“Trabalhar com emigrantes é trabalhar nas periferias dos países ricos”

Entrevista ao padre Manuel Janeiro, delegado para as Missões Portuguesas na Alemanha, no contexto da 43.ª Semana Nacional das Migrações.

 

De 9 a 16 de agosto, a Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, através da Obra Católica Portuguesa das Migrações, organiza a 43.ª Semana Nacional de Migrações. O ofertório de todas as Missas do último domingo reverterá para esta obra pastoral e o momento alto da semana é a Peregrinação dos Migrantes ao Santuário de Fátima, nestes dias 12 e 13. O tema do ano – “Igreja sem fronteiras: somos um só corpo” – decorre da mensagem do Papa para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado.

A este propósito, fomos entrevistar o padre Manuel Gonçalves Janeiro, sacerdote da diocese de Leiria-Fátima a prestar serviço há vários anos na Alemanha. Nascido na Ribeira do Fárrio em 1941, foi ordenado em 1965, estando este ano a comemorar as bodas de ouro sacerdotais. É delegado da Conferência Episcopal Alemã para as Missões de Língua Portuguesa e pároco da Comunidade Portuguesa em Singen.

Depois dos estudos de Filosofia e Teologia no Seminário de Leiria, foi para Roma, onde, na Universidade Gregoriana, cursou Teologia Dogmática e Sociologia. De seguida, deslocou-se para a Universidade de Constança, na Alemanha, onde aprofundou os seus conhecimentos na Sociologia de Religião. Frequentou, ainda, a Universidade de Innsbruck, na Áustria, onde se dedicou ao estudo da Filosofia da Ciência e Teorias da Comunicação.

Em reconhecimento e gratidão pelo seu trabalho, o Arcebispo de Freiburg nomeou-o Cónego Honorário, em 2004, e o Papa Bento XVI, em 2009, elevou-o a Monsenhor.

 

Como foi a sua ida para a Alemanha?

Vim para aprofundar conhecimentos em Sociologia da Religião, com um professor da Universidade de Constança, prestigiado mundialmente nesta matéria. Apoiado na Fenomenologia, Antropologia, Psicologia-Social, Sociologia do Conhecimento… dediquei-me à investigação na área do religioso. Nunca imaginei permanecer tanto tempo, mas as contingências da vida assim o proporcionaram.

 

Ficou “retido” pelo trabalho com os emigrantes… Como começou essa experiência?

Quando fiz a investigação sobre o papel da religião na integração dos emigrantes, depois de visitar quase todas as outras comunidades portuguesas, optei por esta. Singen era uma cidade pequena, vizinha de Constança, onde os portugueses constituíam uma nova comunidade. Eram pessoas de quase todas as regiões de Portugal, lançados na aventura de vida numa sociedade altamente industrializada.

2015-08-11 janeiro2Nos anos 70, vinha a esta cidade, duas vezes por mês, um sacerdote português que residia em Offenburg. Era responsável por outras comunidades portuguesas na diocese de Freiburg e tinha trabalho de sobra. Certo dia, insistiu comigo para lhe dar uma ajuda nesta zona. Acedi. Era para ser uma ajuda muito transitória, mas os anos foram passando e ainda hoje cá me encontro.

Como pode imaginar, ao darem os primeiros passos nesta sociedade, os emigrantes encontravam muitas dificuldades. Tudo era novo para eles. Não falavam nem entendiam a língua. A nossa pastoral orientava-se para esta realidade. Sendo assim, eu era “moço para todos os serviços”: para além da vida litúrgica e dos sacramentos, tinha catequese e encontros de informação e formação para famílias, homens, mulheres, jovens, crianças… Mas a maior parte do tempo era a acompanhar as pessoas na resolução dos seus problemas nas instituições alemãs, nas empresas, nos consultórios médicos, nos hospitais, nas escolas… Era um papel de assistente social intenso.

Além disso, devotámo-nos à estruturação da comunidade: criação de associações culturais, sociais e recreativas, conselhos de pais, cursos de aprendizagem da língua, convívios, festas, encontros de formação sobre a vida nesta sociedade, comunicação na família, educação dos filhos… e a troca de experiências nas relações com os alemães.

 

Imagino que a procura fosse generalizada… Guarda muitas memórias desses primeiros tempos?

