Vida de uns, vida para outros ou vida destes, morte para aqueles?

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Arrastam-se pelo planeta cerca de duas dezenas de guerras e conflitos de morte. Algumas mais noticiadas, outras, quase silenciadas. Todas cruéis. Chocam as mortes diárias nalgumas e a indiferença e insensibilidade que escondem as outras. Será que isto é progresso civilizacional? Acerca delas usam-se palavras ambíguas e perigosas. Cheias de promessas e armadilhadas por sentidos e ideologias opostas. Os termos esperança, transcendência, liberdade, progresso, podem deflagrar em estilhaços contra vidas humanas. Evocar os 50 anos do “25 de abril” presta-se a jogar com alguns sentidos opostos de partidos e vivências, como se em 50 anos tenham murchado alguns cravos e promessas. Torna-se um quebra-cabeças querer harmonizar palavras e realidades com Cristo, morto e ressuscitado; com o Jubileu dos 2 mil e vinte e cinco anos da Redenção de Cristo. É abissal a diferença entre a esperança cristã e a esperança mundana anticristã! Experimente o leitor pensar e perguntar-se: esperança, em relação a quê? Transcendência, em que sentido? Liberdade, para quê? Palavra tão armadilhada!

Além das guerras na Ucrânia, Gaza, Haiti, Sudão, Kivu, Birmânia, Líbano, Arménia, Moçambique, Congo, Eritreia, pululam conflitos difusos entre povos, em que o ódio, a ignorância e o egoísmo complicam tudo. É doloroso que esses conflitos acesos tragam fome, sofrimento, violência e morte; em culturas de individualismo, prazer egoísta, oposição, retaliação vingativa impedindo a cooperação fraterna para o bem comum. Domina a inimizade e o jogo do antes que nos prejudiquem ou matem, vamos nós prejudicar-vos e matar-vos. As guerras apontam para esse desfecho: a vida de uns, morte dos outros em jogo de antecipação: antes que nos matem, vamos matar-vos. Conhecer os preparativos do outro precipita a tragédia. Será um exagero falar assim? Parece que em artigo recente, Yuval Harari, em relação a Gaza e Israel, conclui que, de facto, há exagero porque de um lado e do outro, felizmente, há um número, que pode aumentar, que não alinha no «mato para não me matares», mas sim no «ajudo-vos por que nos ajudas». Infelizmente, porém, e apesar das teorias dos jogos de John von Newman, John Nash e outros, a regressão civilizacional de violência e das «guerras aos pedaços» parece aumentar nas famílias, escolas, juventude, negócios, partidos, relações internacionais e, com frequência, infiltra-se nas religiosidades extremistas. Pessimismo de anti esperança ou realidade? Como falar de progresso quando depois das civilizações de «olho por olho, dente por dente», vieram as propostas de Nietzsche e Darwin para limpar da sociedade do progresso os débeis, crianças e doentes e, hoje, alguns defendem práticas semelhantes no Ocidente?

Cristo, com a seu exemplo e palavras, propõe jogo humano de relações totalmente diferentes. Pede uma vida de fazer o bem e amar a todos, os vivos; pede que gostemos que a vossa vida seja fazer bem a uns e a outros. E propõe que fiquemos mais contentes quando sabemos que a vida dos outros e a nossa se desenvolve no bem comum. E que gostemos de saber que, para uns e outros, o bem comum é aquele que abrange a paz com harmonia, colaboração e respeito da dignidade da pessoa; «dignidade infinita» de seres criados á imagem e semelhança de Deus criador, e não porque uns têm mais talentos, forças e saúde. Os opositores dos conflitos partidários e das guerras só aceitam este jogo da vida humana quando cooperam em fazer o bem que favoreça vida melhor a si mesmos e aos outros para que todos tenham vida melhor e não morte. Só assim a comunidade social progredirá na vida temporal melhor para todos em peregrinação para a vida feliz transcendente, eterna. Desde há 2 mil e 25 anos da redenção, somos convidados a ser «peregrinos da esperança», na realização de medidas de ajuda e amor e não de retaliação, ódio e vingança contra os inimigos.

Cristo aceitou, como vontade do Pai, a sua morte, por amor, mas provocada pela maldade dos que o odiavam e matavam por ignorância. Por isso, orou: «Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem» e antecipou-se a entregar a sua vida ao Pai: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito». A sua morte tornou-se oferta de vida e ressurreição para os que aceitam o seu perdão e amor. Aceitou morrer para todos viverem, não apenas a vida temporal, mas a vida eterna. Imitam Cristo aqueles que aceitam perdoar e morrer por Cristo, às mãos de inimigos, e lhes perdoam quando os vão matar, como fez M. Gandhi. Proceder, assim, é sobre-humano e não se esperaria haver alguém que o fizesse, e, contudo, são às centenas e milhares os que o fazem cada ano. A isto se pode chamar viver uma vida em Cristo, morto e ressuscitado, que deu a vida pelas suas ovelhas. Cristo enfrentou a “guerra” contra si com três decisões surpreendentes de sentido pleno, ordenando a Pedro: «mete a espada na bainha…», pedindo ao Pai: «Pai, perdoai-lhes…» aos “ignorantes” que o matavam; e antecipa-se na oferta da vida antes que o matem: «Pai, nas tuas mãos [sou eu que] entrego o meu espírito.

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