Nossa Senhora de Fátima em Roma – como foi?

Marco Daniel, o “guardião” da imagem de Fátima, conta-nos como viveu – intensamente – a participação na Jornada Mariana do Ano da Fé, em Roma: “Momentos fortes foram tantos, que é difícil sintetizar”.

 

“Emoções, muitas”. É a primeira frase de Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima, quando lhe perguntamos se é possível resumir a experiência que foi acompanhar a imagem da Capelinha das Aparições na Jornada Mariana de Roma, nos passados dias 12 e 13 de outubro.

As imagens correram pelas televisões do mundo – curiosamente, com pouco interesse pelas portuguesas – e muitos textos se escreveram nos jornais e em páginas da internet. Quase todos saberão como decorreu este grandioso evento eclesial, mas o Gabinete de Informação e Comunicação da diocese de Leiria-Fátima foi à procura de uma perspetiva diferente, recolhendo o testemunho deste elemento da comitiva de nove pessoas que foi de Fátima ao Vaticano.

 

A chegada

“Cada momento foi repleto de emoção e de especial significado para quem participou nestas jornadas, especialmente para os que fomos acompanhar a imagem desde Fátima e durante todo o programa até ao seu regresso”, refere Marco Daniel.

Uma das suas funções no Santuário é, precisamente, a guarda e conservação desta escultura. “Uma missão bela e de grande responsabilidade”, dir-lhe-ia o Papa Emérito Bento XVI, à chegada ao Vaticano, e daí a umas horas o repetiria o Papa Francisco. E os serviços do Vaticano foram “inexcedíveis no respeito por essa função em todos os momentos, seguindo as indicações e facilitando o trabalho dos responsáveis pelo transporte, colocação e preservação desta preciosa imagem.

O primeiro momento marcante, embora sem grande aparato e ainda longe das multidões, foi a receção no aeroporto do Vaticano por monsenhor Rino Fisichella e mais alguns membros do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, responsável pela organização desta jornada.

Marco Daniel conta: “Estava já formada uma procissão para acompanhar a imagem aos aposentos de Bento XVI, um espaço reservado e de grande intimidade, ao cimo de cuja escadaria nos esperava o próprio Papa Emérito, com uma pequena comitiva. Foi significativo, depois de Nossa Senhora o ter acolhido no Santuário de Fátima, ser agora a sua vez de a acolher no seu mosteiro. Cumprimentou-nos, um a um, e convidou-nos a seguir para a capela da casa, onde a imagem foi colocada ao centro. Bento XVI presidiu a uma oração mariana breve, mas muito expressiva, em que ele próprio fez as leituras e começou os cânticos, a que se juntavam as pouco mais de uma dezena de pessoas que o acompanharam. No final, aproximou-se da imagem e agarrou-se a ela com uma expressão de enorme afeto e devoção. Impressiona-me sempre esta relação física que os vários Papas estabelecem com esta escultura, sinal bem evidente da sua representatividade para a devoção mariana na Igreja”.

Dali, a imagem foi levada para a capela da Casa de Santa Marta, em cortejo processional, onde se realizou novo momento de oração.

 

Primeiro “banho” de multidão e de emoções fortes

Outro momento especial foi o primeiro contacto com a grande multidão, ao final da tarde. “Imaginei uma grande procissão, mas o ‘giro’ – como lhe chamam – pela praça de S. Pedro superou todas as minhas expectativas. O serpentear pelo meio da multidão foi demorado e longo, permitindo a todas as pessoas verem de perto a imagem, enquanto se cantava o Avé de Fátima. Pessoas emocionadas, algumas mais contidas, outras manifestando exuberantemente a sua devoção, com louvores ou pedidos em alta voz, umas a chorar, outras a gritar louvores a Maria. Comprovei o que já tinha intuído: a Igreja tem muitas imagens históricas de grande relevo, mas esta da Capelinha da Aparições será um dos mais importantes ícones do catolicismo atual. As pessoas entendem que é apenas uma imagem, mas olham-na de forma especial, vendo nela a expressão da presença de Maria e da mensagem que veio trazer a Fátima, intimamente ligada à meditação dos mistérios de Cristo”.

Esta empolgante manifestação de fé foi especialmente comovente quando, a certo ponto da praça, a procissão parou, os cânticos cessaram e uma voz anunciou que a imagem de Nossa Senhora estava no preciso ponto em que se dera o atentado ao Papa João Paulo II, a 13 de maio de 1981. Ecoou no recinto a memória das palavras do próprio Papa sobre esse acontecimento, em que “a mão de Maria desviou a bala” e permitiu que ele sobrevivesse. A mesma bala que está agora incrustada na coroa desta imagem. “E a multidão respondeu com uma Avé Maria, sendo evidente no rosto de todos o intenso simbolismo deste cruzamento de símbolos, memórias e personagens”, conclui Marco Daniel.

