Na Missa Crismal D. António Marto pede que os padres tenham coração de pastor

Eram nove dezenas de ministros que, dado o afastamento recomendado pelas autoridades, acabaram por encher a Catedral de Leiria, fazendo-lhes companhia alguns leigos que também quiseram participar.

Já lá vão mais de dois meses que uma das celebrações principais do calendário litúrgico era suposto ter-se realizado. O surto epidémico de covid-19 e o confinamento necessário, obrigou a mudança de data. A Missa Crismal que teria sido na Quinta-Feira Santa, no dia 9 de abril, acabou por ser celebrada hoje, 19 de junho.

Mesmo assim, foram evidentes os sinais que revelavam o necessário distanciamento social. Desde logo, os padres da diocese de Leiria-Fátima tiveram de se inscrever para a Eucaristia que lhes é mais querida. Depois, as marcações dos lugares e a obrigatoriedade do uso da máscara serviu de cenário à cerimónia em que os sacerdotes renovam as suas promessas sacerdotais e em que, juntos, prometem solenemente unir-se mais a Cristo, ser ministros fiéis dele, ensinar e oferecer o santo sacrifício em seu nome.

Eram nove dezenas de ministros que, dado o afastamento recomendado pelas autoridades, acabaram por encher a Catedral de Leiria, fazendo-lhes companhia alguns leigos que também quiseram participar. À entrada, a equipa de acolhimento, munida de gel desinfetante, orientava a distribuição dos lugares. Nenhum presbítero escapou, e mesmo os mais distraídos eram chamados a atenção.

O dia da Eucaristia e do sacerdócio

A Missa Crismal, é presidida pelo bispo e concelebrada pelos presbíteros da Diocese. Nela se consagra o Santo Crisma — donde vem o nome de “missa crismal” — que é o óleo usado no sacramento da Confirmação (Crisma) quando o cristão é confirmado na graça e no dom do Espírito Santo, e também no sacramento da ordem, para ungir os “escolhidos” que irão trabalhar no anúncio da Palavra de Deus, conduzindo o povo e santificando-o no ministério dos sacramentos. Na Missa Crismal também são consagrados os óleos que serão usados nos enfermos e batismos.

O tema desta celebração é o sacerdócio, por ser memória do dia em que o próprio Jesus Cristo institui a Eucaristia juntamente com o ministério ordenado: ao entregar o mistério da Eucaristia à Igreja, Jesus também instituiu o sacerdócio. Os textos da missa apresentam um conjunto catequético sobre o sacerdócio ministerial e também sobre o sacerdócio geral dos fiéis.

O momento mais peculiar realiza-se a seguir à homilia. Na missa crismal, não se recita o Credo. No seu lugar, os padres renovam as promessas sacerdotais. Depois, os óleos são levados em procissão ao altar, onde o bispo os recebe e consagra.

Pastores que se querem com coração

Como seria de esperar, a homilia do cardeal D. António Marto foi dedicada aos seus presbíteros e começou por ser contextualizada na situação inédita da pandemia. Apesar dos procedimentos habituais terem sido modificados, a Missa Crismal, “para mim, é sempre uma bela oportunidade de vos saudar fraternalmente, de vos dizer mais uma vez a minha estima e o meu apreço por aquilo que sois e fazeis, pelo zelo com que, de muitos modos e até sacrifícios, tendes exercido o vosso ministério”.

Duas palavras se destacaram no discurso homilético do bispo diocesano: coração e pastor. Desde logo, a analogia do pastor que acompanhava as leituras do dia, são o ponto de partida da sua preleção. Refere o profeta Ezequiel, e os evangelistas Lucas e João para concluir que “numa sociedade virtual, anónima e individualista como a nossa, é fácil ser esquecido e ignorado, mas o coração de Jesus não esquece ninguém: cada um é amado pelo Senhor e chamado pelo nome próprio”. E explica que “mesmo afastados, cansados ou oprimidos, o Senhor tem compaixão como teve pelas grandes multidões porque lhe pareciam “ovelhas sem pastor”; Jesus não abandona nenhuma das suas ovelhas ao seu destino; recolhe-as e guarda-as, não apenas uma vez, mas sempre!”.

Para o prelado, o coração de Jesus move-se em duas direções que não são antagónicas: “voltado para o Pai e, com o amor do Pai, voltado para o povo”. E este é o modelo do coração de cada sacerdote, “atraído por Deus e pelo povo de Deus a amar e servir: o primeiro aspeto funda a nossa espiritualidade presbiteral; o segundo inspira e motiva a nossa vida e ação pastoral”.

