Património cultural da Igreja

Na sua história, o homem criou um património, legado ou herança, que reflete a sua marca nos tempos e os valores e obras que transcendem o efémero: é o património histórico-cultural.

A cultura portuguesa é marcada de uma forma indelével pela fé católica. Este caráter religioso está presente no vasto património cultural que a Igreja Católica em Portugal mantém vivo. A sustentar este património está, ao nível nacional, o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja. Na Diocese, é o Departamento do Património Cultural (DPC), como serviço da cúria, que, juntamente com os responsáveis das comunidades e das instituições, zela pelo património cultural de Leiria-Fátima.

O Presente Leiria-Fátima foi conhecer este serviço e as suas principais valências. Falámos com Marco Daniel, que está à frente do DPC há dois anos e que sublinha a impo.tância de uma maior consciência sobre a herança patrimonial da Diocese.

Num documento de 2005, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) afirma os deveres de conservação e defesa do património e, em conformidade com as normas da Igreja (cân. 1276), zelar, através dos Bispos, pela defesa dos bens culturais existentes em cada diocese. Este zelo é descrito como: completo conhecimento, guarda, conservação, restauro, utilização, valorização e empréstimo, que devem respeitar de forma cuidada a função do espaço ou objeto, bem como o valor que tem, pelo afeto à comunidade que o utiliza e é sua proprietária.

Por permanecer vivo – porque continua a ser utilizado para fins pastorais –, o património da Igreja merece um cuidado especial e uma utilização sustentável, que valorize a herança que recebeu e lhe dê continuidade nas gerações futuras.

Um serviço atento à herança diocesana

O Departamento do Património Cultural (DPC) é o serviço do bispo diocesano que exerce a sua ação ao nível das intervenções que são feitas no património da Diocese. “Qualquer agente que lide com o património, tem de pedir autorização ao Bispo para poder iniciar uma qualquer intervenção. A análise dos projetos, a emissão de pareceres e acompanhamento das obras, é umas das valências que “absorve mais tempo” a este serviço, refere o diretor do DPC, Marco Daniel. “Perante um pedido de intervenção, o Bispo pede-nos um parecer sobre a forma como a obra deve ser feita, segundo os cânones defendidos pela Igreja no tempo atual. Nesta ação de consultoria, o DPC contacta sobretudo com os agentes que participam na intervenção: pároco, comissões da igreja e os projetistas.

Uma herança humana de atenção ao Património

Desde a sua origem, o DPC tem tido na sua dinamização pessoas muito empenhadas na defesa e no estudo do património, algumas com estudos aprofundados sobre história da arte em Portugal. Marco Daniel recorda um dos patriarcas do departamento, D. Domingos de Pinho Brandão, que foi Bispo auxiliar da Diocese. “Em Leiria não se tem a noção, mas D. Domingos de Pinho Brandão é um dos homens mais importantes para o estudo da história da arte e da arqueologia em Portugal. É impossível estudar a talha dourada, sem passar pelos estudos deste Bispo. Isto sabe-se em todas as universidades onde se dá história da arte, mas na nossa Diocese não é muito conhecido.”

Aposta na formação pessoal

Num outro campo de ação, o DPC trabalha em proximidade com as pessoas que lidam com o património diocesano, promovendo uma consciencialização da importância daquela herança. Numa aposta clara na formação pessoal dos agentes que lidam com o património diocesano, o DPC vai iniciar o projeto “A comunidade e o Património”, que consiste numa jornada de formação, a decorrer em várias paróquias, através da qual se pretende sensibilizar para o valor histórico-artístico e catequético do património de cada comunidade cristã. Agendadas, estão já quatro sessões: 6 de dezembro na paróquia do Souto da Carpalhosa; 17 de janeiro na paróquia de Vermoil; 14 de fevereiro na paróquia da Azóia e 14 de março na paróquia da Sé (na igreja de Santo Agostinho).

A jornada de formação ocupará um sábado e estará divida em duas partes. De manhã, será dada uma formação básica do ponto de vista técnico a todos os que lidam diretamente com o património: sacristãos, zeladores, pessoas que ornamentam os altares. “A ideia é consciencializar estas pessoas do valor que têm nas mãos e dar-lhes formas de gerir esses mesmos materiais”, adianta o diretor do DPC.