No princípio, só vinham homens. Mais tarde, chegaram as mulheres e os filhos. Estes primeiros portugueses eram pessoas com baixa formação escolar – 3.ª ou 4.ª classe –, mas dotados de uma curiosidade cognitiva excecional. Queriam conhecer e experimentar. A sua admiração concentrava-se nos avanços tecnológicos da sociedade alemã. Sobre este assunto, poderia contar algumas histórias engraçadas, mas não caberiam no espaço desta entrevista. Outras histórias teriam a ver com a mulher emigrante nos processos de tomada de consciência da sua dignidade e do seu valor como esposa, mãe e empregada, incluindo a luta pela emancipação. Outras, ainda, teriam a ver com as saudades da família, com as dificuldades em se ambientar, com pessoas gravemente doentes, com problemas no controlo da natalidade, com as rixas entre os portugueses, com os desejos de promoção dos filhos, com a capacidade de sacrifício na busca dos seus objetivos…

 

Muitas dessas histórias serão ainda atuais…

Há “histórias” sempre vivas a envolver a emigração. Algumas centralizam-se nos desabafos de muitos pais magoados, frustrados pelo facto de os seus filhos, com um mundo aberto nesta sociedade, não terem conseguido ir mais longe nos estudos ou num emprego prestigiado. Também muitos andam amargurados porque o seu filho ou filha se separou ou divorciou… e são muitos os casos de separação ou divórcio!

 

Com o decorrer dos anos e a mudança social profunda – em todo o mundo, mas na Europa e, em particular, na Alemanha – que papel teve a pastoral dos migrantes no crescimento e consolidação da sociedade?

Procurámos que as nossas Missões fossem uma casa de todos os portugueses. Aí eram acolhidos, cordial e fraternalmente, aí encontravam amigos e construíam amizades, aí sentiam refúgio e apoio para a sua identidade. Aí, também, em múltiplas conversas, se desvendavam respostas plausíveis para as questões que surgiam. Como disse, promovíamos encontros diversificados de formação nas diversas áreas da sua vida, salientando valores, normas, visões, tendências, problemas e outras questões próprias deste meio. Foi um processo de socialização que muito ajudou os portugueses na sua integração.

A sociedade alemã reconheceu e agradeceu este nosso contributo, numa carta que o Chanceler Helmut Kohl me dirigiu como Delegado das Missões Portuguesas, na celebração das Bodas de Prata das Missões. De facto, as comunidades estrangeiras tornam mais visível a universalidade da Igreja nesta sociedade e rejuvenescem-na.

 

Terá já contactado com uma nova vaga de emigração, de gente com características muito diferentes da dos finais do século XX. Continuam a procurar o apoio da Igreja?

Com os novos emigrantes tenho alguns contactos, mas não muitos, porque esta cidade é pequena e não oferece abundância de trabalho. Mas ouço o que outros colegas das Missões vão relatando. Muitos dos “novos” emigrantes eram já desintegrados em Portugal e aqui pouco ou nada fazem para se integrar. Não são estáveis no emprego e levam uma vida excessivamente gastadora. Há outros, porém, com formação acima dos que já cá estavam e que procuram participar na vida das comunidades portuguesas, na catequese e noutros serviços.

O seu estilo de vida diferencia-se do “velho“ imigrante, que reduzia a sua vida a dois elementos: casa e trabalho. Estes querem ter mais do “mundo alemão” e, por isso, vemo-los nos cafés, restaurantes e outros locais da sociedade alemã.

 

E como tem sido o acolhimento das comunidades a estes novos membros?

Posso afirmar que o acolhimento aos “novos” emigrantes tem sido bom. Os que cá estão têm especial empatia por eles, por terem sido forçados a emigrar pela crise em Portugal. Vigora a mentalidade de os ajudar, no acompanhamento às instituições, na procura de trabalho e de casa, nas dificuldades do quotidiano. Os espaços e serviços das Missões e das associações, com muita solidariedade, têm as portas abertas e prontificam-se a tornar-lhes a vida mais fácil.

 

O trabalho da pastoral dos migrantes mantém as características de sempre, ou há novos problemas e desafios a responder?

