“Não há vacina contra a desigualdade”

Os dez homens mais ricos do mundo mais do que duplicaram as suas fortunas de 700 mil milhões de dólares para 1,5 biliões – o equivalente a 15 mil dólares por segundo ou 1,3 mil milhões de dólares por dia – durante os primeiros dois anos da pandemia.

POR HELENA OLIVEIRA

A riqueza dos 10 homens mais ricos do mundo duplicou desde que a pandemia começou. Os rendimentos desceram para 99% da população mundial. Mais de 160 milhões de pessoas caíram nas malhas da pobreza. E este fosso de desigualdade está a contribuir para a morte de pelo menos 21 mil pessoas por dia – ou uma pessoa a cada quatro segundos, – seja por causa da fome ou da falta de acesso a cuidados de saúde que salvam vidas.

Estas são algumas das conclusões decorrentes do estudo anual da Oxfam sobre a desigualdade – este ano intitulado “A Desigualdade mata” – e que todos os anos é publicamente divulgado na reunião de líderes em Davos, este ano ainda em formato não presencial. Todavia e apesar de os números serem chocantes, pouco ou nada é feito para estreitar este enorme fosso entre ricos e pobres e quem tem a paciência (sim, quem gosta de ler artigos sobre a pobreza?) de acompanhar esta evolução (?), percebe facilmente que os ricos continuam a ficar mais ricos e os pobres mais pobres.

Se é verdade que o surgimento da Covid-19 tem contribuído significativamente para este aumento de desigualdades económicas e sociais, tal não significa que o que está a acontecer é fruto do acaso, mas sim de escolhas, como afirma a Oxfam. A organização denomina esta situação como “violência económica”, a qual “é perpetrada quando são feitas escolhas políticas estruturais para as pessoas mais ricas e mais poderosas”, causando em simultâneo danos directos que acabam por atingir a humanidade como um todo, em particular as pessoas mais pobres, a raparigas e mulheres e os grupos da sociedade mais socialmente excluídos. E se a desigualdade contribui para a morte de pelo menos uma pessoa a cada quatro segundos, é mais do que urgente redesenhar radicalmente as nossas economias para nos centrarmos na igualdade.

Para a Oxfam, é possível recuperar a riqueza extrema através de uma tributação progressiva, do investimento em medidas públicas eficazes e comprovadas de combate à desigualdade. “Se formos corajosos, e ouvirmos os movimentos que exigem mudanças, podemos criar uma economia em que ninguém vive na pobreza, nem com uma riqueza inimaginável – na qual a desigualdade já não mata”, pode ler-se no relatório.

A pandemia do coronavírus tornou-se activamente mais mortal, mais prolongada, e mais prejudicial para os meios de subsistência devido à desigualdade. A desigualdade de rendimentos é um indicador mais forte para se morrer de COVID-19 do que a idade. Milhões de pessoas estariam ainda vivas hoje se tivessem tido uma vacina – mas estão mortas, pois foi-lhes negada algo a que teriam direito – enquanto as grandes farmacêuticas continuam a deter o controlo monopolista destas tecnologias. Este apartheid no acesso às vacinas está a tirar vidas e a colocar uma carga ainda mais pesada na desigualdade em todo o mundo.

Instituições como o FMI, o Banco Mundial, o Credit Suisse e o Fórum Económico Mundial – que contribuíram para a elaboração deste relatório – concordam que a pandemia desencadeou um pico na desigualdade em países de todo mundo. E, em vários destes países, as pessoas mais pobres têm quase quatro vezes mais de probabilidades de morrer de Covid-19 comparativamente às que mais rendimentos auferem. Por outro lado, estima-se que o fosso entre nações ricas e pobres aumente pela primeira vez numa geração e que as pessoas que vivem em países de rendimento baixo e médio têm, em média, o dobro da probabilidade de morrer de Covid-19 do que as que vivem em países ricos. O relatório da Oxfam aponta ainda a forte probabilidade de que pelo menos 73 países terão de ser intervencionados pelo FMI a curto prazo, o que e com as medidas de austeridade que são sempre necessárias nestes casos, agravará ainda mais a desigualdade.

Neste panorama, a Oxfam chama particular atenção para o facto de os direitos das mulheres e o progresso no sentido da igualdade de género virem a ser duramente atingidos por estas medidas de austeridade, no meio de uma crise que já atrasou o objectivo de alcançar a paridade de género nos próximos 135 anos, quando anteriormente as estimativas apontavam para “apenas” 99 anos. O que torna esta situação ainda mais dura é o facto das mulheres em muitos países estarem igualmente a sofrer uma segunda pandemia de “violência baseada no género”. Ou seja e como em qualquer crise, são elas que mais absorvem o choque de uma maior carga de trabalho não remunerado, o que as mantém presas no fundo da economia global. O custo da profunda desigualdade que enfrentamos está nas vidas humanas. E como este documento demonstra, com base em estimativas conservadoras, a desigualdade contribui para a morte de pelo menos 21.300 pessoas por dia ou, e importa relembrar, que em cada quatro segundos, a desigualdade contribui para a morte de pelo menos uma pessoa.

