[Por ocasião da Semana Nacional das Migrações, de 9 a 16 de agosto de 2026]
Finalmente alguém encontrou a solução para os problemas de Portugal.
Durante décadas, economistas, demógrafos, sociólogos, governantes e investigadores perderam tempo a estudar a natalidade, o envelhecimento da população, a sustentabilidade da Segurança Social e a falta de mão de obra. Afinal, a resposta era muito mais simples: pô-los todos num barco e mandá-los para a terra deles.
As vantagens são tantas que é difícil saber por onde começar.
Talvez pela demografia. Portugal tem cerca de 190 idosos por cada 100 jovens. Um número impressionante, mas claramente insuficiente para um país que ambiciona liderar o campeonato mundial do envelhecimento. Ao expulsarmos uma parte significativa da população imigrante, maioritariamente em idade ativa, poderemos finalmente dedicar-nos a sério a esse objetivo. Com um pouco de esforço, talvez consigamos atingir três idosos por cada jovem antes de meados do século.
Outra vantagem extraordinária é a possibilidade de fechar escolas por falta de alunos. Durante anos, algumas famílias imigrantes tiveram a lamentável tendência de ter filhos e de os inscrever em estabelecimentos de ensino. Em várias localidades, contribuíram mesmo para evitar o encerramento de turmas. Felizmente, isso pode ser corrigido.
Também a Segurança Social tem vivido anos de excessiva estabilidade. Só em 2024, os trabalhadores estrangeiros contribuíram com cerca de 3,6 mil milhões de euros para o sistema. Uma situação claramente preocupante. Ao eliminar essa receita, poderemos devolver ao debate sobre as pensões a emoção e a incerteza que ele merece.
Os hospitais e lares também têm muito a ganhar. Muitos dos seus profissionais são estrangeiros. Se forem embora, os portugueses poderão voltar a desfrutar da experiência autêntica de esperar ainda mais tempo por consultas, cirurgias e cuidados continuados. Há tradições que não se devem perder.
Na agricultura, os benefícios são igualmente evidentes. Durante demasiado tempo, certas culturas insistiram em ser colhidas. Sem trabalhadores suficientes, os agricultores poderão finalmente apreciar os frutos da terra a apodrecer em paz, sem a constante perturbação provocada pelas colheitas.
A construção civil também merece uma palavra. Há obras por todo o país e faltam trabalhadores há anos. Retirar milhares deles permitirá que muitas construções regressem ao seu estado natural: o de promessa.
No turismo, setor responsável por uma parte importante da riqueza nacional, os ganhos poderão ser históricos. Hotéis com quartos por limpar, restaurantes sem pessoal e estabelecimentos a reduzir horários devolverão aos visitantes uma experiência verdadeiramente memorável. Alguns até poderão levar histórias para contar aos netos.
Mas talvez o maior benefício seja o combate ao incómodo crescimento da população. Nos últimos anos, o saldo migratório tem sido o principal responsável pelo aumento do número de residentes em Portugal. Sem imigração, o país perderia população mais rapidamente. E isso é uma excelente notícia para quem sempre sonhou com praias menos concorridas, aldeias mais vazias e cidades com menos gente para pagar impostos.
Existe ainda uma vantagem cultural frequentemente esquecida. Portugal foi construído por romanos, suevos, visigodos, judeus, árabes, africanos, brasileiros, europeus e tantos outros povos. Já estava mais do que na hora de interromper essa tradição perigosa de oito séculos de mistura e contacto entre culturas.
Mas a melhor vantagem de todas é intelectual.
Ao expulsar os imigrantes, deixaremos de ter de discutir problemas complexos como habitação, salários, produtividade, fiscalização laboral, integração ou planeamento demográfico. Tudo ficará resolvido por magia. E se algum problema persistir, poderemos sempre culpar os imigrantes que já não cá estão.
Infelizmente, existe um pequeno obstáculo a este plano brilhante.
Os números.
Os números insistem em lembrar que Portugal tem uma das populações mais envelhecidas da Europa. Que a taxa de fecundidade ronda apenas 1,4 filhos por mulher. Que a população em idade ativa deverá diminuir drasticamente nas próximas décadas. Que mais de um milhão de trabalhadores estrangeiros contribuem para a economia. Que milhares de empresas dependem deles. E que a Segurança Social recebe milhares de milhões de euros provenientes do seu trabalho.
É um defeito irritante dos números: não têm sentimentos, não participam em campanhas eleitorais e raramente se impressionam com frases inflamadas nas redes sociais.
Por isso, antes de pôr toda a gente num barco, talvez seja prudente verificar quem fica no cais. Corremos o risco de descobrir que, depois de os vermos partir, uma parte considerável do futuro do país vai com eles.