diz-nos precisamente o contrário: Deus entrou na história humana, assumiu a nossa condição e fez do quotidiano um lugar possível de encontro com Ele. É no concreto que a vocação se verifica. Na maneira como se exerce uma profissão. Na honestidade com que se tomam decisões. Na forma como se tratam os colegas. Na defesa dos mais frágeis. Na atenção a quem fica para trás. Na responsabilidade perante a sociedade e a criação. Na capacidade de perdoar. Na coragem de denunciar o que é injusto. Na disponibilidade para construir pontes num tempo tão marcado por divisões. Tudo isto pode parecer pequeno. E, no entanto, é precisamente através do pequeno que grandes transformações começam.
A secularidade consagrada não oferece receitas mágicas para os problemas do mundo. Oferece, antes, uma maneira de estar: uma presença que procura unir contemplação e ação, fé e vida, silêncio e compromisso, interioridade e responsabilidade social.
Contemplar Deus não significa fechar os olhos ao mundo. Pelo contrário. Quem contempla verdadeiramente aprende a olhar de outra maneira. Vê a dignidade onde outros veem apenas fragilidade. Descobre possibilidades onde outros encontram apenas problemas. Reconhece no outro não um obstáculo, mas uma pessoa. E percebe que transformar o mundo começa também pela transformação do próprio olhar.
É por isso que o mundo e Deus podem ser entendidos como dois apelos que se encontram.
O mundo chama porque tem necessidades, feridas, sonhos e esperanças. Deus chama porque continua a confiar aos homens e mulheres a missão de serem sinais da sua presença. Entre estes dois chamamentos nasce uma vocação: estar presente para transformar e deixar-se transformar pela própria realidade onde se está presente. Num contexto cultural em que a linguagem religiosa nem sempre é compreendida, talvez esta forma de consagração tenha uma particular atualidade. O testemunho não precisa de começar por discursos. Pode começar por uma vida habitada por sentido. Uma vida que, sem se impor, desperta perguntas. Que mostra ser possível viver com profundidade, liberdade, solidariedade e esperança.
A secularidade consagrada é, neste sentido, uma vocação de fronteira. Está entre a Igreja e o mundo, não como quem vive dividido, mas como quem procura ser ponte. Está dentro da sociedade para lhe conhecer as linguagens, as inquietações e os desafios. E está profundamente enraizada em Deus para poder oferecer uma esperança que não depende das circunstâncias. Talvez hoje precisemos menos de presenças que façam muito ruído e mais de presenças que façam diferença. Pessoas capazes de permanecer quando seria mais fácil partir. De servir quando ninguém aplaude. De acreditar quando tudo parece perdido. De cuidar quando cuidar dá trabalho. De construir quando destruir parece mais rápido. De testemunhar que a fé pode ser uma força de humanidade e não um motivo de divisão.
É esta a beleza e a exigência da secularidade consagrada: ser de Deus vivendo plenamente no mundo. Não fugir do mundo. Não viver indiferente às suas dores. Não tentar dominá-lo. Mas amá-lo o suficiente para o servir e transformá-lo. Porque, no fundo, a pergunta de Deus continua a encontrar-se com a pergunta do mundo: quem estará disponível para estar aqui?
E talvez a resposta comece simplesmente assim:
«Estou aqui. Quero estar. Quero deixar que Deus transforme a minha vida para que, através dela, alguma coisa do mundo também possa ser transformada.»