O Património como riqueza pastoral: “A beleza e a transmissão da fé”

O património religioso representa, valoriza e transmite os conteúdos da fé, da revelação divina e da tradição da Igreja, uma riqueza pastoral tantas vezes ignorada ou desaproveitada. A propósito de uma formação que está a ser promovida pelo Departamento do Património Cultural e pelo Serviço Diocesano de Catequese de Leiria-Fátima, fomos aprofundar o assunto.

 

 

Quando ouvimos falar em “património”, talvez a primeira ideia que nos ocorra seja a do valor económico do que possuímos. No contexto eclesial, sabemos também que a expressão representa um legado artístico em edifícios e obras de arte que, além do seu valor material, constitui parte da riqueza espiritual identitária e histórica de uma comunidade.

A verdade é que o património religioso é ainda mais do que tudo isso, na medida em que representa, valoriza e transmite os conteúdos da própria fé, da revelação divina e da tradição da Igreja. É uma riqueza pastoral tantas vezes ignorada ou desaproveitada.

A propósito de uma formação que está a ser promovida pelo Departamento do Património Cultural (DPC) e pelo Serviço Diocesano de Catequese (SDC) de Leiria-Fátima, fomos aprofundar este assunto, acompanhando uma das sessões e entrevistando Marco Daniel Duarte, director do DPC.

 

2016-03-22 patrimonio2Formação liga arte com catequese

Objectos e imagens que falam de fé

“A beleza e a transmissão da fé” é o mote da acção de formação organizada pelos serviços diocesanos da Catequese e do Património, com o objectivo de “sensibilizar para a importância do património cultural na transmissão da fé e dotar os catequistas de ferramentas básicas de análise desse património”. Iniciada neste ano pastoral, aconteceu já na vigararia dos Milagres, a 29 de janeiro, e na vigararia da Batalha, a 26 de Fevereiro. Nova sessão está agendada para a vigararia de Monte Real, no próximo dia 22 de Abril, das 21h00 às 23h00.

Acompanhámos o encontro no salão paroquial da Batalha, onde participaram cerca de uma centena de pessoas, sobretudo catequistas, das várias paróquias desta vigararia. Integrado na temática diocesana para este ano, começou pelo aprofundamento do tema “A beleza de Maria, Mãe de Ternura e de Misericórdia”. Um segundo momento foi a apresentação de como “Anunciar a fé a partir do património histórico-artístico da minha paróquia”.

Além de algumas “dicas” práticas sobre a importância e a preservação do património artístico e religioso das comunidades, o ponto fulcral foi a descoberta de como se pode fazer catequese a partir das imagens. Aliás, esse era um método antigo usado pelos cristãos para transmitir as verdades da fé e a “doutrina” a muita gente que não sabia ler ou escrever: as esculturas, pinturas e outros objectos de arte sacra continham expressos os principais dados e significados da história da salvação, tal como são revelados na Bíblia e na Tradição da Igreja. Um exemplo dado foi o do retábulo da igreja de Santo Antão, onde estão representadas as várias cenas da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, e que serviu como verdadeira catequese para muitos dos nossos antepassados.

“Mãos na massa”

Com esse objectivo, os participantes foram desafiados a um trabalho prático, a partir de imagens concretas das diversas paróquias da vigararia. “O objectivo principal não é dizer coisas importantes, mas descobrir um método de trabalho”, referia Marco Daniel, director do DPC, que conduziu a sessão. Assim, por grupos, olhando uma imagem impressa, os catequistas preencheram uma “ficha de trabalho” onde procuravam identificar, em primeiro lugar, as características físicas da peça, como os materiais de que é feita, a sua designação, os elementos nela representados e para que serve no contexto da decoração ou culto na igreja. Depois, a resposta a outras perguntas: que verdades da fé podemos encontrar representadas neste objecto? Como nos pode ajudar a transmitir essas verdades na catequese? Em que ocasião seria útil a sua utilização? Que tipo de dinâmica poderemos utilizar para a integrar na catequese?

