“Missão País” ou o testemunho da fé pelo serviço

A “Missão” andou pelo “País” e também pela Diocese de Leiria-Fátima, no passado mês de fevereiro. Sendo um projeto de três anos, a paróquia da Vieira de Leiria recebeu o “bónus” de um 4.º ano, tal foi a empatia criada ente o grupo e a comunidade. Por sua vez, começou este ano a aventura de um grupo nas paróquias da Boa Vista e de Santa Eufémia e de outro na paróquia da Batalha.

Foi a este último grupo que pedimos o testemunho de como decorreu o primeiro contacto e que nos explicasse me que consiste a sua missão. Passamos a apresentar o texto enviado pelos jovens voluntários Maria e Guilherme.

 

O que é a “Missão País”

Este é um projeto católico que organiza e desenvolve as Missões Universitárias em várias faculdades de Portugal, podendo atualmente ser encontrado nas faculdades do Porto, de Lisboa e de Coimbra. Cada missão consiste numa semana de apostolado e de ação social intensivos numa terra portuguesa, durante as férias entre o 1.º e o 2.º semestres escolares. Assim, todos os anos por esta altura, milhares de jovens partem para testemunhar a fé em Jesus e mostrar como se pode viver uma fé jovem através da caridade e do serviço.

Todos os que vivem esta alegria em Cristo são chamados a missionar e a contagiar corações! E, para isso, não é preciso ir até aos confins do mundo… Não é sequer preciso ir mais longe do que o virar da esquina. Podemos e devemos missionar aqui, no nosso país, que tanto precisa de nós para continuar a “inspirar gerações que vivam a fé católica em missão”!

A “Missão País” divide-se em três componentes. A primeira é a missão externa, que consiste no contacto dos missionários com a comunidade local onde a Missão ocorre. Para esse contacto ser o mais abrangente e próximo possível a cada pessoa, os missionários dividem-se em grupos mais pequenos – comunidades – e missionam em locais diversos. A segunda é a missão interna, que se pode traduzir no espírito de grupo entre os missionários, desenvolvido a partir da experiência de voluntariado e de oração. Por fim, a missão pessoal, que consiste na aprendizagem e no caminho que cada um faz durante a semana e que traz consigo para o dia-a-dia. A experiência de ser instrumento nas mãos de Deus numa realidade concreta provoca um conjunto de pequenas transformações interiores, que devem ser apreendidas por cada um, e que, com fé e perseverança, podem vir a transformar a vida.

 

Na Batalha

Este primeiro ano de Missão na Batalha foi marcado por uma generosa receção da comunidade, que só faz os missionários ansiarem pelos próximos dois anos nesta localidade incrível. A nossa missão externa passou por vários locais e por diversas pessoas: no Centro de Dia e na Unidade de Cuidados Continuados da Santa Casa da Misericórdia, tivemos a oportunidade de estar em contacto com as gerações mais antigas, que tantas histórias tinham para nos contar e tanta coisa nos ensinaram; no ATL, durante a pausa letiva de Carnaval, e na Escola Sede e Centro Escolar, estivemos com as gerações mais jovens, que nos contagiaram com a sua energia e alegria de viver. Durante o dia, vários missionários iam também de porta em porta, visitar as pessoas que não encontraríamos em nenhum dos locais onde fazíamos missão, com o intuito de evangelizar, ajudar nas suas tarefas diárias ou simplesmente fazer companhia. Por detrás de muitas portas, há uma solidão enorme, e os nossos missionários iam porta a porta com a missão de levar a paz a essas casas.

Durante esta semana, a missão interna contou com várias atividades ao cair da noite: conhecemos três testemunhos de vida e de fé; visitámos Fátima para uma oração; tivemos uma noite de esclarecimento de dúvidas de fé; celebrámos uma vigília na igreja da Golpilheira; e apresentámos um teatro no auditório paroquial. Na última noite, tivemos ainda vários jantares com algumas das famílias da Batalha, que se disponibilizaram para receber dois ou mais missionários para a refeição, com o propósito de os conhecer melhor. Para os jovens missionários, foi a oportunidade perfeita para contactarem mais intimamente com a comunidade.

Quanto à missão pessoal, cada ano os missionários fazem um caminho de fé inspirado num excerto de um Evangelho. Passagem essa que dá também origem ao lema da Missão de cada ano (“A Paz Esteja em Tua Casa”, em 2018).

O melhor é “ouvir” em discurso direto alguns dos missionários sobre o que viveram durante essa semana. Aqui deixamos três desses testemunhos…

 

“O meu amigo Carlos”

Vou dar-vos a conhecer um pouco do meu amigo Carlos.

Estava um tanto ou quanto receosa com a ida à Unidade de Cuidados Continuados. A incerteza da vida e a sua fragilidade mexem sempre comigo. Aceitei o desafio e deixei-me surpreender por um senhor sentado na sua cadeira de rodas, com cabelos grisalhos, um sorriso caricato e um computador à sua frente. Escrevia letra a letra algo com um ar muito compenetrado. Pela curiosidade, aproximei-me. Cedo percebi que aquele computador era a resposta à surpresa que a vida lhe pregara: era o seu meio de comunicar com quem se cruzava. Sentei-me ao seu lado, paciente, e esperei que notasse a minha presença.

