“O vírus da desigualdade”: ricos mais ricos, pobres mais pobres

Todos os anos somos confrontados com os inacreditáveis números que espelham o fosso cada vez mais pronunciado entre ricos e pobres. Todos os anos esses mesmos números são notícia durante algumas horas, até serem facilmente substituídos por informações “mais importantes”. E completamente esquecidos.

Todos os anos somos confrontados com os inacreditáveis números que espelham o fosso cada vez mais pronunciado entre ricos e pobres. Todos os anos esses mesmos números são notícia durante algumas horas, até serem facilmente substituídos por informações “mais importantes”. E completamente esquecidos. Este ano, e mesmo com o impacto violento que a Covid-19 está a ter nos mais vulneráveis, poucos foram os meios que difundiram os dados recolhidos pela Oxfam, a entidade responsável pelo seu apuramento e divulgação. Mas depois de lido o relatório, fica a saber-se, entre outras coisas, que as fortunas multimilionárias regressaram aos seus máximos pré-pandémicos em apenas nove meses, ao mesmo tempo que se estima que a recuperação dos (novos) pobres possa levar mais de uma década a ser atingida
POR
HELENA OLIVEIRA

Desde que há registos e devido à pandemia do novo coronavírus, esta poderá vir a ser a primeira vez que o aumento da desigualdade atinge quase todos os países do mundo ao mesmo tempo. Sem dar tréguas, o vírus expôs e aumentou as desigualdades existentes em termos de riqueza, género e raça. Todavia, e com as mortes a aproximarem-se dos dois milhões e quinhentos mil, com centenas de milhões de pessoas a serem puxadas para os terrenos movediços da pobreza, são muitos os que pertencem ao clube dos mais ricos – indivíduos e empresas – que estão a prosperar. Na verdade, as fortunas multimilionárias regressaram aos seus máximos pré-pandémicos em apenas nove meses, ao mesmo tempo que se estima que a recuperação dos mais pobres possa levar mais de uma década a ser atingida.

Em termos muito gerais, estas são as principais conclusões do relatório apresentado pela organização sem fins lucrativos Oxfam em finais de Janeiro último, em Davos, e adequadamente intitulado como “O vírus da desigualdade”. O relatório mostra também que este aumento de desigualdade significa que o número de pessoas que vivem na pobreza pode levar pelo menos 14 vezes mais tempo a regressar aos níveis que precederam a pandemia comparativamente ao tempo necessário para que as fortunas das mil pessoas mais ricas do mundo, na sua maioria homens brancos, recuperem. Adicionalmente, o aumento da riqueza combinada dos 10 multimilionários mais ricos do planeta desde o início da crise seria mais do que suficiente para evitar que qualquer pessoa no mundo caísse na pobreza por causa do vírus, ao mesmo tempo que chegaria para pagar uma vacina Covid-19 a toda a população mundial.

Em simultâneo, foi igualmente realizado um inquérito global a 295 economistas de 79 países, encomendado pela Oxfam, o qual revela que 87% dos inquiridos, incluindo Jeffrey Sachs, Jayati Ghosh ou Gabriel Zucman, esperam um “aumento” ou um “grande aumento” da desigualdade de rendimentos no seu país como resultado da pandemia. Mais de metade dos economistas inquiridos acredita igualmente que a desigualdade de género aumentará provavelmente ou “muito provavelmente”, com mais de dois terços a pensar o mesmo no que respeita à desigualdade racial. Dois terços dos respondentes consideraram também que os seus respectivos governos não apresentaram ainda qualquer plano para combater esta desigualdade crescente.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) já expressaram igualmente a sua preocupação de que a pandemia venha a aumentar a desigualdade em todo o mundo, com efeitos profundamente prejudiciais.

Por seu turno, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, compara este vírus da desigualdade “Covid-19” a um raio-X, que revela as fracturas existentes no esqueleto frágil das sociedades que construímos, ao mesmo tempo que está a expor falácias e falsidades presentes em todo o mundo. “A mentira de que os mercados livres podem prestar cuidados de saúde para todos; a ficção de que o trabalho não remunerado não é trabalho; a ilusão de que vivemos num mundo pós-racista; o mito de que estamos todos no mesmo barco. Enquanto estamos todos a flutuar no mesmo mar, é evidente que alguns estão em super-iates, enquanto outros estão agarrados aos destroços à deriva”, acusa.

Vejamos as principais conclusões a que chegaram os analistas da Oxfam.

O mundo ficou ainda mais profundamente desigual

A crise do coronavírus varreu um mundo que já era extremamente desigual. Um mundo onde um pequeno grupo de cerca de dois mil milionários possuía mais riqueza do que aquela que seria possível gastar-se em mil vidas. Um mundo onde quase metade da humanidade tem sido obrigada a sobreviver com menos de 5,50 dólares por dia. Um mundo onde, durante 40 anos, o 1% mais rico ganhou mais do dobro do rendimento comparativamente à metade mais pobre da população mundial. Um mundo onde o 1% mais rico consumiu o dobro do carbono que os 50% da população com menores rendimentos durante o último quarto de século, conduzindo à destruição do clima. Um mundo onde o fosso crescente entre ricos e pobres se baseou e exacerbou as desigualdades antigas de género e raça. Este era o estado do mundo em 2019, antes de ter sido atingido pela pandemia.