Uma herança sustentável

A dinâmica da tarde é aberta a todos e pretende fazer uma leitura de conjunto do património do qual a referida comunidade é herdeira, consciencializando para um usufruto sustentável desse legado. “Vamos rezar com o património, isto é, vamos olhar para a imagem do padroeiro e tentar perceber que, no passado, já ali estiveram outros membros daquela comunidade que também rezaram perante ela, só assim percebemos o valor de pertencer a uma cadeia ininterrupta, que vem desde o tempo evangélico e da qual somos herdeiros.” O objetivo do encontro será o de transmitir uma ideia de sustentabilidade, “alertando cada membro da comunidade para a importância do património de que usufrui e do qual é a primeira responsável”, explica Marco Daniel.

Entrevista a Marco Daniel

Diretor do Departamento de Património Cultural da Diocese

2014-11-05 DESTAQUE Patrimonio Marco DanielMarco Daniel Duarte está, desde junho do ano passado, à frente do Departamento de Património Cultural da Diocese (DPC). É licenciado em História, doutorado em História da Arte e membro da Academia Portuguesa da História. Natural da Covilhã, sente cada vez mais Leiria-Fátima também como a sua Diocese.
A seu pedido, encontrámo-nos no Santuário Nossa Senhora da Encarnação, em Leiria. Foi ali, “num dos lugares onde o património diocesano se mostra na sua maior qualidade”, que nos contou sobre o objetivo principal que orienta a sua direção:  “através da formação, apresentar o património como um lugar que fala de Deus”.

Porquê o Santuário Nossa Senhora da Encarnação?

Se o tema da nossa conversa é o “património”, achei que este seria um dos lugares em que o património diocesano se mostra na sua melhor qualidade. A Diocese, ao contrário do que muitas vezes passa, não é pobre do ponto de vista do património artístico, cultural e histórico. Leiria-Fátima tem vários exemplos de primeira água; edificações e obras de arte que, na sua época, são espelho do melhor que se fazia e este santuário é apenas um exemplo. É um edifício importante para cidade, quer do ponto de vista simbólico quer ao nível da construção. Temos outros exemplos: a Sé de Leiria, Santo Agostinho, Santuário do Senhor Jesus dos Milagres ,assim como várias igrejas paroquiais. 

O reconhecimento da Sé de Leiria como monumento nacional contribui para uma mudança de mentalidades?

Sim, uma medida como esta tem duas vertentes. A primeira é um assinalar que estamos perante um edifício que é património nacional, ou seja, o governo assume a importância deste monumento no panorama artístico nacional. Este reconhecimento é, só por si, um motivo de interesse e de brio para um diocesano. A segunda vertente, não menos importante, é a da proteção ao edifício, que responsabiliza toda a gente – o Estado Português incluído -, que, com esta classificação, tem a obrigação acrescida de zelar por ele.

Quando falamos de património cultural da Diocese, não falamos apenas de edifícios…

De facto, há uma série de outras disciplinas artísticas que falaram e continuam a falar de Deus às comunidades: a escultura, a pintura, as artes aplicadas como são o azulejo ou a retabulária. Mesmo sem ter ainda estudado caso a caso, estou convencido de que a Diocese tem um bom núcleo de retabulária dos finais do século XVIII e princípios do século XIX. Também aqui é necessário fazer cruzar os tempos de investigação e, mesmo nas universidades, esse estudo ainda não está muito desenvolvido. Por isso, ainda não temos todas as ferramentas que nos permitam olhar para um retábulo desta época e perceber a sua importância. Nas nossas comunidades, infelizmente, passou muito a ideia de que os retábulos “bonitos” são os do século XVIII, com parras, uvas e colunas torsas. A retabulária do século XIX também é muito importante, porque tem os elementos típicos da teologia da época, e estou convencido de que, pelas visitas que já fiz a algumas comunidade da Diocese, que temos um bom núcleo deste tipo de arte. Agora, o importante é que as pessoas, que com eles convivem todos os dias, percebam que têm ali algo de importante.