A pastoral das Missões deverá continuar a ser cultural e social. O cristão deve ser ativo e comprometido na Igreja e na sociedade. A religião não pode ser reduzida ao privado e cultual. A religião deve ser celebrada e vivida. O Reino de Deus que Jesus de Nazaré iniciou exige ser consequente com os valores do Evangelho, como a paz, a justiça, a solidariedade, o serviço, etc., e torná-los realidade no mundo. Nós, cristãos, devemos ser pioneiros na humanização do espaço societário onde vivemos. E as nossas Missões não devem apenas acolher os que lhes batem à porta, mas sair ao encontro daqueles que as não frequentam, dos indiferentes e de todos os que se distanciaram delas. A transmissão da fé tem de ser uma prioridade, uma vez que muito pais abdicaram desta sua missão.

2015-08-11 janeiro3Por outro lado, deveremos cooperar cada vez mais com as estruturas paroquiais alemãs, pois será nelas o futuro dos portugueses das nossas comunidades. O terreno tem de ser preparado pela parte alemã e pela nossa parte, para que venham a sentir-se aceites como irmãs e irmãos e com verdadeiro sentimento de pertença. Os casais novos e os jovens da 2.ª e 3.ª gerações distanciam-se fortemente da Igreja, abandonaram a participação nas celebrações litúrgicas e as visões e definições cristãs são-lhes indiferentes. Procura-se, por isso, uma pastoral que consiga entrar no seu mundo. É um grande desafio.

 

Em concreto, como é a sua missão quotidiana na Missão portuguesa?

Assemelha-se ao estilo da vida paroquial em Portugal: celebração litúrgica, encontros para oração e meditação, encontros de formação e reflexão para famílias, para senhoras, jovens; catequese, cursos bíblicos, celebrações marianas, visitas aos doentes, convívios, festas, preparação do Batismo, Matrimónio e Crisma, etc.

 

Na mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o Papa fala numa “Igreja sem fronteiras, mãe de todos”, que “propaga no mundo a cultura do acolhimento e da solidariedade”. Sente que essa é uma realidade de facto?

Vejo que a Igreja alemã se esforça por que os estrangeiros se sintam “em casa”, pondo à nossa disposição as estruturas de que necessitamos. Dá-nos o apoio, mesmo económico, para que mantenhamos vivas e dinâmicas as comunidades.

Claro que há sempre alguns sacerdotes alemães e outros responsáveis que não acatam as diretrizes dos seus bispos e nos criam problemas, “sujando” a ternura maternal da nossa mãe Igreja. Mas, quando acontecem injustiças para com os estrangeiros, a denúncia, com voz forte e firme, é feita pela Conferência Episcopal Alemã ou pelo bispo da diocese em causa.

 

Atualmente, o Ocidente confronta-se com o problema dos migrantes “forçados” e refugiados. O Papa Francisco tem alertado para a “desconfiança e hostilidade” que surge até nas comunidades cristãs e diz que “Jesus Cristo está sempre à espera de ser reconhecido nos migrantes e refugiados, nos deslocados e exilados”. Como centro decisivo das políticas europeias, a Alemanha é, muitas vezes, criticada por fechar as portas a essas pessoas. A Igreja tem procurado cumprir “o mandamento bíblico de acolher, com respeito e solidariedade, o estrangeiro necessitado” e de “partilhar os recursos e por vezes a renunciar a qualquer coisa do nosso bem-estar”, como diz o Santo Padre na sua mensagem?

Devido ao passado histórico, escreve-se e fala-se muito sobre as maldades e maus gostos dos alemães. São esquecidas, muitas vezes, as coisas maravilhosas que fazem. Claro que cometeram erros e vão continuar a cometê-los! Mas a verdade é que os políticos e representantes da cultura e das comunidades cristãs têm apelado aos cidadãos para que se envolvam na defesa dos valores democráticos da liberdade, justiça, igualdade e respeito pelos direitos humanos.

Existem alguns grupos anti-estrangeiros muito ativos e brutais nos seus métodos, mas também muitas pessoas de boa vontade que tudo fazem para proteger a dignidade do seu semelhante, sem qualquer descriminação. É óbvio que há cidadãos que temem vir a perder o seu bem-estar, a sua segurança ou o seu nível de vida, com a vinda e presença dos estrangeiros. Apesar de tudo, com determinadas regras, a Alemanha acolhe elevado número de migrantes e refugiados. Mesmo com alguns conflitos, disponibilizam estruturas, salas, casas e outros imóveis nos diversos Estados Federados, para os acolher com dignidade.