Esta desigualdade extrema significa que milhares de milhões de pessoas já estavam a viver no limite quando a pandemia deflagrou, não tendo, por isso, quaisquer recursos ou apoios para resistir à tempestade económica e social que a mesma criou. Traduzida em números, esta desigualdade cifra-se em mais de três mil milhões de pessoas sem acesso a cuidados de saúde, em três quartos dos trabalhadores a não terem acesso à protecção social como o subsídio de desemprego ou o subsídio de doença, sendo que, nos países de baixo e médio rendimento, mais de metade dos trabalhadores encontrava-se já num estado de pobreza “activa”.

O vírus tornou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres

Nos primeiros meses da pandemia, os mercados bolsistas sofreram uma queda significativa e foram muitos os multimilionários que sofreram reduções dramáticas na sua riqueza. No entanto, este retrocesso foi de curta duração. Em nove meses, os mil maiores multimilionários do mundo, na sua maioria homens brancos, tinham já recuperado toda a riqueza perdida. Com um apoio sem precedentes dos governos às suas economias, os mercados accionistas têm vindo a crescer, aumentando a riqueza dos mais ricos, ao mesmo tempo que a economia real enfrenta a recessão mais profunda dos últimos 100 anos. De sublinhar igualmente que, após a crise financeira de 2008, foram necessários cinco anos para que a riqueza “multimilionária” voltasse aos seus máximos pré-crise.

De acordo com as estimativas da Oxfam, em todo o mundo, a riqueza destes multimilionários aumentou em 3,9 triliões de dólares – sim, leu bem -, entre 18 de Março e 31 de Dezembro de 2020. A sua riqueza total ascende agora a 11,95 triliões de dólares, valor equivalente ao que os governos dos países pertencentes ao G20 gastaram em resposta à pandemia. Por seu turno, os 10 homens mais ricos do mundo viram a sua riqueza aumentar colectivamente em 540 mil milhões de dólares durante o mesmo período.

A título de exemplo, e quando as viagens comerciais foram restringidas ou proibidas, dispararam as vendas mundiais de jactos privados. E, de país para país, os dados não diferem: os mais ricos são os menos afectados pela pandemia, os mais rápidos a ver a sua fortuna recuperar, continuando também a ser os maiores emissores de carbono e os maiores impulsionadores da ruptura climática.

Enquanto isso e ao mesmo tempo, o maior choque económico desde a Grande Depressão deu origem à perda de centenas de milhões de empregos em todo o mundo, aumentando substancialmente a fome e a miséria e invertendo o declínio da pobreza global a que tínhamos vindo a assistir ao longo das últimas duas décadas.

Estima-se que o número total de pessoas que vivem na pobreza poderá ter aumentado entre 200 milhões a 500 milhões em 2020 e, como já anteriormente referido, não se espera que o regresso ao nível pré-pandemia possa ser atingido ao longo da próxima década. Neste momento, quase metade da população mundial – cerca de 3,3 mil milhões de pessoas -, vive com menos de 5,50 dólares por pessoa por dia, e 1,8 mil milhões vivem com menos de 3,20 dólares. Foram perdidos globalmente cerca de 10% dos rendimentos, com as maiores perdas a terem lugar nos países de rendimento médio, valor que poderá conduzir a um acréscimo de mais 250 milhões de pessoas a viverem com menos de 5,50 dólares por dia, e mais 290 milhões a viver com menos de 3,20 dólares diários.

A pandemia contribuiu também para expor ainda mais o facto de que a maioria dos cidadãos do mundo vive apenas a “um salário” da penúria, sobrevivendo com valores que variam entre os dois e os 10 dólares diários. E se antes da crise conseguiam “ir sobrevivendo” ao mesmo tempo que imaginavam um futuro melhor para os seus filhos, a pandemia veio não só agravar as suas condições de miséria, como muito provavelmente matar qualquer sonho que pudessem ainda ter para os seus descendentes. Entre os mais afectados pela perda de emprego decorrente da pandemia encontram-se – em particular nos países de baixo e médio rendimentos – os taxistas, os cabeleireiros, os vendedores dos mercados, os seguranças, os trabalhadores da área das limpezas, os trabalhadores das fábricas ou os agricultores, entre vários outros. E uma outra realidade exposta a nu pela crise do coronavírus é a de que, para a maior parte da humanidade, nunca existiu uma verdadeira saída da pobreza e da insegurança. Ao invés, talvez tenha existido, para alguns e na melhor das hipóteses, um adiamento temporário da sua extrema vulnerabilidade.