Chegando, finalmente, ao corredor de acesso ao altar, o cortejo esperou que o Papa ali se apresentasse para iniciar a procissão entrada, com a imagem escoltada pela guarda suíça e seguida pelo reitor de Fátima, dois vigilantes do Santuário e o próprio Marco Daniel. “É das coisas mais inesquecíveis que se pode viver. Da nossa perspetiva, víamos a imagem branca subindo em direção a um homem vestido de branco, tendo como pano de fundo a figura de Cristo ressuscitado, no alto da basílica de S. Pedro. É o cerne da mensagem de Fátima concentrado naquele quadro vivo, com Maria no caminho do sucessor de Pedro, chefe da Igreja cuja cabeça é Cristo. Especialmente tocante, para mim, foi a expressão do Papa, de rosto sereno, quase contemplativo, olhar profundo, sinal da seriedade e importância deste momento”, conta.

Quando a imagem chegou mais perto, o Papa Francisco desceu ao seu encontro, toucou-lhe e, após ser colocada no seu andor no presbitério, “como já tinham feito os Papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI – este incrustado numa rosa de ouro –, também Francisco presenteou Nossa Senhora de Fátima com um rosário”, lembra o “guardião” da imagem.

Começou então a celebração da “via matris”, com a meditação das sete estações da via dolorosa de Maria. “Fátima está associada às dores da humanidade e a escolha desta oração é sintomática disso mesmo. Sentimos isso no rosto sereno e sério do Papa e na forma como as muitas dezenas de milhares de pessoas viveram aquela oração”.

 

Noite de oração e veneração

Depois desta celebração, a imagem seguiu para o Santuário do Divino Amor, onde se realizou uma vigília durante praticamente toda a noite, em ligação com vários santuários marianos pelo mundo inteiro, culminando com a Eucaristia às 05h00. O Papa associou-se a este momento com uma vídeo-mensagem transmitida no início.

A comitiva de Fátima fez turnos para que estivesse sempre alguém junto da imagem. E o testemunho de todos é unânime. “Foi uma impressionante manifestação de fé, com cânticos, textos lidos por atores italianos e a oração do rosário. A meio da noite, organizou-se um cortejo de veneração. Um caudal de gente passou durante horas diante da imagem. O que tinha acontecido na praça, era agora ali repetido, embora de forma mais contida, umas pessoas acenando com a mão, outras a tentar tocar, outras ainda em oração ou de pé por longos minutos à espera de um lugar sentado. Chegaram alguns padres do Colégio Português, um deles o Pedro Viva, da diocese de Leiria-Fátima, que nos relataram o enorme congestionamento de trânsito no exterior, com mais de um quilómetro de fila”.

 

Uma despedida “à Fátima”

No dia 13, a imagem foi entronizada com um novo ‘giro’ pela praça de S. Pedro. “Tal como em Fátima, a multidão acenava com lenços brancos. Muita gente vestia roupas com imagens marianas estampadas, outros levavam consigo imagens de Nossa Senhora ou objetos religiosos como os que estamos habituados a ver no nosso Santuário. O Avé de Fátima foi entoado várias vezes, por diferentes grupos e com arranjos diversos, uns mais eruditos, outros mais populares, bem como outros cânticos de Fátima, alguns deles em português. Podem imaginar a nossa emoção ao ouvir e acompanhar a plenos pulmões, no coração da praça de S. Pedro, o verso “hossana, Rainha de Portugal!”, refere o nosso interlocutor.

No início da Eucaristia, na incensação do altar, o Papa desvia o seu curso e vai tocar a imagem de Nossa Senhora, como que saudando-a. “Pareceu-me um daqueles momentos típicos do Papa Francisco, a quebrar o protocolo estabelecido”, considera Marco Daniel. Sobre a homilia do Papa, diz que “foi uma belíssima oração de mariologia, partindo da Palavra de Deus nas leituras desse dia para mostrar como Maria é imagem daquilo que é pedido por Deus na Sagrada Escritura e é resposta ao que Deus pede a toda a humanidade”.