A verdade é que muitos dos presentes nunca tinham colocado a hipótese de um quadro, um cálice ou uma custódia poderem ser uma ajuda para “mostrar” conteúdos na catequese. Mas foi fácil chegarem à conclusão de que um Anjo Gabriel pode ser usado para falar da Anunciação no Advento, um Cálice com motivos da Paixão para abordar a Eucaristia durante a Quaresma ou Corpo de Deus, uma Nossa Senhora dos Remédios para a apresentar na festa da paróquia como medianeira de Cristo, o remédio por excelência para todos os nossos males. E por aí fora, com um S. Jorge que triunfa sobre o sofrimento e a morte, uma custódia-cálice que centra os olhares sobre a Comunhão, um painel de azulejo que mostra a descida do Espírito Santo, um painel da coroação de Nossa Senhora que aponta a glória da Igreja celestial. Quanto às dinâmicas, o uso das imagens como puzzle a montar pelos catequisandos, como fonte de inspiração para um teatro, como parte de um jogo “quem é quem”, ou simplesmente como ilustração concreta do tema, foram algumas das ideias encontradas.

“Há tantos anos que olho para esta imagem lá na igreja e nunca tinha visto tantos pormenores interessantes que nela estão presentes”, comentava alguém. “Só por essa descoberta já valeu a pena esta sessão”, comentava Marco Daniel. E, de facto, o testemunho dos catequistas no convívio final, enquanto partilhavam um chá e uns doces, era o de que “às vezes temos as coisas debaixo dos olhos e não as vemos”. O valor simbólico e catequético da arte sacra é apenas um exemplo. Para estes catequistas, poderá passar a ser, a partir de agora, mais uma “ferramenta” de trabalho pastoral.

 

2016-03-22 patrimonio3Entrevista a Marco Daniel Duarte

“Seremos também avaliados
pela forma como tratámos o património”

A propósito desta iniciativa de formação, entrevistámos Marco Daniel Duarte, director do Departamento do Património Cultural. Afirma-se satisfeito com a adesão e o interesse manifestado pelos catequistas, mas reconhece que nem sempre têm noção do que implica preservar e valorizar o património, pelo que é necessária mais formação nesta área. A maior descoberta destas ações, diz, é “percebemos como é possível transmitir o conteúdo doutrinal do catolicismo através das obras de arte que existem na «minha» paróquia”.

Como surgiu a ideia de uma formação sobre o património específica para catequistas?

Da consciência de que os catequistas são agentes muito importantes na transmissão da fé e de que a eles se deve a educação das camadas mais novas das nossas comunidades. É importante formar para o amor ao património que os antepassados nos deixaram.

Quais são os principais objectivos?

Levar os catequistas a ler o património histórico-artístico como lugar de transmissão da fé e, ainda, valorizar esse mesmo património como marca identitária da comunidade que em seu torno se congrega. É na igreja, com aquelas pinturas e esculturas, com aqueles vitrais, com aqueles retábulos e azulejos que a comunidade se reúne para celebrar e para se olhar a si própria como comunidade cristã.

Como tem sido a adesão à proposta?

Excelente. Não poderíamos estar mais satisfeitos. Os catequistas, nesta diocese, têm sido muito estimulados para estarem atentos à formação, pelo que notamos que estão muito dispostos a aprender.

Pelo que tem observado, estão despertos para a importância da arte sacra como “valor” patrimonial e espiritual das comunidades?

Nalguns casos sim e noutros não. Mas sentimos que o tema lhes é natural, isto é, todos concordam que o património deve ser conservado.

Há uma noção mínima dos cuidados a ter na sua preservação e promoção?

Infelizmente, não tanto como seria desejável. Tentamos transmitir conselhos muito práticos sobre como agir perante um conjunto patrimonial histórico e alertar para os perigos que quotidianamente estão presentes e podem afetar o património.

Mas têm consciência de que a arte sacra funcionou ao longo de séculos e pode continuar a funcionar como “instrumento catequético”?

A nossa transmissão da fé tem passado mais pelo recurso a ilustrações e menos pelo espólio artístico do passado; ou então por imagens que nos estão mais distantes, que vêm nos livros e que nos habituámos a ver como instrumentos para a catequese. A surpresa aparece quando, nos exercícios práticos, percebemos como é possível transmitir o conteúdo doutrinal do catolicismo através das obras de arte que existem na “minha” paróquia. Essa é a grande descoberta destas formações. E os catequistas reagem muito bem!

É uma descoberta fácil?

