OS ÚLTIMOS TEMPOS

Logo de manhã, depois de arrancar a penúltima folha do meu calendário de parede, ao verificar que estávamos no fim do ano e a memória me começou a fugir para a teimosia de certos arraiais de São Silvestre, que festejam tudo menos o grande pastor da Igreja de Roma.

Logo de manhã, depois de arrancar a penúltima folha do meu calendário de parede, ao verificar que estávamos no fim do ano e a memória me começou a fugir para a teimosia de certos arraiais de São Silvestre, que festejam tudo menos o grande pastor da Igreja de Roma, que acabava de sair de uma encarniçada perseguição, por parte do poder político, para disciplinar um pouco a memória e o pensamento, tentei reconstituir aquela discussão, que era de adultos, mas que retive, sobretudo pela força com que cada um defendia a sua posição:

– No fim do mundo, no Juízo Final, ficará tudo muito mais claro.

– Qual fim do mundo? O mundo não acaba senão para quem morre!

Vieram depois os estudos de teologia e exegese bíblica: de vez em quando, aquela discussão vinha-me à mente, e fui-me apercebendo de que nem um nem outro dos contendores tinha razão; ou talvez tivessem ambos, porque, de facto, a ideia de fim do mundo, nem num caso nem no outro, em meu entender, correspondia aos conteúdos da fé sobre o assunto.

Acontece, porém, que  a minha percepção do tempo – o tempo, essa criatura de Deus que tratamos tão mal como as outras – me empurra para as palavras de São João que nos são propostas para este sexto dia da Oitava do Natal: leitura pessoal, com o máximo respeito pelo trabalho de exegetas e teólogos, mas deixando que a fé incendeie o coração, tão profundamente agradecido, que não pode deixar de ver as nuvens e as sombras, por onde às vezes se esvai, ou tenta esvair-se a alegria da novidade que brota da Ressurreição de Cristo.

Diz assim, o apóstolo que reclinou a cabeça sobre o peito do Mestre:

“Meus filhos, esta é a última hora. Ouvistes dizer que há-de vir o Anticristo. Pois bem, surgiram já muitos anticristos e por isso sabemos que é a última hora. Eles saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos. Se fossem dos nossos, teriam ficado connosco. Assim sucedeu para ficar bem claro que nem todos eram dos nossos. Vós, porém, tendes a unção que vem do Santo e todos possuís a ciência. Não vos escrevo por ignorardes a verdade, mas porque a conheceis e porque nenhuma mentira provém da verdade. (1 Jo 2, 18-21)

É sintomático que se nos mostrem como sinais de que “esta é a última hora”, a chegada do Anticristo e a vitória da verdade sobre a mentira: “nenhuma mentira provém da verdade”.

A última hora!

Última, porque não virá outra, mas última sobretudo porque nela se consuma o projecto divino de um mundo criado e restaurado, precisamente por Aquele de quem diz João: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam.” (Jo 1, 1-5).

Por isso a Páscoa é o grande acontecimento de toda a história da humanidade e a celebração central do mistério cristão. O Natal não teria qualquer sentido sem a Páscoa, e foi na medida em que nos esquecemos dela que fizemos das festas natalícias um festival consumístico, cada vez mais marcado pelas trevas de que fala o Evangelho.

Meus filhos, esta é a última hora!

Fecho os olhos à loucura com que, apesar das restrições impostas pela pandemia, famílias, comunidades e nações inteiras, preparam, dizem elas, “a chegada do ano novo”, porque tudo isso é sinal de que não se escuta o Evangelho.

Fecho os olhos a isso tudo, recuo no tempo, e revivo, por momentos, a discussão dos meus vizinhos sobre o “fim do mundo”: nenhum dos interlocutores tem razão: porque o mundo como obra de Deus nunca acaba, apenas se transforma; e ambos têm razão: porque “a figura deste mundo” (linguagem paulina), o que é obra do pecado e nos seduz, há-de transformar-se. E porque, de facto, se esta é a última hora, deixará mesmo de o ser quando essa tal transformação se operar.

Mas, mais importante que isso, se ao dizer esta hora, olho para mim e me vejo nela como protagonista, dou-me conta que dura apenas um momento, e esse é o último. Porque não sei se vou ter o seguinte. E esta sequência de últimos momentos, tão dependentes do tempo, que é tão finito como qualquer outra criatura, acabará para cada um de nós, quando se completar o mergulho na eternidade que iniciámos no Baptismo, através da Morte e Ressurreição de Cristo, que há de estender-se ao universo inteiro, criado por Ele e para Ele.

Pensando bem, as festas com que, individual e colectivamente, celebramos a passagem de ano, festas que o comércio consumístico empolga o mais que pode, chamando tradição até ao que, quando muito, nasceu ontem, se não fossem rematada loucura, seriam pura infantilidade.

E dizemos uns aos outros: feliz Ano Novo?

Mas, que Ano Novo, se teimamos em querer fazer dos últimos tempos os primeiros, repetindo os erros de sempre?

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