Perguntei-lhe se era o senhor Carlos e, com um sorriso que ditava o gozo, acenou positivamente. Perguntei-lhe qual era a sua história, de onde vinha e como aprendeu a mexer nas tecnologias da nova geração. Lenta e ponderadamente, o senhor Carlos respondia às minhas perguntas através de um documento Word. Uma tarde passou e, se no início éramos apenas dois desconhecidos, na hora de ir embora éramos já duas crianças que se riam de piadas e coincidências da vida. Tudo o que queria no final do dia era ficar ali sentada a partilhar mais umas horas com um senhor que em tudo me fazia recordar o meu avô. Engraçado como no final do dia já lhe adivinhava as palavras e no seu olhar via a felicidade que sentia por ter alguém com quem partilhar a sua alma aventureira.

O senhor Carlos, que teve um AVC que lhe paralisou metade do corpo e lhe retirou a fala, ensinou-me que os obstáculos da vida são ‘pós’ muito relativos, que limpamos do nosso caminho se tivermos a humildade de aprender com os outros e com o que eles nos dão. O meu amigo Carlos marcou-me, porque me mostrou que comunicar em silêncio é uma forma simples de amar.

Maria Lourenço

 

“Teatro como missão”

Foi-me dada a missão de fazer teatro. Uma missão um pouco diferente da dos outros missionários que me acompanhavam. Mesmo tendo sido eu a escolher esta opção, fiquei um pouco apreensivo quando, no dia seguinte, os outros chegavam a casa e começavam a contar como tinham gostado de estar nos lares, nas escolas ou de ter feito porta-a-porta e eu, que sempre gostei de estar com outras pessoas, comecei a pensar que o teatro talvez fosse uma missão menos importante.

Na quinta-feira, quando fomos ao Centro de Dia “em modo de ensaio” apresentar uns excertos da nossa peça, esta ideia ficou completamente destruída. Não porque a apresentação tivesse corrido muito bem – até porque alguns poderiam ter considerado aquilo um pequeno desastre – mas porque no fim do teatro as pessoas batiam palmas e tentavam cantar connosco e, no fundo, divertiam-se. No final da apresentação, a senhora mais velha do lar – que, deixem-me dizer-vos, estava a aguentar-se muito bem para quem tem 92 anos – pediu para falar e disse que queria agradecer-nos muito por termos ido lá e que, mesmo que alguns deles já não vissem ou ouvissem bem, tínhamos conseguido, através daquele teatro, transmitir-lhes alegria e, mais importante ainda, tínhamos combatido a solidão que muitos deles sentem.

No dia seguinte de manhã, fomos apresentar o teatro ao Centro Escolar e, tanto eu como os meus colegas “atores”, estávamos assustados, porque já não é fácil captar a atenção de crianças, muito menos de todas as que lá estavam. No entanto, uma vez mais, quando acabámos, senti que os miúdos tinham ficado muito alegres e que tinham gostado. No final, vieram falar comigo e disseram que eu era um totó! Atiraram-se para cima de mim e estive a brincar com eles. Senti mais uma vez que a minha missão ali estava a ser cumprida.

E, como não poderia deixar de ser, quando chegou o dia do teatro, foi quando me senti mesmo feliz por aquela ter sido a minha missão. Senti-me feliz quando os outros missionários me agradeceram, mas ainda me senti mais feliz quando olhei para as pessoas com quem fiz o teatro e sentimos que o que fizemos ali tinha sido realmente importante e que tínhamos levado alegria àquela comunidade.

David Braz

 

“Música terapêutica”

Durante toda a minha semana, reinou a diversão, simpatia e alegria. Para começar, a comunidade da Batalha recebeu-nos muitíssimo bem, sempre de braços abertos, disponíveis para ajudar no que fosse preciso e com um sorriso no rosto. Sentimo-nos bem-vindos por aquela comunidade. Sentimo-nos em família. A minha comunidade ficou a missionar na Escola Sede e no Centro Escolar. O que realmente mais me marcou foi um acontecimento na manhã de quinta-feira. Era o nosso primeiro dia a missionar na escola. Íamos dar aulas de Educação Moral e Religiosa Católica, mas chegámos um pouco antes da hora das primeiras aulas, por isso foi-nos sugerido missionar junto dos estudantes com necessidade educativas especiais. Os estudantes iam ter uma aula de música. Fiquei logo entusiasmada, pois sou uma pessoa que gosta imenso de música. Entrámos numa sala cheia de instrumentos, com os alunos e a professora já dentro da sala. Fomos apresentados e os alunos fizeram o mesmo. Começou a aula. Começaram por tocar a música “Ai como ela é bela” do Agir. A simplicidade e genuinidade dos alunos encheu aquela sala com o som dos instrumentos.

Nós juntámo-nos então à banda. A forma como a professora ajudava os alunos e a forma como os alunos estavam felizes por ter o seu espaço com os seus colegas e amigos foi simplesmente mágica. Foi um momento espetacular, onde alunos, que, infelizmente, por vezes são deixados de parte, se sentiram integrados e felizes por serem eles próprios. Para o ano, voltarei à Batalha onde mais pessoas irão tocar o meu coração de várias formas diferentes.

Carina Silva

 

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