Faz ainda a referência habitual ao Papa Francisco e à sua pastoral da proximidade, do acolhimento e acompanhamento ao invés da “tentação de se acomodar a uma pastoral de conservação, assente nas práticas tradicionais consolidadas”. Também hoje sucede como no evangelho: “a gente cansada, abatida e ferida segue Jesus, porque não impõe fardos, não é distante, não julga as pessoas à partida, não tem pressa. Pelo contrário, pára, oferece a sua proximidade de compaixão, de que a gente tanto precisa para recomeçar vida nova”.

Homilia: https://bit.ly/2AQWgxh
Galeria de fotos: https://bit.ly/2NbLTGT

Texto da homilia

Celebramos hoje a missa crismal num tempo em que sentimos a precariedade da nossa vida e dos nossos compromissos apostólicos, a dificuldade de conviver com uma situação inédita. Até os modos habituais de nos relacionarmos, organizarmos, celebrarmos e rezarmos foram modificados.

Mas a missa crismal mantém toda a sua beleza com a bênção dos santos óleos, a memória da nossa ordenação, a renovação das promessas sacerdotais. São gestos intensos que nos envolvem e tocam no íntimo. Para mim é sempre uma bela oportunidade de vos saudar fraternalmente, de vos dizer mais uma vez a minha estima e o meu apreço por aquilo que sois e fazeis, pelo zelo com que, de muitos modos e até sacrifícios, tendes exercido o vosso ministério. Saúdo de modo particular os jubilários aos quais dirijo em nome de todos calorosas felicitações e com eles damos graças ao Senhor. Também fazemos memória de sufrágio pelos irmãos que, desde a Páscoa do ano passado, partiram para a casa do Pai.   

Celebramos a missa crismal dentro da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, Dia mundial de oração pela santificação dos sacerdotes. A liturgia ajuda-nos a contemplar o mistério do amor de Deus através do coração do seu Filho, que se revela como o coração de um Bom Pastor e nos chama a ser Pastores segundo o Coração de Cristo. 

O Coração do Bom Pastor

A imagem do pastor é muito sugestiva e cara aos profetas. Já Ezequiel a usava: “Eu próprio cuidarei das minhas ovelhas… e as reunirei dos vários países para as reconduzir à sua própria terra. Apascentá-las-ei nos montes de Israel. Hei-de procurar a ovelha que anda perdida e reconduzir a que anda tresmalhada. Tratarei a que estiver ferida, darei vigor à que andar enfraquecida”. O Evangelho de Lucas, fazendo eco às palavras do profeta, refere a parábola de Jesus que se identifica como Bom Pastor a tal ponto que arrisca e deixa tudo para ir à busca da ovelha perdida. No Evangelho de João, o próprio Jesus se apresenta como o Bom Pastor que ama e conhece as suas ovelhas, não de modo indistinto, mas pelo nome próprio, com a sua história e as suas necessidades e em cada uma põe todo o seu afeto e esperança.

Numa sociedade virtual, anónima e individualista como a nossa, é fácil ser esquecido e ignorado. Mas o coração de Jesus não esquece ninguém; cada um é amado pelo Senhor e chamado pelo nome próprio. Mesmo porventura afastados, cansados ou oprimidos, o Senhor tem compaixão como teve pelas grandes multidões porque lhe pareciam “ovelhas sem pastor”. Jesus não abandona nenhuma das suas ovelhas ao seu destino; recolhe-as e guarda-as, não apenas uma vez, mas sempre!

No coração de Cristo, Bom Pastor, contemplamos a revelação do amor, da misericórdia e da ternura do Pai. Em cada palavra, gesto e sinal, em cada atitude e encontro de Jesus resplandece o amor misericordioso e fiel do Pai. Mostra-nos que o seu amor não tem limites, não se cansa, nunca desiste, ama até ao fim. Revela ainda que tem uma predileção pelos pequenos, frágeis e afastados, porque deseja chegar a todos e que nenhum se perca, em qualquer situação que se encontre, qualquer que seja o percurso da sua existência. Quem, pelos caminhos da escuta e meditação do Evangelho, da oração pessoal, da participação na liturgia e da prática do amor ao próximo, se aproxima dele, encontra na relação com ele amparo, sustento e um guia seguro para a sua vida.

O nosso coração de Pastores

O Senhor não cuida do seu povo com uma corporação de altos funcionários, mas através de pastores segundo o seu coração. Como pastores do povo de Deus, o Senhor chama-nos por isso mesmo a ser discípulos configurados a Cristo, Bom Pastor, cujo coração se movia em duas direções intimamente unidas: voltado para o Pai e, com o amor do Pai, voltado para o povo. Assim deve ser o coração do padre, atraído por Deus e pelo povo de Deus a amar e servir. O primeiro aspeto funda a nossa espiritualidade presbiteral; o segundo inspira e motiva a nossa vida e ação pastoral.

