Peregrinos da Misericórdia

 

Homilia da abertura da Porta Santa da Misericórdia

 

 

Peregrinos da Misericórdia

† António Marto

Abertura do Ano Santo da Misericórdia

Catedral de Leiria, 13 de dezembro de 2015

Refª: CE2015B-010

A  alegria pelo infinito amor misericordioso do Pai

Celebramos a abertura do Ano Santo da Misericórdia sob o signo da alegria que a Palavra de Deus faz ressoar hoje com insistência: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. O Senhor está próximo.”- exclama S. Paulo. Também a primeira leitura faz o mesmo convite: “Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo coração, filha de Jerusalém. O Senhor revogou a sentença que te condenava”. Trata-se de um convite à alegria mais profunda e duradoura, dirigido ao povo de Deus, a cada um de nós e a toda a humanidade, particularmente aos feridos da vida e órfãos de alegria.  Em que consiste esta alegria? Donde provém?

Através deste anúncio, é o próprio Deus que nos convida a alegrar-nos pelo seu amor misericordioso anunciado incansavelmente a toda a criatura e que em Jesus Cristo assume carne humana para habitar corporalmente no meio dos homens e fazer-se próximo. Em Jesus cumprem-se as palavras do profeta Sofonias: “Não temas, Sião. Não desfaleçam as tuas mãos. O Senhor teu Deus está no meio de ti como poderoso salvador. Por causa de ti, Ele enche-se de alegria e renova-te com o seu amor”!

Deus não quer deixar o mundo mergulhado na tristeza do abatimento e no luto da solidão, afastado d’Ele, abandonado e prisioneiro do poder do mal, do pecado e da morte. Ele vem ao nosso encontro em Jesus Cristo com a sua ternura de Pai que se comove, até às entranhas, pelos próprios filhos, que lhes quer bem, que os quer ver cheios de alegria e de paz. Por isso sai à sua procura e os espera, acolhe, abraça, cura, perdoa, reconcilia, renova no amor, dá a paz, salva.

Quer dizer: a misericórdia de Deus é mais poderosa que o nosso pecado e a nossa fraqueza; não há mal ou pecado que ponha limite ao seu amor; não há nenhuma situação irremediavelmente perdida. Deus ama-nos sempre e para sempre, mesmo quando o desiludimos. “Mesmo se a vida de uma pessoa foi um desastre, se foi destruída pelos vícios, pela droga ou por qualquer outra coisa, Deus está na sua vida… Mesmo se a vida de uma pessoa é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço em que a boa semente pode crescer. É preciso confiar em Deus” (Papa Francisco), sempre disponível a perdoar-nos.

O Jubileu da Misericórdia, um ato profético de renovação espiritual

A esta luz compreendemos que a proclamação do Ano Santo da Misericórdia pelo Papa Francisco é um ato profético porque corresponde ás necessidades mais urgentes do nosso tempo, da renovação da Igreja e do mundo. Nós vivemos num mundo ferido, cheio de feridas na vida pessoal, familiar e social, e, ao mesmo tempo, cínico em virtude da globalização da indiferença (insensível ao sofrimento do outro), do individualismo mais radical (que me importa?) e da cultura do descartável (do que é peso, incómodo ou não dá proveito). Um mundo assim tem necessidade de uma cura de misericórdia. De contrário, torna-se um mundo frio, árido, inóspito, inumano, injusto, violento.

O Papa Francisco alerta-nos para isso: “Sem a misericórdia temos hoje poucas possibilidades de nos inserir num mundo de feridos que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor (de cura). Por isso não me canso de chamar a Igreja à revolução da ternura.”

Sim, a Igreja precisa de ser, mais que nunca, a Casa da Ternura e da Misericórdia de Deus: Igreja de portas abertas a todos, de coração e mãos acolhedores, com o pés em movimento para se fazer próxima, ir ao encontro, levar a alegria do evangelho e do perdão, estar ao serviço de todos. É um caminho que começa por uma conversão espiritual e todos nós temos de o percorrer.

A misericórdia, caminho a percorrer e meta a alcançar

Neste sentido, os gestos de abertura do Ano da Misericórdia são ricos de significado espiritual para viver a graça do Jubileu e traçam o caminho dos fiéis ou grupos que vão em peregrinação à Porta Santa. Evoco-os brevemente.

1. A peregrinação da misericórdia rumo à Porta Santa apresenta um duplo significado: é imagem da peregrinação interior que cada pessoa realiza na sua existência – sair de casa, de si e das suas comodidades ou do egoísmo, para ir ao encontro de Deus e deixar-se abraçar pela sua misericórdia; indica também a misericórdia como meta a alcançar e caminho a percorrer mesmo com fadiga e sacrifício.

2. A abertura da Porta Santa da Misericórdia, símbolo da entrada no coração misericordioso de Deus aberto para nós no lado trespassado de Cristo na Cruz. A verdadeira Porta da Misericórdia é Cristo. Entrar por ela é “experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança.

3. O Evangeliário, símbolo de Cristo, Palavra da misericórdia incarnada que caminha à frente do seu povo. A sua Palavra é luz e guia.

4. A memória do Batismo: é um convite a ir à fonte da misericórdia onde foi derramado em nós e selado o amor entranhado de Deus que nos torna seus filhos, nos reveste da sua graça, nos conhece pelo nome e nos ama sempre e para sempre não obstante os nossos limites e pecados.

5. Memória (implícita) do sacramento do perdão: convidando  a reconhecer que somos pecadores e a receber o perdão como carícia do Pai que sempre espera por nós, que não desiste de nós,  que não se cansa de nos perdoar e nos torna capazes de também perdoar aos outros.

6. A celebração da Eucaristia, vértice da abertura do Ano Jubilar: nela celebramos a presença real de Cristo ressuscitado com todo o seu infinito amor misericordioso oferecido por nós e oferecido a nós hoje em comunhão como alimento para o caminho.

7. A visita à Mãe da Misericórdia para aprender dela a abrir o nosso coração e a viver, testemunhar e cantar o Magnificat de louvor e gratidão ao amor misericordioso que faz maravilhas.

8. Finalmente, o momento da saída: não basta atravessar a porta santa, entrar no lugar sagrado, cumprir todos os ritos e deixar-se tocar pela graça divina, É preciso prestar atenção à saída lembrando-nos que recebemos um dom e uma missão: “sede misericordiosos como o vosso Pai celeste”. Como diz o Papa Francisco: “Não se pode compreender um verdadeiro cristão que não seja misericordioso, como não se pode compreender Deus sem misericórdia”.

O amor misericordioso dos cristãos deve pois estar no mesmo cumprimento de onda de Deus Pai: deve levar à prática das obras de misericórdia na vida de cada dia ajudando os irmãos em necessidade material, social ou espiritual; deve  promover uma cultura de misericórdia na convivência social, construindo pontes de encontro, de acolhimento, de diálogo e inclusão entre as pessoas e os povos.

Maria, Mãe de ternura e de misericórdia, nos acompanhe e nos ajude a deixar que a misericórdia habite o nosso coração, se torne nosso estilo de vida e testemunho concreto para  tornar o nosso mundo mais humano e fraterno.

 

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