As Igrejas alemãs também estão envolvidas nesse processo, motivando o acolhimento, oferecendo avantajados subsídios financeiros, disponibilizando salas, casas e outras propriedades… e pondo a acompanhá-los gente competente nos serviços sociais. Um exemplo que teve grande impacto público há alguns anos: um bispo deixou o seu palácio episcopal para servir de habitação a algumas famílias de exilados e foi viver para um quarto do Seminário. Quando está em jogo a vida e a dignidade dos mais pobres, a Igreja deve ser pioneira em servi-los e profeta na denúncia das injustiças que os envolvem.

 

O Papa pede “uma colaboração sistemática e concreta, envolvendo os Estados e as Organizações Internacionais” para uma resposta global ao problema. Acha que esse trabalho está a ser feito?

Esse pedido para uma resposta global vai permanecer, muito tempo, apenas como um bom desejo deste Papa. O egoísmo das Nações é extremamente forte. O temor de perder algo de seu bem-estar trava as decisões. Apesar de tudo, os mais poderosos manifestam choque pelos horrores à nossa volta, conversam muito, procuram soluções e até apontam caminhos… mas, ao fim e ao cabo, empurram uns para os outros e nenhuma decisão eficaz chega a ser concretizada. Sem líderes competentes e carismáticos nada se consegue. E nós, infelizmente, não temos hoje líderes dessa qualidade.

 

Na sua análise como sociólogo, acha que podemos esperar com otimismo essa evolução, ou a Europa poderá mesmo vir a “cair em ruína”, como profetizam alguns?

O mundo de hoje é muito complexo. A corrupção, o elevado número de desempregados, principalmente nos jovens, as desigualdades sociais… são um escândalo! Tudo seria mais justo e fácil se os países ricos e os que têm em demasia partilhassem com os mais necessitados, mas a ganância leva-os a querer sempre mais. Utilizando uma imagem bíblica, somos rebanhos à deriva, sem pastor, porque nos faltam líderes à altura para apontar rumo e esperança fundamentada numa sociedade verdadeiramente humana.

Não perco a esperança numa sociedade melhor, embora, nesta travessia para lá chegar, tenhamos de suportar, em algumas fases, duros trambolhões.

 

E quanto à migração dos portugueses, qual a sua leitura da atualidade e como perspetiva que evolua no futuro?

Portugal vai ser, durante muitos anos, um país de emigração! Infelizmente, a nossa situação económica e social não vai ter capacidade, no futuro, para oferecer trabalho a todos os portugueses. Desejaria que todos pudessem encontrar trabalho na sua terra, mas, lendo a realidade presente e as perspetivas futuras, vejo como plausível que muitos portugueses estão condenados à emigração.

 

Nos 50 anos de sacerdócio e de uma vida dedicada a esta causa, quais os seus maiores motivos de alegria?

2015-08-11 janeiro4A ideia-motor na minha ordenação, que sempre tentei levar a sério na vida, foi esta frase de Jesus Cristo: “Vim para servir e não para ser servido”. Estou grato a Deus, à emigração, à Igreja e à República Federal Alemã. Trabalhar com emigrantes é trabalhar nas periferias dos países ricos, onde também se encontram muitos pobres, muitas vítimas, muitos necessitados. A Igreja deve estar aí com eles, numa atitude samaritana de ajuda incondicional.

Na emigração, aprendi a estar com as pessoas e a escutá-las. O sacerdote tem muitos momentos especiais de encontro com as pessoas e com as famílias e está presente na maioria dos acontecimentos importantes de felicidade e de dor. Aprendi a alegrar-me com as alegrias dos outros e a sofrer com a sua dor, por vezes, no silêncio solidário e confiante. Alegar-me pelos êxitos e triunfos dos outros gerou em mim uma atitude positiva de gratidão pelo muito de bom que acontece à nossa volta.

Aprendi também a respeitar outras religiões, a praticar o ecumenismo e a colaborar com todos os que buscam o bem-comum. Procurei ser barreira a todos os tipos de racismo, xenofobia e descriminação. Aprendi que devemos construir pontes, não muros, para defender a fé. Temos necessidade de uma Igreja de mão estendida a todos, uma Igreja que crescerá, não por proselitismo, mas pela atração do testemunho dos crentes. Procurei sempre que o diálogo, o respeito e a tolerância manifestassem a minha postura e o compromisso de colaboração com todos.

Esta aprendizagem, devo-a aos emigrantes.

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