Um coração voltado para Deus

Jesus realiza a sua missão com o seu coração intimamente unido ao do Pai. Embora entrando no mundo das feridas do povo, retira-se para o monte em oração e mergulha no coração de Deus. Só assim conhece as ovelhas pelo nome e vai à busca das perdidas. Esta atitude é inspiração para o nosso ministério: cada dia, sobretudo na oração, cada um de nós recebe luz e coragem para compreender como ser um pastor que busca a vontade do Pai, aberto às suas inspirações e novidades mesmo quando disturbam a minha comodidade e os meus planos.

Para que o sacerdote seja configurado ao Coração de Cristo e tenha os seus sentimentos, é necessário que o ponto firme da sua vida quotidiana seja a profunda amizade pessoal, íntima e vital com o Senhor, cultivada na oração, na celebração, na missão apostólica, no próprio celibato vivido como entrega total. O déficit de intimidade traz consigo a frustração, a insatisfação, o desânimo. 

Só nesta união com Cristo e com a sabedoria do seu Espírito nos tornaremos pastores compassivos e compreensivos, perspicazes, atentos, capazes de observar a realidade concreta e de acolher cada um com o seu rosto, a sua história, os seus dons e as suas misérias.

Um coração voltado para o povo

Ser pastor é ter como Cristo um coração misericordioso e universal voltado para o povo, partilhando as alegrias e dores, oferecendo  dom do evangelho e curando as suas feridas com compaixão e ternura, como nos recorda o Papa Francisco: “O coração do Bom Pastor está voltado para nós, polarizado sobretudo naqueles que estão distantes; para aí aponta obstinadamente a sua bússola para que nenhum se perca”. Por isso, também o padre configurado a Cristo “é ungido para o povo, não para escolher os próprios projetos, mas para estar próximo da gente concreta que Deus lhe confiou. Nenhum é excluído do seu coração, da sua oração, do seu sorriso. Com olhar amoroso e coração de pai, acolhe, inclui e, quando deve corrigir, é sempre para aproximar. Não despreza nenhum, mas está pronto a sujar as mãos por todos. O Bom Pastor não conhece as luvas”.

A este estilo, o Papa chama-lhe a pastoral da proximidade, do acolhimento e acompanhamento. Por isso nos exorta a ser instrumentos da ternura do Senhor, particularmente neste tempo: “Deixemo-nos surpreender mais uma vez pelo Ressuscitado. Que seja Ele, do seu lado ferido, sinal de quão dura e injusta se torna a realidade, a estimular-nos a não voltar as costas à dura e difícil realidade dos nossos irmãos. Que seja Ele a ensinar-nos a acompanhar, curar e enfaixar as feridas do nosso povo… Que sejam as mãos chagadas do Ressuscitado a consolar as nossas tristezas, a levantar a nossa esperança e a impulsionar-nos a procurar o Reino de Deus para além dos nossos refúgios habituais. Deixemo-nos surpreender também pelo nosso povo fiel e simples, tantas vezes provado e dilacerado, mas também visitado pela misericórdia do Senhor… Quanto há para aprender com a força do povo fiel de Deus que encontra sempre o modo de socorrer e acompanhar quem caiu. A Ressurreição é o anúncio de que as coisas podem mudar”. 

A tentação de se acomodar a uma pastoral de conservação, assente nas práticas tradicionais consolidadas, é muito forte. Mas também hoje sucede como no evangelho. A gente cansada, abatida e ferida segue Jesus porque não impõe fardos, não é distante, não julga as pessoas à partida, não tem pressa. Pelo contrário, pára, oferece a sua proximidade de compaixão, de que a gente tanto precisa para recomeçar vida nova. 

Este coração de pastores voltado para o povo requer, como já referi, proximidade, compaixão e cuidado, mas também partilha fraterna, criatividade pastoral numa sinergia de colaboração e recursos interparoquiais, num trabalho de evangelização com oferta variada de percursos de primeiro anúncio, de formação e de solidariedade.

Olhando para a figura de Maria Santíssima, que contemplaremos nas JMJ, vemos como isto é possível. Deus pode realizar em nós as maravilhas que realizou nela se, com prontidão e generosidade, lhe oferecermos o nosso “sim”: “eis o servo do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”!

Caros irmãos padres, com esta disponibilidade de entrega ao Senhor renovamos as promessas da nossa ordenação. Agradeço-vos pelo vosso “sim” a dar a vida, unidos ao Coração de Jesus, Bom Pastor. Nele está a fonte da nossa alegria!   

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