A maior dificuldade reside nas chaves de leitura que são necessárias para interpretar, visualmente, as representações contidas, por exemplo, numa pintura, num turíbulo ou no portal da igreja; mas, depois da formação, com o guião de leitura que preparámos, os catequistas descobrem as múltiplas potencialidades deste património. E as abordagens podem passar por uma componente mais lúdica, por uma componente mais analítica ou até mesmo contemplativa.

E há uma “apetência natural” para esse trabalho, ou é necessária mais formação?

Há, sem dúvida, necessidade de mais formação. Mas devo dizer que os catequistas estão disponíveis. Temos na nossa diocese leigos muito empenhados na missão que lhes foi entregue. E, é claro, quanto mais formação bíblica e religiosa têm, mais facilmente apreendem os conteúdos das obras de arte. Por essa razão, o Departamento do Património Cultural ficou encarregado de lecionar um módulo no Curso Geral de Catequistas. Sem a colaboração do Serviço Diocesano de Catequese estas formações não seriam possíveis, pelo que esta formação se torna também estimulante na interação entre os departamentos de pastorais diversas, mas com o mesmo objetivo: servir a Cristo e ao seu Evangelho.

O que acha mais urgente fazer para a continuidade deste trabalho e para que dê frutos?

Que todos sintamos que, tal como para as nossas casas queremos o melhor, também para a casa de todos (que é a Igreja) devemos querer o melhor. Assim, temos de continuar a investir na formação, a fim de todos ganharmos essa consciência e esse carinho pelo património que herdámos e pelo que vamos deixar. No futuro, seremos também avaliados pela forma como tratámos o património. É nesse sentido que o departamento – uma equipa muito jovem, pluridisciplinar e muito entusiasmada – procura agir.

Há uma calendarização definida para esta iniciativa ou outras similares no futuro?

No dia 22 de abril estaremos na vigararia de Monte Real e, no próximo ano, esta formação pode ainda ser requisitada por outras vigararias que este ano não tiveram oportunidade de convocar os catequistas para este tema. Estamos também empenhados em chegar aos membros dos Conselhos Paroquiais para os Assuntos Económicos (este ano houve já uma formação em comum com a Administração Diocesana) para avivar a consciência sobre o património que têm de ajudar a gerir. No próximo ano, talvez consigamos propor uma maleta de materiais pedagógicos preparados a partir do património diocesano.

Entrevistado completa as frases:

O património da Diocese de Leiria-Fátima é… testemunho das vivências das comunidades que, ao longo do tempo, neste território específico, viveram e vivem o Evangelho de Cristo.

Os catequistas e outros agentes pastorais precisam de saber que… também na sua paróquia há património de qualidade que merece ser amado para que seja legado às gerações futuras.

Quando olho para uma escultura ou pintura numa igreja, procuro ver… o conteúdo que as suas formas artísticas transmitem.

 

Anexo

Normas sobre o Património Cultural

Reconhecendo no património cultural que as gerações precedentes nos legaram, tesouros que nos cumpre cuidar e transmitir às gerações vindouras, enquanto expressão artística e poética da alma crente das gentes da nossa Diocese;

Verificando, na contemplação estética das obras de arte sacra, um precioso meio para a abertura do homem à transcendência, e um caminho para o diálogo com a cultura actual que importa desenvolver;

Desejando que os novos espaços eclesiais e bens móveis sirvam, cada vez mais, para elevar o espírito humano para os mistérios sublimes que celebramos, e exprimam, cada vez melhor, a dignidade e a nobreza da Comunidade reunida em Nome do Senhor;

Havemos por bem determinar quanto se segue:

1. Disposições gerais

1.1. Fazem parte integrante do património cultural diocesano todos os lugares de culto e outros edifícios ou monumentos, bem como os bens móveis, relíquias, livros, documentos e outros objectos com valor histórico, artístico ou devocional, tutelados pelo Bispo Diocesano;

1.2. Para melhor conservação, estudo e segurança, o património deve estar inventariado e o inventário actualizado pelas entidades proprietárias ou depositárias;

1.3. As obras de construção, adaptação, restauro ou beneficiação dos bens imóveis (e áreas envolventes) e bens móveis da Diocese, bem como a sua alienação, eventual demolição, cedência e empréstimo, só se poderão efectuar depois de autorização pedida, e concedida por escrito pelo Bispo Diocesano.

Início do documento “Normas gerais sobre o Património Cultural”,
de 4 de Dezembro de 2002, do bispo D. Serafim de Sousa Ferreira e Silva.

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