Tributo de gratidão a Emília Lourenço

As suas exéquias realizaram-se no domingo, às 15h00, na Capela Mortuária de Leiria, Festa da Transfiguração do Senhor.
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Emília Almeida Lourenço nasceu a 11 de Março de 1933, filha de Joaquim Fernandes Lourenço, ourives e relojoeiro, e de Licínia Santos Almeida. Natural de Figueira de Castelo Rodrigo, Distrito da Guarda, tinha ligações familiares, do lado materno, às Alhadas – Figueira da Foz.

Nascida numa família cristã e sendo educada cristãmente, cedo participou nas iniciativas da Igreja, nomeadamente nos Organismos da Acção Católica, tendo sido, inclusivamente, presidente a nível nacional dos Educadoras Católicas, quando era Assistente Nacional o Sr bispo Dom Serafim Silva.

Formada em Magistério primário, mais tarde Licenciou-se em História pela Universidade de Coimbra e diplomada em Língua Francesa pela Aliance Francaise. Dedicou a sua vida ao ensino em variados estabelecimentos, em Setúbal, onde foi Directora da Escola do Magistério Primário e Peniche, em primeiro lugar, onde deixou muitos amigos e saudades. Mais tarde, quando veio para Leiria nos anos sessenta e até à sua aposentação, leccionou a nível civil no Liceu Rodrigues Lobo de Leiria, na Escola Secundária de Vieira de Leiria e, por fim, esteve na Direcção Escolar.

A vivência da fé, de forma comprometida, levou-a a acolher a vocação laical de Auxiliar do Apostolado. “No final da 1ª. Guerra Mundial, algumas jovens universitárias de Louvaina, na Bélgica, face à descristianização que se verificava, falam com o Cardeal Mercier para lhe apresentarem esta grande e nova preocupação. Convencido de que seria necessária uma eficiente resposta, “decide dar a estas jovens participação na sua própria missão pastoral, para que, na sua dependência imediata, permanecendo no mundo, sejam instrumentos de comunicação do Amor de Deus, em todas as realidades e situações onde quer que vivam e trabalhem. Esta é a razão de ser da Vocação de Auxiliar do Apostolado, que se concretiza no chamamento pessoal do Bispo da Diocese que a faz participar como leiga, na construção do Reino de Deus… Pondo de parte toda a solicitude de si mesma, vive em virgindade livremente assumida e usa os seus bens ao serviço do Bem Comum, retirando para si o indispensável para viver.”

Chamada pela primeira vez pelo cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa, quando trabalhava em Setúbal, esteve dois anos no Centro em Lourdes – França, em formação, fazendo o percurso vocacional até ao chamamento para sempre. Foi pedida pelo Sr Dom João Venâncio, bispo de Leiria, em 1968, tendo colaborado de perto com o Sr Cónego José Galamba de Oliveira na direcção da Escola de Formação Social Rural (actual Escola Monsenhor José Galamba de Oliveira).

Pessoa de oração profunda, com frequência a encontrávamos recolhida em oração diante do sacrário, maneira de ser que talvez lhe viesse da relação muito próxima que mantinha com as Irmãs do Carmelo de Faro, partilhando da sua espiritualidade teresiana e amizade. Mas, ao mesmo tempo, era uma mulher de acção, envolvendo-se em campanhas de ajuda a pessoas necessitadas, nomeadamente de África, continente por onde passou. Benfeitora de inúmeras pessoas e instituições, como a Obra do Gaiato, soube colocar os seus dotes de educadora exigente e os seus bens ao serviço das pessoas. Colaborou pastoralmente na Paróquia de Leiria, nomeadamente no campo da liturgia e, mais tarde, na Paróquia da Cruz da Areia onde residiu até Agosto de 2022. Mas também colaborou com Instituições diocesanas como o Seminário Diocesano de Leiria onde foi professora durante muitos anos, a Escola de Formação Teológica de Leigos, actual Centro de Cultura e Formação Cristã, da qual chegou a ser vice-directora, e o Secretariado da Postulação dos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, ajudando em traduções a pedido do Padre Kondor, rejubilando com a sua beatificação e canonização. Devota de Nª Srª de Fátima, teve a graça de viver os últimos tempo de vida nessa cidade, como desejava. Não descurava a sua própria formação, participando assiduamente nos Encontros Nacionais de Pastoral Litúrgica em Fátima, em Congressos e Jornadas Teológicas, em Congressos Eucarísticos ou em Retiros e Formações das Auxiliares do Apostolado, no seu Centro Internacional em Lourdes – França.