O mesmo se pode dizer do ato de consagração do mundo a Nossa Senhora, no final da celebração. “Registo com especial significado o facto de o Papa fazer explicitamente referência a Nossa Senhora de Fátima, logo na primeira frase da oração. Na tradição das consagrações feitas pelos Papas a Nossa Senhora, é mencionado o seu Imaculado Coração, mas desta vez é claramente incluída a palavra Fátima. Ao ler aquele texto, tenho a quase a certeza de que o Papa tinha diante de si esta imagem mariana de Fátima, sobretudo quando refere o olhar e o sorriso de Maria, que perecem derivar diretamente da expressão figurativa da própria escultura”, afirma o diretor do Museu do Santuário.

No final, enquanto a multidão num mar de lenços brancos entoava, de novo, o hino de Fátima, a estátua foi conduzida para o interior da basílica de S. Pedro. “De novo longe do olhar das multidões, foi um quadro impressionante acompanhar a imagem pela nave central da basílica, completamente vazia, mas respirando a majestosa arquitetura, com o trono da cátedra papal ao fundo”, recorda Marco Daniel.

 

Com o Papa em Santa Marta

O grupo de Fátima ficou hospedado em Santa Marta, a residência onde o Papa Francisco insiste em permanecer. Pôde, assim, testemunhar como é verdade que ele se cruza com os restantes hóspedes pelos corredores ou às refeições, num ambiente de cordial convivência e sem protocolos especiais. “Estar a tomar o pequeno almoço e ver o Papa entrar na sala e ir servir-se como todos os outros, é uma coisa que nunca esperamos vir a acontecer-nos”. Mas aconteceu.

Foi também nessa casa que viram o Papa dirigir-se à capela para a habitual oração que faz antes da refeição. Aí estava colocada a imagem, antes de ser posta no estojo para a viagem de regresso a Fátima. Foi esse o último contacto que teve com a Senhora da Capelinha das Aparições, num momento privado. Quem sabe se para lhe dizer um “até breve”…

 

 

Irmã Ângela Coelho ofereceu relíquias dos Videntes ao Papa

“Os Pastorinhos são para nós modelo de amor ao Santo Padre”

2013-10-15 fatima roma jornada 2A irmã Ângela Coelho, postuladora da causa para a canonização de Francisco e Jacinta Marto, foi outro dos membros desta comitiva. Também ela refere a enorme emoção que viveu neste “momento histórico para a Igreja e para o mundo”. O que mais a impressionou foi “o amor que as pessoas sentem e manifestam por esta imagem”.

Participaram nestas jornadas do Ano da Fé mais de 800 grupos ligados a diferentes sensibilidades de devoção mariana. “Parece-me que nenhuma outra imagem congregaria tanta gente”, refere a religiosa, recordando o modo fervoroso como “as pessoas mostravam carinho, cantavam, acenavam, rezavam, suplicavam e agradeciam, à medida que a imagem passava por elas”. A multiplicidade de raças, nacionalidades, géneros sociais e idades oferecia “um quadro bem representativo de toda a Igreja e de toda a humanidade a olhar para esta imagem com esperança e carinho”. E alguns pormenores eram “especialmente belos”, como o caso de “três pequeninas crianças, que pela língua e aspeto físico seriam oriundas de algum país do Norte da Europa, vestidas com os trajes típicos dos Pastorinhos de Fátima”.

A título pessoal, “não vou esquecer o mistério que me foi dado viver de cumprimentar dois papas num dia”, refere a irmã Ângela Coelho. Mas o momento verdadeiramente marcante foi o da apresentação de cumprimentos ao Papa Francisco, na tarde de sábado, após a catequese mariana. Ela conta:

“O primeiro a cumprimentar o Papa foi o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, seguindo-se outros reitores de santuários marianos, como Pompeia ou La Salette. Ao chegar a minha vez, disse a Sua Santidade que em Portugal os pastorinhos Francisco e Jacinta são modelo de amor pelo Papa e inspiradores da nossa oração e da oferta dos nossos sacrifícios e da nossa vida pelo Santo Padre. Depois, apresentei-lhe a oferta de um estojo com relíquias dos Pastorinhos e um fragmento da azinheira onde Nossa Senhora apareceu em agosto de 1917. O Papa Francisco beijou carinhosamente as relíquias e disse: «Sim, rezem por mim»! Recordo deste momento, sobretudo, o ar de alegria do Santo Padre e o modo atencioso como ouviu e falou com cada um de nós, fazem-nos sentir como se só existíssemos nós com ele naquele instante”.

Mas esse foi apenas um breve episódio, entre muitos outros que viveu nestes dois dias de emoções intensas e que, garante, “não há palavras para descrever”.

 

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