Semanas de Canto Gregoriano: 74 anos a ensinar oração litúrgica cantada

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[Nota da redação: reportagem realizada a partir de entrevista feita por Nuno Silva]

As Semanas de Canto Gregoriano continuam a cumprir o seu propósito original: formar pessoas capazes de levar às comunidades a riqueza da tradição musical da Igreja que é, antes de tudo, oração litúrgica cantada.

Em entrevista, Idalete Giga, diretora do Centro Ward de Lisboa, obra iniciada por Júlia d’Almendra, mulher que marcou profundamente o estudo e a divulgação do canto gregoriano em Portugal, explica a longevidade da iniciativa pela persistência de sucessivas gerações e pela convicção de que esta música é do presente. «A sociedade de hoje precisa do canto gregoriano», afirma.

Foto: meloteca.com

Há uma palavra que Idalete Giga repete quando procura explicar como uma iniciativa dedicada ao canto gregoriano consegue atravessar mais de sete décadas: persistência. Mas depressa acrescenta outras: trabalho, energia, colaboradores e, sobretudo, amor pela música.

«É preciso persistência, é preciso muito trabalho, é preciso amar a música. Estas semanas custam muito a organizar, mas o seu legado vai para além do canto gregoriano e da música litúrgica.»

A 74.ª Semana de Canto Gregoriano trouxe este ano professores e alunos até à Casa de Retiros do Seminário Diocesano de Leiria. É um regresso a uma cidade que já acolheu a iniciativa no início deste século e que agora se tornou novamente ponto de encontro para quem quer conhecer, estudar e praticar aquela que é uma das mais antigas tradições musicais do Ocidente.

Uma história que começou em Fátima

É preciso recuar a 1950 para encontrar o início desta história. Foi em Fátima que Júlia d’Almendra realizou a primeira Semana de Canto Gregoriano, embora já anteriormente tivesse desenvolvido iniciativas de divulgação em diferentes dioceses portuguesas.

Musicóloga, artista e mulher de fé, como a descreve Idalete Giga, Júlia d’Almendra procurava colocar em prática o movimento de renovação da música litúrgica que vinha ganhando força na Igreja.

Pelo caminho, a própria estrutura criada por Júlia d’Almendra foi crescendo. Em 1951 nasceu a Liga dos Amigos do Canto Gregoriano e, em 1953, o Centro de Estudos Gregorianos, que mais tarde daria origem ao Instituto Gregoriano de Lisboa.

As Semanas de Canto Gregoriano, por seu lado, mantiveram-se ininterruptamente em Fátima até 1994. Depois as circunstâncias mudaram, e tornou-se necessário procurar novos lugares e novas condições para assegurar a continuidade da iniciativa.

Foi então que se começou uma itinerância de canto gregoriano pelo país. Leiria recebeu a semana entre 2001 e 2003, mas a iniciativa passou também pelas dioceses de Coimbra, Lamego e Viseu. Nesta última cidade acabaria por encontrar uma casa durante cerca de 14 anos, beneficiando de uma forte colaboração da diocese e de outras instituições locais.

Em 2026, foi necessário procurar novamente outro lugar. «Acabámos por encontrar, em boa hora, novamente Leiria.»

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Aprender para regressar às comunidades

Uma Semana de Canto Gregoriano não pretende formar especialistas fechados numa tradição musical reservada a poucos. Pelo contrário, a sua estrutura foi sendo pensada para que a interpretação aprendida da música litúrgica possa regressar às comunidades cristãs.

Idalete Giga recorda que o modelo formativo foi organizado de forma a permitir aos participantes fazerem sucessivamente diferentes níveis de canto gregoriano e avançarem depois para a direção gregoriana.

A finalidade, porém, não termina com a aquisição de conhecimentos. «Não é para que ficassem com conhecimentos para si. É para as suas paróquias, para aí poderem realmente aplicar aquilo que aprendem nas semanas gregorianas.»

É nesta relação entre formação e serviço que a responsável encontra uma das razões para a continuidade da iniciativa. Estuda-se uma tradição para que ela possa continuar viva na liturgia e para que possa dar forma à música litúrgica em Portugal.

Essa preocupação torna-se particularmente evidente quando se fala dos coros litúrgicos. Para Idalete Giga, a qualidade do trabalho de um coro depende inevitavelmente da preparação de quem o dirige. E, quando se pretende introduzir o canto gregoriano, essa formação torna-se ainda mais necessária.

