Três formas de viver a Economia de Francisco

Ao reflectir sobre como cada pessoa viveu o encontro em Assis parece-me apropriado usar as palavras do Santo Padre e descrever as três formas de como cada um o poderia viver – cabeça, coração e mãos...

Ao reflectir sobre como cada pessoa viveu o encontro em Assis parece-me apropriado usar as palavras do Santo Padre e descrever as três formas de como cada um o poderia viver – cabeça, coração e mãos – tentando ilustrar os benefícios e desafios de cada uma delas. E quanto ao Papa Francisco e aos recados finais que nos deixou, há uma frase que resume tudo: “a realidade é mais importante que as ideias”. Assim foco-me em perceber como utilizar a cabeça, o coração e as mãos na forma como responderemos ao compromisso de trabalhar para uma economia mais justa, mais fraterna e mais ambientalmente responsável

POR RICARDO ZÓZIMO

E assim a Economia de Francisco aconteceu. Mais de três anos depois do apelo do Papa para que economistas, investigadores e agentes de mudança viessem a Assis para um grande encontro dedicado a repensar os modelos económicos mundiais e como estes poderiam ser alterados, o evento global aconteceu. Tal como tantos outros eventos, a COVID-19 também afetou a Economia de Francisco que se viu forçada a fazer encontros globais virtuais com um grande foco em manter a comunidade ligada, mas sem a emoção que sempre está na base de um encontro presencial de milhares de jovens. 

Olhando para o encontro em Assis é óbvio pensar que haveria muitas maneiras de o viver. Muitos participantes viveram intensamente a música e o lado artístico do encontro. Outros participantes focaram-se no contacto com pessoas de todo o mundo. Outros ainda apreciaram a beleza de Assis e as oportunidades de reflexão que esta bonita vila Italiana nos oferece – neste campo, a Cruz de São Damião que está na Igreja de Santa Clara e os frescos de Giotto na Basílica de São Francisco merecem particular destaque. Eu aproveitei cada momento, pois tinha sido muito ansiado, pensado e rezado. 

Mas ao reflectir sobre como cada pessoa viveu o encontro parece-me apropriado usar as palavras do Santo Padre e descrever as três formas de como cada um o poderia viver – cabeça, coração e mãos – tentando ilustrar os benefícios e desafios de cada uma delas. Muitos jovens viveram este encontro focados no que poderiam aprender (através do uso da sua cabeça). Focados em trazer da Economia de Francisco novas modelos e ferramentas que pudessem ser aplicados no seu contexto, estes jovens foram os que tiraram mais notas, os que procuraram as sessões paralelas mais ligadas à universidade e aqueles para quem a grande pergunta do encontro foi “como podemos mudar o sistema”. Penso que estes jovens se desiludiram com o encontro, pois foi especialmente difícil encontrar modelos que globalmente defendam o que é o modelo económico da Economia de Francisco. O mais aproximado que encontraram foram sistemas complementares ao sistema atual e que funcionam em alguns contextos/locais muito específicos. 

Bastantes participantes viveram o encontro maioritariamente através do seu coração. Acentuando o lado emocional, a organização trouxe para o palco uma banda e um DJ que tinham como missão unir na música e no espirito aquele grupo de mais de mil pessoas. Mas quem procurou o encontro pela parte emocional encontrou também poemas e interpretações artísticas relacionadas com o sofrimento da nossa casa comum. A ideia de usar a arte como mecanismo de transformação da visão que temos do mundo foi bem conseguida com interpretações muito fortes e marcantes – quem puder veja a leitura do poema da sentinela ao Papa Francisco – “sentinela, cuanto resta de la note” (a partir da 1h07). Penso que o risco de quem vive o encontro através do coração é ficar no quentinho do evento e demorar a participar no movimento. Penso que celebrar o encontro de uma forma artística é fundamental, mas que a verdadeira razão pela qual a arte nos toca é para nos impelir numa direção de reação. É para nos fazer tomar posição em relação ao que vivemos e agir.

Outros participantes viveram este encontro em Assis a partir do trabalho que realizaram e dos projectos que gostavam de realizar com outros cujos valores e ideais encontraram em Assis. Estes participantes viveram o encontro numa azáfama de encontros e conversas, tentando encontrar pessoas e projetos que replicassem a Economia de Francisco e as suas ideias por todo o mundo. Este grupo tinha uma missão – fazer crescer a Economia de Francisco – e aparentavam estar sempre em business mode – a aproveitar cada segundo para alargar a sua rede, a fazer da app digital do encontro um centro nevrálgico de contactos e mensagens. Para estes, o encontro foi rico pois abriu a oportunidade para aprender de forma global com exemplos de projectos dos quatro cantos do mundo. De acelerar as respostas locais com base em experiências globais. Um dos acontecimentos mais fascinantes para este grupo foi o after-event onde alguns participantes se inscreveram em workshops para lá do evento para continuar a discutir ideias e a formar laços com outros. Apesar de toda a actividade, penso que também aqui neste grupo existe o risco de fazer porque é preciso responder ao apelo do Papa, sem terem estudado suficientemente a robustez das melhores respostas.      

Voltando ao Papa Francisco e aos recados finais que nos deixou, utilizou uma frase que resume tudo: “a realidade é mais importante que as ideias”. Assim foco-me em perceber como utilizar a cabeça, o coração e as mãos na forma como responderemos ao compromisso de trabalhar para uma economia mais justa, mais fraterna e mais ambientalmente responsável. Para as universidades de economia e gestão onde me incluo penso que estas três dimensões nos pedem respostas diferentes: por um lado junto-me a tantos outros cientistas a produzir estudos sobre empresas a viver já os princípios da Economia de Francisco. Depois do encontro somos também chamados a acrescentar a beleza da arte naquilo que fazemos provocando melhores experiências de aprendizagem que sejam ricas de conteúdo mas também emocionalmente tocantes. Por último, penso que o Papa desafia as universidades a encontrar novos espaços de ação onde alunos e professores possam coletivamente pôr em prática alguns destes projetos globais que têm como ambição mudar os sistemas económicos.   

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