Reportagem da Romaria ao Senhor Jesus dos Milagres

O Santuário do Senhor dos Milagres recebeu, no passado dia 14 de setembro, mais uma peregrinação anual. Milhares de peregrinos, de várias zonas do país, participaram no ponto alto das celebrações: a procissão com o Santíssimo Sacramento.

O colorido dos andores que integram o cortejo religioso não escondem a devoção de uma romaria que já se faz há muitos anos, mas que mantém acesa a devoção que lhe deu origem.

Quando a devoção sai à rua

São duas da tarde de segunda-feira e o movimento à volta do Santuário do Senhor dos Milagres intensifica-se. Desde manhã que vão chegando autocarros para aquele que é o momento alto da tradicional romaria ao Senhor Jesus dos Milagres: a procissão com o Santíssimo Sacramento.
“Vêm mais pessoas de fora, que dos arredores, sobretudo da Nazaré, de Aveiro e da Figueira da Foz, zonas do país muito ligadas à devoção do Senhor dos Milagres. Vêm pagar promessas de cera”, conta Idalina Malícia, com tantos anos de vida quantos de romaria do Senhor Jesus dos Milagres. “Desde manhã até depois da procissão, há pessoas, dentro da igreja, a pagar promessas. Trazem objetos de cera, velas altas, que depois também vão à procissão Eucarística. Vêm cá pessoas apenas pela fé que têm ao Senhor dos Milagres. Lá dentro vive-se a fé, aqui fora é a romaria”, conta, ao recordar os vinte anos em que esteve no acolhimento aos peregrinos.

“A fé dos peregrinos faz aumentar a nossa”

Este serviço, disponível nos dias dos festejos, esteve, este ano, a cargo de Olga Alves e Deolinda Francisco. A igreja está repleta, mas é para a imagem de Nosso Senhor dos Milagres que os peregrinos se dirigem. Em frente, um tocheiro repleto de pequenas velas ilumina objetos de cera colocados na base da imagem para pagar promessas. É ali, de joelhos, aos pés do Senhor Jesus dos milagres, que os peregrinos fazem as suas preces, um de cada vez.
“Vêm cá pessoas com muitas dificuldades, mas com muita fé. A fé dos peregrinos faz aumentar a nossa”, diz Olga Alves. “Fazem uma oferta devota, acendem uma vela e alguns deixam figuras de cera, consoante a promessa. Ao abeirarem-se do Senhor dos Milagres, joelham-se, rezam e tocam ou beijam os pés da imagem”, descreve. No serviço que prestam, Olga e Deolinda ouvem os desabafos de alguns peregrinos, a propósito dos pedidos que ali trazem. Problemas familiares e as doenças são as dificuldades mais referidas, dizem.
Uma das peregrinas com quem falámos veio de Pombal, participou pela primeira vez nesta romaria há dez anos, quando se viu confrontada com problemas de alcoolismo na família. “Venho com devoção pela força que o Senhor dos Milagres me deu”, diz, comovida. Uma outra, da Figueira da Foz, garante que já ali vem há mais de 20 anos, através de excursões organizadas na sua paróquia. “Já paguei promessas e enquanto puder com as pernas não falto à procissão!”

Tudo a postos

À medida que a hora da Missa se aproxima, os andores tomam o seu lugar. Construídos ao longo das semanas que antecedem os festejos, denunciam um trabalho dedicado e minucioso na decoração, que empresta, no seu colorido, mais vida ao adro do Santuário, onde decorrerá a Missa que celebra a Exaltação da Santa Cruz.
De um lado e do outro, à sombra das árvores que ladeiam o recinto, as pessoas começam a ocupar os lugares disponíveis. Tudo serve para descansar enquanto se aguarda pelo início da celebração. Favorece o negócio dos vendedores ambulantes que estão logo ali ao lado, como é o caso de Maria Donzelo, que vem de Amor para àquela festa, há vários anos, não só para vender tremoços e pevides, mas também por devoção. “As pessoas trazem aqui a sua fé e esperança e vêm acorrer ao nosso mestre, que é Jesus. Corro poucas festas, mas faço questão de aqui vir pela devoção que tenho ao Senhor dos Milagres.”
Na sacristia, ultimam-se os últimos preparos para o início da Missa. Amélia Rodrigues, responsável pelo centro de catequese dos Milagres, ajeita o fato de anjo que uma menina vai levar na procissão. “Estas meninas vão na procissão vestidas de anjinho, outros meninos levam ofertas com milho, batatas, feijão. Apesar de ser dia de escola, aqui nos Milagres não há aulas neste dia, uma vez que toda a comunidade se junta para esta celebração”, conta.

Uma celebração da fé

No início da Missa, os milhares de fiéis que ocupam o adro recolhem-se em silêncio e oração. São três e meia da tarde e a Missa prolonga-se durante a hora seguinte, presidida pelo padre José Luís Ferreira, ex-reitor do Santuário. A homilia é proferida pelo padre Miguel Sottomayor, pároco de Carvide e Vieira de Leiria. “É uma honra e uma alegria muito grande vir aqui anunciar este Jesus Cristo que por nós encarnou e tentar viver o seu Evangelho como ele pede que vivamos”, referiu ao nosso jornal.
No final da celebração, a movimentação dos membro das filarmónicas dos Marrazes e das Chãs antecipa o início da procissão, que sai por zonas da freguesia, com a chamada das bandeiras.
Este ano, pela primeira vez, o guião foi levado pelos elementos da Junta de Freguesia. Um a um, os andores tomam o seu lugar no cortejo religioso, que irá percorrer as ruas em volta do Santuário, num convite à invocação do dom da fé.

 

O milagre do Senhor dos Milagres

Os painéis de azulejo da capela-mor da Santuário, ali colocados em 1795, era D. Manuel de Aguiar bispo da Diocese, contam “fielmente” a estória do milagre que ali terá acontecido, no ano de 1728, era aquele lugar “deserto”. Um mendigo paralítico, chamado Manuel Francisco Maio, que vivia numa das encostas que ladeiam o lugar onde hoje se ergue o templo, ficou sem a ajuda de uma cortiça sobre a qual se deslocava enquanto pedia esmola. “Este aflito homem cheio da mais viva fé, dando sentidíssimos ais, gritou pelo Senhor Jesus de Aveiro, que o melhorasse e lhe prometeu que lhe iria levar um painel”. Ao acordar de um “profundo sono”, viu-se apto a caminhar, deixando os vizinhos admirados com o sucedido. Em maio de 1730, agradecido, colocou um painel com a imagem ao Senhor Jesus numa cruz tosca. “Depois de estar assim arvorada a cruz com o painel observou-se que os gados que atualmente vinham pastar a estas charnecas vizinhas fugiam obrigados da mosca e vinham virados para o Senhor formando um circulo em torno da cruz.”
A admiração da população originou uma romaria àquele local para “visitar o Senhor a quem neste tempo chamava-se o Senhor do Maio”. Das inúmeras esmolas que ali chegavam dos peregrinos, “recolhidas pela Confraria do Senhor Jesus”, iniciou-se a construção do Santuário, que recebia cada vez mais visitantes que ali vinham para “implorar a misericórdia do Senhor”.
Desde então, todos os anos, devotos do Senhor Jesus dos Milagres “acorrem à sua Igreja em piedosa romaria”, contam os “breves apontamentos” do padre José Ferreira de Lacerda, que ali foi pároco durante mais de 60 anos. A obra fala de inúmeros “registos que desapareceram devido as invasões francesas”, que também pilharam parte dos bens que ornavam o templo.

 

 Fotorreportagem disponível AQUI

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