Assertiva e de personalidade forte, de convicções claras e firmes, ao mesmo tempo era uma pessoa muito próxima, generosa, preocupada com os outros e delicada no trato.

Devido a problemas de saúde que se acentuaram em Agosto do ano passado, após hospitalização de algumas semanas, passou a residir, desde setembro de 2022, na Casa Diocesana do Clero, que a acolheu com muito carinho e gratidão pela sua vida dedicada à igreja diocesana, onde ela era uma presença agradável e colaboradora, sendo estimada por todos.

Neste último mês de julho a sua saúde fragilizou-se o que implicou o seu internamento no hospital, dia 24 de Julho, vindo hoje a falecer pela manhã no Hospital Stº André de Leiria, dia 4 de Agosto, dia em que comemoramos S. João Maria Vianney, padroeiro dos párocos.

As suas exéquias realizaram-se no domingo, às 15h00, na Capela Mortuária de Leiria, Festa da Transfiguração do Senhor, estando presentes largas dezenas de pessoas amigas e alguns sacerdotes, sendo sepultados os seus restos mortais em jazigo de família, no cemitério das Alhadas – Figueira da Foz. No próximo dia 11 de Agosto, na Sé, na missa paroquial das 19h15, a recordaremos na Eucaristia.

A história da diocese não se faz apenas dos contributos de bispos e padres, mas também de muitos leigos. Agradeçamos ao bom Deus a vida desta nossa irmã Auxiliar do Apostolado que muito deu à nossa igreja diocesana e a ela, que tanto se dedicou às vocações sacerdotais, pedimos que interceda no Céu por novas vocações laicais e sacerdotais

Homilia proferida na celebração das exéquias fúnebres

Caros Irmãos e Irmãs,

Neste dia em que a Igreja celebra a Festa Litúrgica da Transfiguração do Senhor, estamos aqui reunidos como Comunidade Crente, para nos despedirmos da nossa Irmã Emília Lourenço. Certamente este era um dos dias que nenhum de nós quereria viver tão cedo, mas ele chegou e devemos encará-lo com a mesma fé e na mesma esperança com que ela ia vivendo cada dia.

Neste dia em que o Papa Francisco se despede das terras lusas, ao chegarem ao fim as Jornadas Mundiais da Juventude, e passam 45 anos do falecimento do Papa Paulo VI, papa que concluiu o Concílio Vaticano II e marcou a caminhada vocacional da nossa Irmã, nos anos sessenta, pedimos a luz da Jesus para olharmos, com o Seu olhar, a realidade da Páscoa.

Escutávamos, do Livro dos Actos dos Apóstolos, a emoção da Comunidade de Jope, pela morte de Tabitá, uma mulher muito queria e generosa. Ao escutar o sucedido, o Apóstolo Pedro vai ao encontro da tristeza que sente esta Comunidade, e, ficando a sós, pegando na mão da defunta, mandou que se levantasse e ela recuperou a vida, voltando ao convívio dos irmãos. A morte não tem grandes explicações. A cada um acontece uma única vez e não sabemos quando. Não por medo, mas por Amor, devemos estar sempre preparados. Aquilo que nos ressuscita verdadeiramente é a fé em Cristo Pascal. Aquilo que nos permite viver, muito para além da memória que os outros possam fazer de nós, são as boas obras que semeamos no campo do mundo. Este voltar à vida desta mulher, pela acção do Apóstolo Pedro, é sinal do poder de Deus. Uma das características da D Emília, que sempre marcou a sua vida até ao fim foi a generosidade, como esta mulher de que nos falava o Livro dos Actos dos Apóstolos. Pude testemunhar isso desde que a conheci, particularmente nestes últimos tempos. Pessoas e instituições, sobretudo os mais necessitados, eram alvo da sua ajuda. Fazia-o com gosto e discrição. Dizia-me que o dinheiro era para distribuir, que não queria acumular. Assim foi e será até ao fim e para além dele.

