O SEGREDO DE FÁTIMA

Esta madrugada, porém, após uma segunda leitura dos textos que nos são propostos, senti que se escrevesse apenas como quem pensa em voz alta, sem querer ensinar seja o que for, sobretudo quando há tanta gente a falar de Fátima, eu podia também fazer deste tema o que tenho vindo a fazer com outros, oferecendo algum texto a quem queira aceitar a minha partilha.

Há um bom par de anos que tomei a decisão de não escrever mais nada sobre Fátima. Alguns dos meus amigos sabem porquê, e quem quiser perder tempo mexendo nos meus papéis mais antigos, poderá facilmente compreender, não direi as razões, seria talvez demasiado presunçoso, mas as motivações de tal decisão.

Esta madrugada, porém, após uma segunda leitura dos textos que nos são propostos, senti que se escrevesse apenas como quem pensa em voz alta, sem querer ensinar seja o que for, sobretudo quando há tanta gente a falar de Fátima, eu podia também fazer deste tema o que tenho vindo a fazer com outros, oferecendo algum texto a quem queira aceitar a minha partilha.

Junto, como faz a liturgia, figuras que talvez devêssemos meditar com mais frequência, em contextos diferentes dos habituais: a mulher em luta com o dragão e a felicidade de quem ouve a palavra de Deus e a põe em prática.

Como faz a liturgia, mas pensando mais em Fátima do que habitualmente se faz e talvez com um sentido mais bíblico.

À primeira vista, parece que estas leituras falam de Nossa Senhora, e poderia pensar-se que ao proclamá-las hoje, se trata de dar uma visão grandiosa ao fenónimo das aparições. Em meu entender, isso reduz, ao mesmo tempo, o significado dos textos e de Fátima, se a queremos ver no seu significado global.

Ora, se não estou em erro, directamente, o Apocalipse fala da Igreja e São Lucas do comum dos crentes.

Já sabemos que, pelo menos o terceiro evangelho, tem em mente que Maria é mais feliz pela fé que viveu do que pela sua maternidade, que, aliás, como intuiu Santo Agostinho, não se pode separar da sua fé; mas, de facto, as palavras de Jesus não se devem encerrar num contexto tão estreito: mais uma vez, Maria é referida indirectamente, porque melhor e mais do que ninguém, escutou e pôs em prática a palavra de Deus: Maria, figura da Igreja e do crente, por antonomásia, e da luta que travam, segundo a promessa do Génesis, contra a serpente, figura mítica do Mal, em todos os sentidos desta palavra. Claro. Não falo dos males, que muitas vezes são coisas boas que achamos más: falo do Mal, o mistério de tudo o que na criação se opõe aos desígnios do Criador e a que damos normalmente o nome de pecado.

A fé, a projecção do homem no sobrenatural, que, no mundo histórico, que é o único que conhecemos, em todas as grandes figuras bíblicas e extra bíblicas, está intrinsecamente ligada à consciência e rejeição do pecado.

É aqui que descubro a perene novidade de Fátima; e é relacionado com isto que falo do “segredo de Fátima”; segredo que não tem nada a ver com revelações extraordinárias, cuja existência no que costumamos designar por mensagem de Fátima tem um valor muito escasso; pelo menos, em meu entender, muito menor do que a importância que se lhe tem dado.

Para mim, sem querer impor isto a ninguém, o segredo de Fátima, descubro-o no rosto sofredor das três crianças, que ao primeiro pedido de Nossa Senhora responderam, com uma prontidão já de si extraordinária: “Sim, queremos!”

E queriam, o quê?

Oferecer-se a Deus como almas reparadoras.

Maria promete-lhes que irão ter muito que sofrer, ainda que junte também a promessa do seu amparo.

Deixem-me pensar o que penso, ainda que porventura pareça exagerado: sem este diálogo inicial de Nossa Senhora com os videntes, Fátima não teria qualquer sentido; até as proporções que adquiriu, mesmo como santuário, seriam de tal modo incompreensíveis, que justificariam algumas das observações mais absurdas daqueles que não acreditam no sobrenatural.

Já se disse e com razão, que Nossa Senhora não veio pedir mais um santuário em sua honra: se quisermos manter a metáfora, o que ela veio pedir foi que reconstruíssemos o santuário que é cada um de nós, e que ajudássemos os outros a reconstruir o seu, acabando todos a reconstruir o mundo, a criação inteira, como obra e espaço de manifestação de Deus, em diálogo permanente com o homem.

E tudo isto, pede-o a Senhora, ou Deus por meio dela, através do testemunho de três crianças, que vivem heroicamente a fidelidade ao seu “sim queremos” inicial.

O pecado, a graça, e o amor dos que, com esta, lutam por todos os meios pela erradicação daquele.

Eis, quanto a mim, o real segredo de Fátima!

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