Obra “Retábulos na Diocese de Leiria-Fátima” valoriza património diocesano

O professor Vítor Serrão apresentou, no passado domingo, 17 de setembro, no mosteiro da Batalha, a obra “Retábulos da Diocese de Leiria-Fátima”, da autoria dos investigadores Francisco Lameira, José João Loureiro e Virgolino Ferreira Jorge.

Na sua intervenção, o historiador destacou o valor patrimonial dos retábulos não apenas como elementos do culto católico, mas também no seu significado cultural e identitário. Conhecê-lo contribui para a consciência da identidade de pertença a esta região. Deixou, por isso, a recomendação da preservação deste património e da sua valorização turística como motivo para a sua apreciação.

Os autores intervieram também para manifestarem a sua satisfação pela participação nesta obra e para agradecerem às pessoas e entidades que apoiaram e subsidiaram a sua publicação, entre as quais o Departamento do Património Cultural da Diocese de Leiria-Fátima.

Para melhor compreensão do trata, publicamos a apresentação que Vítor Serrão assina na própria obra:

 

2017-09-20 obra2

APRESENTAÇÃO

O volume n.º 15 da coleção ‘Promontoria Monográfica I História da Arte’, que vem sendo criteriosamente dedicada à retabulística portuguesa, com coordenação do historiador de arte Francisco Lameira e edição do Departamento de Artes e Humanidades da Universidade do Algarve, tem como tema o conjunto de retábulos existentes na diocese de Leiria-Fátima.

Trata-se de uma iniciativa a saudar vivamente. O volume, que conta com a colaboração dos também historiadores de arte José João Loureiro e Virgolino Ferreira Jorge, demonstra mais uma vez as qualidades que vêm norteando esta linha editorial sob todos os pontos de vista inestimável: recensear existências e perdas, estabelecer conhecimentos, analisar e descrever formas e tipologias, contribuir para a salvaguarda de alguns espécimes em estado de conservação mais frágil, recomendar cuidados preventivos e intervenções de restauro com critério científico e, em suma, valorizar um acervo patrimonial de grande interesse nacional, a nível religioso e não só.

O trabalho assenta, como sempre é apanágio nas obras dirigidas pelo Prof. Francisco Lameira, numa base de conhecimento pluridisciplinar com exigências de exaustividade. Daqui resultou, pois, um estudo de grande interesse histórico-artístico, já que, a exemplo dos anteriores volumes da série, ancora toda a sua metodologia e organização a partir da análise de um conjunto de espécimes retabulísticos seriados caso a caso, depois de um largo trabalho de levantamento de campo e de crítica das fontes documentais conhecidas. O trabalho antes realizado por investigadores como Saul António Gomes, o saudoso Jorge Estrela, Maria João Pereira Coutinho, Sílvia Ferreira, Vera Mariz, e, mais recentemente, Marco Daniel Duarte (com a sua excelente tese sobre as artes no Santuário de Fátima), sem esquecer Gustavo de Matos Sequeira no tomo de 1955 do Inventário Artístico de Portugal da Academia Nacional de Belas-Artes, entre vários outros, revelou bases de informação arquivística que se mostraram imprescindíveis para a realização deste ‘corpus’.

Neste caso, são cinquenta as peças retabulares selecionadas, do século XV ao século XX, entre as existências no espaço desta Diocese. A escolha assenta na consideração de se tratar dos testemunhos mais relevantes para caracterizar distintas fases estilísticas – desde o Gótico tardio, a que pertence o retábulo escultórico quatrocentista guardado na capela de Santo Antão (Batalha); ao testemunho cripta-artístico da fase renascentista (a que ainda pertencerá o tríptico do Museu de Leiria com pinturas atribuídas a Diogo de Contreiras); aos prenúncios do triunfalismo católico, pós-tridentino, em que se inscreve o grande retábulo-mor: da Sé de Leiria encomendado por D. Pedro de Castilho nos finais do século XVI; aos exemplares, já inexistentes, da fase protobarroca nas igrejas de São Miguel de Colmeias, São Cristóvão da Caranguejeira ou Senhora da Conceição de Vermoil; até à fase áurea do Barroco (em que se documenta a presença de um entalhador de Braga, Damião da Costa, a trabalhar no mosteiro de Santa Maria da Vitória, e se destacam alguns exemplares de qualidade acima da mediania, caso do retábulo da capela de D. Lopo de Sousa, na Batalha); sem esquecer os testemunhos retabulares do Barroco tardio (igrejas de Alvados, Minde e Vilar dos Prazeres, por exemplo); passando ainda pela segunda metade do século XVIII (Juncal, Porto de Mós, Reguengo do Fetal); e estendendo-se o escopro analítico dos autores, enfim, aos revivalismos contemporâneos (capela do Sagrado Coração de Jesus na Sé de Leiria) e ao caso interessantíssimo do retábulo cerâmico de Jorge Barradas dedicado ao milagre de Fátima.

Mas seria exaustivo descrever todas as valências deste tomo. Leia-se o livro, pois, como uma base fundamental para uma revisitação das igrejas da Diocese e para uma descoberta de alguns espécimes artisticamente muito qualificados. Porventura, os frescos tardomedievais da igreja de São Francisco de Leiria, estudados por Luís Urbano Afonso, mereceriam também uma referência como ‘caso’ a seriar, na presunção de que formam um ‘retábulo fingido’ dentro da boa tradição imagética do Outono da Idade Média.

Tudo parte – em suma – de um exaustivo e apaixonado trabalho de levantamento de campo, ancorado numa investigação formal, estilística, tipológica e comparativa que permite destacar, a par da natural presença de oficinas regionais (como o mestre leiriense Manuel Ferreira), o recurso a mestres oriundos de Lisboa e, em certos casos de tracismo mais erudito, ao labor de grandes arquitetos como Mateus do Couto e João Antunes, no século XVII, José Rodrigues Ramalho e Carlos Mardel, no século XVIII, ou o suíço Ernesto Korrodi, no século passado.

Ao todo, os autores documentam o labor de vinte e nove oficinas de entalhe ativas nas igrejas e demais casas religiosas da atual Diocese de Leiria-Fátima durante as Idades Moderna e Contemporânea. Muito se lamenta, entretanto, que uma obra de grande envergadura como era o retábulo protobarroco da capela-mar do mosteiro da Batalha, lavrado em 1641 pelo mestre lisboeta Jerónimo Correia, só possa ser hoje analisado em termos cripta-artísticos, já que sucumbiu aos critérios ‘puristas’ dominantes nos restauros do Estado Novo.

Trata-se, a concluir, de um contributo inestimável para os saberes do património histórico-artístico nacional no que à retabulística diz respeito. Ao mesmo tempo que se saúdam os autores pelo esforço de descobrimento, estudo e investigação que levaram a cabo, louva-se o espírito de missão com que as tutelas dos bens religiosos encaram a presença destas mais-valias, encaradas não só como peças de culto mas como obras de arte que, antes de tudo, elas são.

Vítor Serrão,

ARTIS – Instituto de História da Arte, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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