Toma o comprimido qu’isso passa!

Para escrever este texto, inspirei-me ao ver o filme «Variações», que saiu recentemente. Recordo a cena do filme em que um empregado de limpeza está a cantarolar uma música de António Variações “toma o comprimido, toma o comprimido, toma o comprimido qu’isso passa!”. E, a partir daí, achei importante falar, hoje, de um assunto de saúde pública – o uso e abuso de benzodiazepinas (que também são comprimidos).

As benzodiazepinas são medicamentos habitualmente utilizados para a ansiedade, para “os nervos” (como diz o povo), ataques de pânico, insónia… usando uma expressão popular, “são comprimidos para a cabeça”. Em Portugal, entraram “na moda” há 30 anos e, desde então, começámos a ouvir nomes novos que hoje em dia nos são mais ou menos familiares, como: Xanax® (alprazolam), Victan® (loflazepato de etilo), Sedoxil® (mexazolam), Valium® (diazepam), Olcadil® (cloxazolam), Morfex® (flurazepam), Lorenin® (lorazepam),…

Acho este tema gritante e, ao ouvir a música do António Variações, pensei isto tem que ser falado! Sem dúvida que os profissionais de saúde têm formação nesta área, mas falta alertar a população para este abuso, para esta dependência.

Segundo o mais recente relatório de saúde mental nacional, o diagnóstico psiquiátrico mais comum dos portugueses é a perturbação da ansiedade. Significa que os portugueses são nervosos, ansiosos, e que isso os perturba ao ponto de recorrerem ao médico. Atenção! Não há nada de errado nesse pedido de ajuda, mas vale a pena refletir sobre o que é que pode estar na origem destes níveis de ansiedade da nossa população… Consequentemente, vemo-nos inseridos numa sociedade encharcada em ansiolíticos (medicação para combater a ansiedade) – as benzodiazepinas. Até aqui tudo parece encadeado: ansiedade >> perturba a pessoa >> recorre ao médico >> benzodiazepinas. Mas a história não termina aqui, começa aqui. Há cerca de 20 anos, começaram a identificar-se efeitos secundários, nomeadamente perda de memória, habituação e dependência da medicação, e desde então tudo se foi intensificando.

Neste momento, a Direção Geral da Saúde já ditou regras rígidas para prescrever este tipo de medicação, mas estamos em fase de transição e, para mudar comportamentos, é preciso mais do que as regras escritas num papel. Na minha opinião, acho que falta publicidade útil nos canais públicos, que podem ser um meio auxiliar de educação para a saúde; faz falta informar o utente do tipo de medicamentos prescritos, sensibilizá-lo para recorrer ao médico para desabituação de benzodiazepinas e – o que acho mais importante e mais urgente – promover e educar para a saúde mental.

Com isto, quero questionar o leitor: se tem um problema de ansiedade, estaria disposto a fazer um percurso interior, com a ajuda dos profissionais especializados para tal, de forma a tentar compreender, aceitar e delinear estratégias para lidar com a sua ansiedade antes de recorrer à medicação? Onde fica o papel do psicólogo, do psiquiatra, do psicoterapeuta, do enfermeiro especialista em saúde mental,…?

Na realidade, nunca haverá um comprimido para todos os problemas que nos aparecerão na vida! E é por isso que, em qualquer problema, teremos que optar SEMPRE por querer fazer um caminho de crescimento pessoal, independentemente de tomar medicação ou não! Caso contrário, ficaremos para sempre escravos dela e é nela que depositaremos toda a nossa segurança, confiança e bem-estar, ignorando que a força deve ser construída a partir de nós e dos laços que nos fortalecem.

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