Preocupações pastorais de ontem e de hoje

Encontrei o livro de atas de um grupo de padres que, em 1960 e 1961, se reuniu por iniciativa própria para debater questões litúrgicas e pastorais. A primeira reunião foi realizada sem conhecimento do bispo, mas as seguintes já tinham o seu incentivo. Os participantes eram 15, a maior parte hoje já falecidos, e trabalhavam nas paróquias de Barosa, Barreira, Boavista, Cortes, Leiria, Maceira, Marinha Grande, Marrazes, Pataias, Pousos, Reguengo do Fetal, Regueira de Pontes, Santa Eufémia e Serro Ventoso. Os encontros tiveram lugar em S. Pedro de Muel, Paredes e na Sé de Leiria. Revelam-nos as preocupações dos párocos dessa altura e as tentativas para encontrar o modo de lhes fazer frente.

O motivo para as reuniões parece ter sido a participação de alguns padres “em cursos de Pastoral feitos em Salamanca”. O juntarem-se correspondia, por outro lado, ao que verificavam estar a acontecer na sociedade “em que todos os poderes se congregam para exercer, em colaboração, a sua atividade”. Sentiam assim necessidade de “avançar dos moldes antigos e desatualizados, em matéria de Pastoral”. Reconhecem que isso seria mais perfeito e eficiente, “se fosse resultado dum trabalho pensado e realizado em equipa”.

As preocupações pastorais da época eram fundamentalmente nas áreas da liturgia e da catequese. Foi apresentada e debatida a tradução de alguns salmos bíblicos por iniciativa de dois padres para se cantarem com música do compositor francês Gelineau. 

Quanto à catequese, “todos notam a necessidade de catequistas à altura do desempenho competente da sua função”. E sobre a participação, nos dois centros urbanos de Leiria e Marinha Grande, principalmente, “notou-se uma frequência desanimadoramente reduzida”. Explicação: “a falta de interesse dos pais e encarregados de educação das crianças”. Outra preocupação: “a deserção das crianças após a cerimónia da Profissão de Fé, dum modo mais acentuado nos meios menos fervorosos, se bem que nos outros meios igualmente se faça sentir”.  Lamentam não ter “meios de atração adequados para evitar nos adolescentes esta deserção”, nomeadamente que a Igreja não tenha “na sua mão os divertimentos que em nossos dias absorvem completamente os jovens”. Falaram então na adoção do “Catecismo Nacional” e de métodos de ensino em desenvolvimento que estavam já em curso nas suas paróquias, com exceção de uma.

Apontaram para reuniões do grupo uma vez por mês. Para a seguinte, decidiram a abordagem da “participação dos fiéis na Santa Missa” e “como levar a criança a participar e viver a Missa”. 

Na segunda reunião, trataram da participação dos fiéis na liturgia e da necessidade de a promover. Defenderam ser preciso uma “intensa catequização explicativa sobre os vários elementos que entram na celebração litúrgica, insistindo sempre no sentido da reunião familiar”. Nesse sentido, apontam a figura de um “comentador”, como “condutor da assembleia cristã”. E, no caso das crianças, falam do cuidado em as formar “no verdadeiro espírito litúrgico”. Quanto aos sacerdotes, eles próprios deveriam esforçar-se por “provocar a participação dos fiéis, celebrando não para si, mas para a comunidade” e instruindo os fiéis “para que todos respondam ao celebrante em voz alta”. Decidiram formar uma comissão para elaborar um “Diretório para a Missa” a fim ser usado pelo comentador e pelos fiéis. 

O tema seguinte foi sobre a necessidade da catequese para “familiarizar as crianças com tudo o que entra na celebração: alfaias, utensílios, lugares sagrados, gestos, orações, etc”. Sublinhou-se também a conveniência em dar às missas dominicais “um certo aparato exterior de dignidade e nobreza que chame a atenção dos fiéis prendendo-lhes os sentidos, tais como os cortejos da entrada e do ofertório e similares”.

O terceiro encontro acabou por se realizar somente quase um ano depois, em maio de 1961, em Leiria. O tema central acabou por ser o das monições para explicar a Missa aos fiéis. Concordaram em usar as que haviam sido publicadas pela revista “Ora et labora”, dos Monges Beneditinos de Singeverga, fazendo esforços para obterem a licença para a sua publicação.

Continuando a questão da participação mais ativa dos fiéis, referiram as iniciativas, na Marinha Grande, com o canto dos salmos, e nesta e noutras paróquias, com o ensaio do grupo coral para que o povo seja conduzido através dele. Afirmaram a necessidade de um Ritual bilingue, isto é, latim e português, pois a sua falta “é a causa dum tão grande afastamento dos fiéis”. “Eles não entendem o que nós fazemos, nem na administração dos sacramentos, nem nas bênçãos nem nos funerais”, lamentam-se. Note-se que na altura a liturgia era ainda celebrada em latim. Foram apresentados livros que podiam ajudar na ação pastoral: um francês sobre a morte cristã e outro uma tradução do espanhol sobre a pastoral litúrgica da Missa. 

No final deste encontro, ainda projetaram outro, mas não encontrei rascunhos de ata relativamente a ele, o que me leva a pensar que o grupo deixou de se reunir.

Passados quase sessenta anos e apesar das mudanças na sociedade e na Igreja, os sacerdotes mantêm preocupações pastorais quanto à liturgia e à catequese. Mas surgiram outras relacionadas com a evangelização, a família, os jovens, as vocações, a fermentação cristã da sociedade,  a implementação dos ministérios laicais e  formação… A sua abordagem e busca de caminhos de ação fazem-se nos conselhos diocesanos presbiteral, pastoral e de coordenação, nas ações de formação permanente do clero, nas reuniões vicariais e também no âmbito dos conselhos pastorais paroquiais e nas reuniões de movimentos e associações eclesiais… Para a formação teológica, pastoral e catequética, aberta a todos os fiéis cristãos, surgiu a Escola Razões da Esperança e o Centro de Formação Cristã e Cultura. 

As circunstâncias mudaram, a situação e a ação pastoral atual tornaram-se mais complexas e desafiantes. Mas há hoje um número maior de pessoas envolvidas na vida e missão da Igreja, que não apenas os sacerdotes, e também mais recursos e possibilidades de formação. Não nos falte a fé, a esperança e o zelo no testemunho e no empenho apostólico. Era o que também animava aquele grupo de Padres.

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