Há algum património que exija uma intervenção urgente na Diocese?

Todo o património exige uma intervenção urgente. Muitas das vezes, esta intervenção não tem de passar por andaimes, mas pelo quotidiano do nosso agir. Por exemplo, na forma como manipulamos uma alfaia litúrgica antes e depois de uma celebração, estamos já a intervir no património. Este cuidado quotidiano faz com que não seja necessária uma intervenção futura mais dispendiosa. Uma vela mal posta, por exemplo, pode causar um dano irreparável para um retábulo.

Depois, temos o espólio documental que está guardado nas paróquias e que é a memória escrita da Diocese. Muitas vezes, esta documentação é considerada e tratada como papeis velhos. Isto aflige-me, porque pode significar uma perda de informação irremediável, que descredibiliza o património que temos.

Essa é uma preocupação… Que outros desafios tem encontrado desde que está à frente do DPC?

Aceitei com muito gosto o convite que o Bispo me lançou de constituir uma equipa. Do ponto de vista pessoal, posso dizer que é muito gratificante. Não posso esconder que tenho muitas angústias, sobretudo perceber que pode demorar algum tempo até conseguirmos que as pessoas tenham consciência do património que têm nas suas mãos. Um outro desafio tem sido o desfazer o mito de que é impossível congregar esforços. As exigências do património cultural não são diferentes das exigências pastorais e o argumento pastoral nunca poderá colocar entraves ao da preservação do património.

Quer deixar um recado aos que lidam diariamente com o património cultural na Diocese?

Leiam aquilo que está determinado pelo Bispo, já do tempo de D. Serafim Ferreira e Silva e, quando houver alguma dificuldade, recorram ao Bispo, que assistido pelo DPC, dará o devido aconselhamento. Deixo uma palavra de abertura em relação ao que são as necessidades de cada comunidade, paroquial ou não. Estamos disponíveis para poder aconselhar e fazer o acompanhamento necessário que estas situações exigem. Em caso de dúvida, devem sempre ligar para o DPC e nós estaremos aqui, disponíveis para ajudar. P

A requalificação de um dos símbolos da cidade

2014-11-05 DESTAQUE Patrimonio TorreA torre sineira da Sé e a antiga casa do sineiro estão em obras de requalificação. A intervenção, da responsabilidade do cabido da Catedral de Leiria e da Direção Regional de Cultura do Centro, deverá estar concluída até ao final do ano, e insere-se no projeto de recuperação das catedrais portuguesas, no âmbito da “Rota das Catedrais”. Marco Daniel elogia a “congregação de sinergias” que tornou possível esta intervenção. “O Estado está a investir em património que nem sequer é seu e a Diocese investe a outra parte. Em conjunto, conseguem-se atrair os fundos comunitários necessários para o restauro da torre, que já estava em perigo de ruir.”

 

As marcas da economia no património

“Há espaços que nem sequer são edifícios religiosos, mas que são património cultural da Igreja. Por exemplo, o antigo Paço Episcopal, que está no centro da cidade. Atualmente, serve de espaço comercial. Esta mudança faz parte do que são os interesses da própria sociedade contemporânea. A leitura teológica não é diferente da que se faz ao nível destes vestígios. Atualmente, os teólogos dizem que o grande pecado da sociedade contemporânea é o dinheiro e a questão económica. Por esta razão, nós temos algumas marcas que foram religiosas a serem suplantadas pelas marcas da economia.”

A equipa do DPC

Fruto de uma aposta constante na valorização e conservação do património cultural, a Diocese tem, neste momento, um dos mais bem apetrechados departamentos do património cultural ao nível nacional, constituído por quatro elementos. “Não há muitos departamentos nas dioceses portuguesas que tenham pessoas com formação tão específica”, sublinha o responsável pelo DPC. Para o próximo ano, está prevista a entrada de mais uma pessoa que potenciará a valência de conservação e restauro, fazendo aconselhamento e encaminhamento dos pedidos que chegarem ao departamento.

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