«Os coros litúrgicos têm que ter um mestre de coro à frente. Se o mestre de coro não tiver conhecimentos de canto gregoriano, como é que ele pode interpretar e ensinar música litúrgica?»

Isso não significa começar pelas peças complexas. A aprendizagem, defende, deve ser gradual, recorrendo inicialmente a melodias simples e acessíveis às assembleias e aos coros paroquiais. Só depois poderá avançar-se para repertórios que exijam maior preparação.

É precisamente aqui que a Semana de Canto Gregoriano procura encontrar o seu lugar: oferecer formação a quem quer adquirir fundamentos sólidos e a quem deseja aprofundar conhecimentos para depois os colocar ao serviço das comunidades.

«O canto gregoriano é oração litúrgica cantada»

É a partir dessa afirmação que a diretora do Centro Ward de Lisboa constrói toda a sua leitura sobre a pertinência do canto gregoriano, que não é apenas repertório musical mas também texto que nasceu para servir a própria liturgia, e portanto todo para enformar o canto da Igreja.

Por isso, a responsável acolhe com satisfação o movimento que procura o reconhecimento do canto gregoriano como património cultural imaterial da humanidade, mas lembra que «o gregoriano já é universal por natureza, e também intemporal», antes qualquer reconhecimento institucional.

Na sua perspetiva, há neste contexto duas dimensões diferentes. Uma é cultural. Outra é espiritual.

Culturalmente, o canto gregoriano ocupa um lugar fundamental na história da música ocidental e tornou-se uma das matrizes a partir das quais se desenvolveram outras formas musicais. É por essa razão que Idalete Giga defende que o seu conhecimento deveria fazer parte da formação dos músicos.

Mas é na dimensão espiritual que encontra a razão mais profunda da sua permanência. «É um canto despojado», observa. E é precisamente nesse despojamento que reconhece uma capacidade particular de falar ao presente.

«A sociedade de hoje precisa do canto gregoriano.»

A afirmação ganha significado quando Idalete Giga a relaciona com aquilo que considera ser uma crise espiritual contemporânea. Perante uma sociedade marcada pelo ruído, pela velocidade e pela acumulação de estímulos, a simplicidade e a interioridade desta música podem abrir outro espaço de escuta.

Não se trata, contudo, de idealizar o passado. A responsável reconhece que o canto gregoriano nem sempre foi bem executado e que uma má experiência pode até afastar quem o escuta. «Ainda hoje há muita gente que não gosta de canto gregoriano porque ele era mal cantado.»

Daí a insistência na formação, no estudo e numa interpretação cuidada. A beleza, sustenta, não acontece automaticamente. Também precisa de aprendizagem.

Para Idalete Giga, é importante não tratar o gregoriano como uma peça de museu, mas sim como tradição viva, porque estudada, praticada e transmitida.

É também por isso que as Semanas de Canto Gregoriano procuram proporcionar essa experiência: conhecer os fundamentos, cantar, escutar, aperfeiçoar a interpretação e preparar pessoas que possam levar depois esse conhecimento para outros lugares.

É uma lógica de transmissão que atravessa toda a história da iniciativa. Júlia d’Almendra recebeu e estudou uma tradição, ensinou-a a outros e formou discípulos. Idalete Giga pertence a essa geração que recebeu diretamente o seu legado. Agora, outras gerações continuam o mesmo percurso.

A caminho de uma edição histórica

O próximo ano acrescentará um número simbólico a esta história. Em 2027 realiza-se a 75.ª Semana de Canto Gregoriano.

A organização já começou a pensar numa edição especial, havendo convidados e iniciativas em estudo.

Quanto ao lugar, Leiria está entre as possibilidades. «Gostaríamos que fosse aqui, se nos aceitarem e se houver condições realmente para isso», adianta.

Mais do que celebrar um número redondo, a organização pretende que a 75.ª edição reafirme a missão que permitiu às Semanas de Canto Gregoriano atravessar gerações.

Idalete Giga encontra uma expressão particularmente forte para definir aqueles que, ao longo dos anos, têm assumido essa tarefa: «apóstolos e apóstolas do canto gregoriano».

E explica porquê. «Não vimos para aqui para aprender e depois ficar imóveis. Não. Esta beleza tem que ser transmitida.»

Em Leiria, quase três quartos de século depois do início desta história, continua a aprender-se música antiga, não para regressar ao passado, mas para com ele viver-se o presente e enquadrar-se o futuro.

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