Como refere a Oxfam, não faz – ou não devia fazer – simplesmente qualquer sentido comum, moral ou económico permitir que os multimilionários possam beneficiar da crise face a um sofrimento de tão gigantescas proporções. Se o mundo fosse justo, a sua crescente riqueza deveria ser utilizada para enfrentar esta crise, para salvar milhões de vidas e milhares de milhões de meios de subsistência.

Os governos ainda têm a hipótese de inverter este aumento brutal na desigualdade

Se o aumento da desigualdade é já um dado adquirido, a sua extensão e a rapidez com que poderá ser reduzida dependerá da escolha dos governos de todo o mundo. De acordo com o Banco Mundial, mais 501 milhões de pessoas continuarão a viver com menos de 5,50 dólares por dia em 2030 se os governos permitirem que a desigualdade aumente apenas dois pontos percentuais por ano. Pelo contrário, se os governos optarem por agir para reduzir a desigualdade em dois pontos percentuais por ano, poderemos voltar aos níveis de pobreza anteriores à crise dentro de três anos, e menos 860 milhões de pessoas viverão na pobreza até 2030. Ou seja, e de acordo com as estimativas do Banco Mundial, se os países agirem agora, a pobreza poderá voltar aos níveis anteriores à crise em apenas três anos e não num período superior a uma década, como indicam os dados para o caso em que nada for feito.

Para além do gigantesco fosso, em termos de impacto da pandemia, no que respeita aos ricos e pobres, os efeitos colaterais da Covid-19 têm atingido muito mais seriamente as mulheres, os negros, os afro-descendentes, os povos indígenas e as comunidades historicamente marginalizadas e oprimidas em todo o mundo. As mulheres, em particular, apresentam um risco muito maior de perder os seus empregos face aos homens.

No que diz respeito à saúde, o coronavírus expôs os piores efeitos de sistemas de saúde públicos mal equipados e mal financiados, bem como falhas nos sistemas privados a que só têm acesso os mais ricos, quando confrontados com uma crise como esta. E, obviamente, a probabilidade de se morrer de Covid-19 é significativamente maior se se for pobre ou se se pertencer a uma comunidade negra ou indígena. Por exemplo, no Brasil, se a taxa de mortalidade dos afro-descendentes fosse similar à dos brasileiros brancos, os dados apontam para que em Junho de 2020 mais de 9,200 afro-descendentes não tivessem sucumbido ao vírus.

Em termos de educação e em 2020, mais de 180 países fecharam temporariamente as suas escolas, deixando cerca de 1,7 mil milhões de crianças e jovens sem acesso ao ensino quando os encerramentos atingiram o seu auge. Todavia, e em média, a pandemia privou as crianças dos países mais pobres de quase quatro meses de escolaridade, em comparação com seis semanas para as crianças de países de elevado rendimento. Estima-se que a pandemia inverterá igualmente os ganhos dos últimos 20 anos de progresso global na educação, em particular das raparigas, resultando num consequente aumento da pobreza e da desigualdade.

Por fim, o impacto no trabalho e nas vidas das pessoas tem sido igualmente preocupante. Para além das centenas de milhões de empregos que foram já perdidos, o Índice do Compromisso de Redução da Desigualdade (CRI, na sigla em inglês) da Development Finance International mostra que 103 países entraram na pandemia com pelo menos um em cada três dos seus trabalhadores a não terem quaisquer direitos laborais ou protecções sociais, de que são exemplo o subsídio de desemprego ou o subsídio de doença.

Ou seja, a pandemia expôs brutalmente as desigualdades existentes no sistema de trabalho em quase todo o mundo, Por exemplo, enquanto 90% dos trabalhadores dos EUA no quartil superior do rendimento têm direito a licença por doença paga, apenas 47% do quartil inferior têm o mesmo direito. Nos países de baixo rendimento, 92% das mulheres trabalham em empregos informais, perigosos ou inseguros. O coronavírus levou também a uma explosão na quantidade de trabalho relacionado com os cuidados a terceiros, mal remunerado e não remunerado, que é feito predominantemente por mulheres e, em particular, por mulheres de grupos que enfrentam a marginalização racial e étnica.

Em suma, esta perda catastrófica de rendimentos aliada à inexistência de protecção social levou a uma explosão terrível da fome. E as estimativas são por demais ilustrativas: em 2020, os dados apontam para que tenham morrido de fome e por dia, cerca de seis mil pessoas.

Se a crise expôs a nossa fragilidade colectiva e a incapacidade da nossa economia profundamente desigual de trabalhar para todos, também nos mostrou a importância vital da acção governamental para proteger a nossa saúde e os nossos meios de subsistência. As políticas transformadoras que pareciam impensáveis antes da crise demonstraram subitamente ser possíveis. Não pode haver retorno ao ponto em que estávamos antes. Em vez disso, os cidadãos e os governos devem agir em consonância com a urgência de criar um mundo mais igual e sustentável.

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