A “variante multimilionária”

Fazer comparações históricas com a escala da actual crise de desigualdade é um desafio, mas existem dados actuais mais do que suficientes para demonstrar o quão distorcidos parecem estar os valores que deveriam acompanhar a própria humanidade. Apesar de o assunto ser polémico pois também a ciência e a tecnologia têm de avançar, a Oxfam recordou e por exemplo, que em Julho de 2021, Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo (que vai alternando com Elon Musk neste ranking) e graças à sua empresa Blue Origin, entrou na cápsula espacial New Sheppard e foi dar uma “voltinha” ao espaço. A viagem durou cerca de 11 minutos e ficará na História como o primeiro voo espacial sem um piloto humano e com uma tripulação totalmente civil. Histórica é também a quantia despendida neste voo que, e apesar de não existirem certezas quanto aos números, estima-se que tenha custado 2,1 milhões de euros por minuto – ou 36 mil por segundo – ao que se juntam os 24 milhões de dólares por um bilhete arrecadado por um milionário anónimo num leilão e que quis oferecer ao filho – um jovem de 18 anos – um lugar ao lado de Bezos nesta viagem.

Como afirma a Oxfam, o planeta pode ser lindo visto de lá de cima, mas deveria ser difícil deitar a cabeça na almofada e esquecer que, cá em baixo, milhões de pessoas estão a morrer por não terem acesso à vacinação ou por não terem dinheiro para comprar comida. E mais do que infeliz foi a declaração do patrão da Amazon quando voltou a ter os pés assentes na terra: “Quero agradecer a todos os empregados e clientes da Amazon porque vocês pagaram por tudo isto”. A Oxfam recorda ainda que o aumento da fortuna de Jeff Bezos – e só na altura da pandemia – seria suficiente para pagar a vacinação em segurança de todos os habitantes do planeta.

Adicionalmente, mas também como já é habitual, o relatório da Oxfam é particularmente crítico relativamente aos mais ricos do mundo. “Uma pequena elite de 2.755 multimilionários viu as suas fortunas aumentarem ainda mais durante a Covid-19 comparativamente ao total dos últimos 14 anos”, escreve a organização, acrescentando ainda que este é o maior aumento anual de riqueza desde que há registos.

Por outro lado e devido ao facto da desigualdade na vacinação de todos os países, os governos permitiram que o coronavírus tenha sofrido mutações perigosa e, em simultâneo, criaram também as condições para o surgimento de uma variante inteiramente nova, apelidada pela Oxfam como “a variante multimilionária”. Novos números e análises divulgados em Dezembro de 2021 pelo Laboratório Mundial da Desigualdade revelam que, desde 1995, o 1% mais rico da população mundial capturou 19 vezes mais do crescimento da riqueza global do que os 50% “da base” da humanidade.

É sabido que quando a pandemia surgiu, a ideia de que estávamos todos no mesmo barco e que, em conjunto, poderíamos vencer um inimigo invisível e tornarmo-nos até uma sociedade mais coesa e solidária, acabou por conferir uma dose de esperança no meio de um medo que não poupou ninguém. Para além disso e como sublinha o relatório da Oxfam, “acreditávamos e queríamos acreditar no que nos diziam repetidamente os políticos: que íamos ser afectados por esta terrível doença de forma igualitária, independentemente da nossa classe, sexo, raça, ou país em que vivíamos”. Como também sabemos, os governos e em particular os países mais ricos e com maiores meios, libertaram somas astronómicas para ajudarem os seus cidadãos neste período profundamente atípico e assistimos à maior maratona científica para se descobrir uma vacina contra o vírus.

Depois do milagre das vacinas, acreditámos igualmente que estas seriam um bem público global, tal como políticos e várias outras entidades tinham assegurado. No entanto e como se pode ler no relatório da Oxfam, “estas foram de imediato fechadas num cofre onde o que mais contava era o lucro privado e os monopólios e, em vez de se vacinar milhões de pessoas nos países de baixo e médio rendimento, criámos vacinadores multimilionários ao mesmo tempo que os gigantes farmacêuticos decidiam quem devia viver ou morrer”.

Desta forma, 2021 é definido pela organização Oxfam sobretudo por aquilo que denominam como um “vergonhoso apartheid de vacinas, uma nódoa na história da nossa espécie”,na medida em que esta catástrofe provocada pelo homem tirou as vidas de milhões de pessoas que poderiam ter sido salvas em países com escasso acesso a vacinas.

As grandes clivagens actuais estão a ser impulsionadas tanto pelo aumento da desigualdade entre países, uma vez que as nações ricas são capazes de vacinar em massa as suas populações com o objectivo de atingirem o mais rapidamente possível um determinado nível de normalidade, como também e ao mesmo tempo vemos os mais ricos não só a resistir ao turbilhão económico criado pela Covid-19, como ainda a aumentarem substancialmente os seus rendimentos.

E é por isso que a Oxfam afirma que “não há vacina contra a desigualdade”.

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