No Evangelho, Jesus, no alto monte, transfigura-se diante de Pedro, Tiago e João. O lugar alto, as vestes brancas, a nuvem, a voz que se ouve e nos recorda o Baptismo no Jordão, as figuras de Moisés e Elias e os três discípulos são elementos que compõem o relato e nos ajudam a ver para além dele. Jesus proíbe que o contem antes da sua Ressureição. Sem o dom do Espírito, torna-se difícil perceber a Glória de Deus e a vida eterna que nos promete. Vivemos no mundo, mas não somos do mundo. Também nós nos transfiguramos, pela morte, de mortais a imortais. Da sujeição ao sofrimento e à morte, a uma vida renovada em Cristo. Foi esta fé que sempre animou a vida da nossa Irmã Emília.

Antes de eu a conhecer, conheceu-me ela desde bebé. Quando a razão o permitiu, fui sabendo quem era a vizinha de baixo e a sua bondosa mâe, a D Licínia. Deus serviu-se dela para me despertar a vocação ao sacerdócio e foi ela quem me incentivou, em primeiro lugar, a ir para o Seminário, onde ela leccionava. Uma história que durou 30 anos. E por este dia veio-me ao pensamento um ditado africano que diz: «devemos ajudar aqueles a quem os dentes abanam, eles que ajudaram os nossos a crescer». E foi assim que aconteceu. Ela que se dedicou a apoiar as vocações ao sacerdócio, quis o bom Deus chamá-la desta vida dia 4 de Agosto, dia de S. João Maria Vianney, padroeiro dos párocos. Partiu numa sexta-feira, dia em que recordamos a Paixão do Senhor e hoje, Domingo da Transfiguração do Senhor, a confiamos à misericórdia do Bom Deus. Faz hoje oito dias dei-lhe os Sacramentos da Santa Unção e Absolvição, o que muito agradeceu. Mulher de convicções e assertiva, prezava a sua independência e autonomia. E até há um ano geriu a sua vida, até que a fragilidade a fez precisar de mais cuidados, indo viver para Fátima, terra que trazia no coração e onde desejou terminar os seus dias, sendo recebida na Casa Diocesana do Clero onde foi acarinhada e estimada. Agradeço de coração a todos e todas que cuidarem dela com dedicação e

competência, quer na Casa do Clero, quer os seus muitos amigos e amigas, os seus antigos vizinhos que foram sempre de uma preocupação admirável.

Aquilo que hoje não entendemos, esperamos que um dia o Senhor nos faça ver melhor. Que alimentados neste Banquete de Peregrinos, nos faça chegar à Mesa do Banquete Celeste. Que subindo aos montes deste mundo, possamos ver mais longe e mais largo. Vivemos voltados para a morte, mas morremos voltados para a vida. E sempre que nos morre alguém não podemos deixar de nos questionar sobre o sentido que procuro dar à minha vida e como tenho usado os talentos que Deus me deu e que devo colocar ao serviço dos outros.

Não sendo natural da Diocese de Leiria, fez desta cidade e desta Comunidade Diocesana a sua casa e lugar de apostolado. Pelo muito que fez e às Instituições que serviu, entre outras: Seminário Diocesano, Escola de Formação Social Rural, Escola Teológica de Leigos e as paróquias de Leiria e Cruz da Areia, merece o nosso respeito e uma justa homenagem.

Agarrada sempre à vida, estes últimos dias foram penosos e reconheço, hoje, porque não queria ver, alguns sinais de partir para Deus. Elevava-me sempre a compostura com que recebia a Sagrada Comunhão e ficava recolhida a meditar, mesmo nos dias de maior agitação. Poderiam ser suas estas palavras de Stª Teresa de Ávila a quem admirava: vivo sem viver em mim…

Que o Senhor a recompense dos seus trabalhos e Nª Srª de Fátima e os santos pastorinhos de quem era devota a recebam às portas do Céu. Áme

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